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DICA DE FILME

"A Idade da Terra" (1980)
DIREÇÃO: Glauber Rocha.


Uma imagem vale mais do que mil palavras. Uma palavra vale mais do que mil discursos. Um discurso vale mais do que mil ideias. E, com uma ideia na cabeça, o cineasta Glauber Rocha nos inquietou e perturbou com seus filmes, sempre de maneira pouco ortodoxa. Claro que isso cobrou seu preço, pois, ainda hoje, poucos conseguiram entender sua mensagem, mesmo que ela esteja nítida em "Terra em Transe" ou "Deus e o Diabo na Terra do Sol".

O que dizer, então, de algo repleto de simbolismos e desafios como "A Idade da Terra"?

Este foi o último que ele fez, e, talvez por antever que seria sua derradeira contribuição ao cinema, parece que Glauber decidiu se jogar de cabeça no turbilhão que era o seu espírito. A busca por algo mais puro, ou até certo ponto, primitivo, mostra-se logo na primeira cena, onde vemos um pôr-do-sol, num desolado horizonte. Ao fundo, sons da natureza e de ritmos indígenas e africanos.



Corta para a representação de antigos rituais nativos de festas e matrimônios. "Só o real é eterno", diz um dos personagens. Depois, aparece uma sequência de desfile de escola de samba. Seria essa a nossa evolução? Apenas mudamos o formato e o ambiente?

Nesse desfile, inclusive, Glauber mostra que quer mexer com as sensações, as percepções do espectador ao limite. Pois, o personagem de Tarcísio Meira passa vários minutos por entre os integrantes da escola de samba, sempre com um sorriso forçado. O incômodo dele passa a ser o nosso.

A cultura, a miscigenação como parte da nossa identidade. Mas, pra quê afinal serve a nossa cultura?


Não à toa, segue-se a isso um depoimento esclarecedor a respeito dos pormenores do Golpe Militar de 1964. Isoladamente, pode parecer didático. No contexto, mostra-se provocador. Lembremos que o filme é de 80, ou seja, ainda em plena Ditadura, mesmo que mais "branda", mas ainda assim presente pelo governo de Figueiredo.

O depoimento se encerra com um questionamento pertinente, visto que o foco da conversa, até agora, tinha sido só a política externa adotada pelo Brasil:

- "O povo teve algum benefício com essa Revolução de 64?"
- "Como disse o ex-presidente Médici, no auge do crescimento econômico: 'A nação vai bem, o povo é quem vai mal'."

A partir daqui, "A Idade da Terra" vai ficando mais pulsante e contestador. Numa das melhores passagens, escutamos a fala:

"No final do século 20, a situação é a seguinte: existem os países capitalistas ricos e os países capitalistas pobres; e existem os países socialistas ricos e os países socialistas pobres. Na verdade, o que existe é o mundo rico e o mundo pobre!"




O desespero passa a ser mais intimista. Ora a câmera de Glauber treme quase o tempo, ora está a um palmo dos personagens.

"O câncer é a Direita: não morre nunca!"

"Enquanto houver opressores, não haverá felicidade!".

Palavras de ordem são repetidas em agonia  para tentar nos fazer entender, compreender.

E, o que sobra como alento, muitas vezes, resume-se à política ou à religião, que acabam acentuando ainda mais as relações de poder, a tirania, a opressão. O fanatismo, portanto, permanece como uma chaga, um câncer que se espalha pelo organismo, uma Direita que se recusa a morrer.

"Nossos alicerces foram destruídos!"

"Mesmo quando exerço a violência, eu estou consciente de que eu estou defendendo os mais sagrados direitos humanos!"


Aqui, Glauber Rocha tenta (e, consegue, na maioria das vezes) ir além da arte engajada, conferindo a ela antes um poder destruidor do que transformador. É para ser sentido, e não visto, mesmo que em doses homeopáticas.

Um exemplar bem diferente de nosso cinema, um grito de liberdade de um autêntico gênio. Porém, fica o aviso: é um grito tresloucado, de difícil digestão.

Mas, se é verdade que a arte precisa ter um propósito, Glauber cumpriu muito bem o seu papel.

Com louvor.


NOTA: 9,5/10.

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