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DICA DE FILME

"Vá e Veja" (1985)
DIREÇÃO: Elem Klimov.





Podemos dizer que a inocência é o tema central do filme "Vá e Veja". Mas, não aquela inocência engessada, e sim aquela que precisa se adaptar ao meio, aquela que está em constante transformação para não perder a essência, ou, pelo menos, para manter a sanidade intacta diante da barbárie.

As sequências inicias dessa produção, por exemplo, mostram crianças, em plena guerra brincando como se fossem soldados. Agem como oficiais adultos, sendo violentos e soltando palavrões aos montes. Mesmo assim, vemos o tempo todo que se tratam ainda de crianças.



Outra cena que ilustra muito bem isso é quando um dos garotos mostrados no início (e que será o protagonista ao longo do filme) chega em casa e fala para sua mãe que vai se alistar. Esta, em desespero, implora para que ele não vá, enquanto ele tenta acalmar as pequenas irmãs fingindo que tudo não passa de uma brincadeira da mãe.

Somos transportados para a Bielorrússia de 1943, plena Segunda Guerra, com moradores das aldeias se reunindo em guerrilhas para combater os inimigos alemães. Todos eles (inclusive, os próprios oficiais) tentam achar um sentido para uma guerra que, provavelmente, não entendem. Tentam permanecer com uma certa dignidade, o que é bem mostrado na cena em que um bando de soldados já estropiados posam para uma foto em grupo, com todos cantando um hino que simboliza seu desejo de vitória.


O ambiente inóspito, desolado, fica cada vez mais opressor a medida que o conflito avança. A tensão cresce. A brutalidade da guerra vai se mostrando mais visível. E, o garoto que conhecemos no início, com claros problemas mentais, continua sua interna e inglória luta de continuar a ser apenas um menino que acabou de sair da infância.

Tudo aqui tem um propósito; nada é gratuito. Até as explosões que servem de mero enfeite em outros filmes de guerra, em "Vá e Veja" possuem até mesmo uma função narrativa, como quando interrompem um momento de alegria do pobre garoto, que acabara de conhecer uma nova amiga.


Inclusive, essa amiga se junta a ele para tentarem escapar da guerra da maneira mais lúdica possível: tentando ser felizes, fazendo brincadeiras, quase num esforço sobre-humano de manterem alguma espécie de pureza no meio do caos. E, serão os últimos instantes de felicidade deles.

Em muitos momentos, "Vá e Veja" consegue ser perturbador, bastante perturbador. São cenas que mexem demais com os sentidos dos espectador. Os nervos são abalados de maneira muito forte, mostrando que o lado mais perverso de uma guerra não precisa ser, necessariamente, no campo de batalha.


Nesse sentido, é bom lembrar que mais de 600 aldeias da Bielorrússia foram queimadas por tropas alemãs, com toda a sua população junta. Informação, essa, muito bem retratada aqui, e de uma maneira tão brutal que é impossível não ficar indiferente.

"Vá e Veja" tem vários méritos, e um deles, é mostrar que a guerra não é uma diversão. Por isso, esqueçam aquelas cenas plásticas, esteticamente bonitas, de filmes do gênero feitos, principalmente, em Hollywood. Aqui, tudo é feio, sujo, desesperador. Limites são testados constantemente, e chega uma hora que o espectador pensa que não pode ficar pior (e fica).


No filme, a figura de Hitler é particularmente ridicularizada, principalmente no final, onde o garoto do início da produção mostra um misto de desprezo e ódio ao atirar, loucamente, num quadro com a imagem do ditador nazista.

Em termos ideológicos, também ao contrário de muitos filmes do gênero, este não se posiciona contra regimes ou sistemas. Nem anti-Comunismo, nem anti-Capitalismo; o que vemos aqui é um grito desesperado contra a brutalidade, a estupidez e a ignorância. Em última instância, uma produção anti-guerra.


Apesar de longo e com um ritmo, por vezes, muito lento, "Vá e Veja" não tem desperdício de cenas. Tudo o que é mostrado é necessário. E, as atuações, é bom que se diga, são nada menos do que brilhantes.

Enfim, trata-se de um filme de guerra como tem de ser: violento, brutal e extremamente triste (mas, sem ser apelativo). Importante e urgente assistí-lo. Nem que seja para buscarmos um pouco de humanidade em tempos difíceis.


NOTA: 10/10.

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