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DICA DE FILME

"Gladiador" (2000)
DIREÇÃO: Ridley Scott


Estórias de superação podem ser contadas de diversas maneiras. Uma das formas mais interessantes é quando essa superação vem como pretexto para mostrar diversos outros significados, alguns, inclusive, bastante atuais. "Gladiador", dirigido pelo quase sempre morno Ridley Scott, é um exemplo perfeito disso.

À primeira vista, o filme conta a luta do general Maximus, que se torna Gladiador após ter tido sua família assassinada por Comodus, filho do imperador romano Marcus Aurélius. Comodus mata o próprio pai para tirar-lhe o trono, e Maximus, um dos servos mais leais de Marcus Aurélius torna-se um incômodo para o déspota.



Regressando a Roma como gladiador, Maximus desafia o poder do atual imperador num jogo político que nem ele mesmo entende, mas que pode suscitar desdobramentos inesperados numa Roma imersa no caos social. Basta lembrar que os jogos ocorridos no Coliseu eram feitos para distrair o povo (o famoso "pão e circo"), enquanto o Senado era ameaçado pela sanha totalitária de Comodus.

Mesmo as exuberantes cenas de ação não sublimam o que o filme tem de melhor: um a defesa inquestionável da verdadeira democracia e a crítica aos governantes que fazem de tudo para alienar a população enquanto crescem o seu poder. "O povo quer mortes. Comodus dá isso, e o povo o ama", diz em certo momento um do senadores que será o pivô de uma conspiração para tirar o imperador do trono.


Paralelos com a política real são inevitáveis, principalmente se levarmos em consideração a extrema semelhança do Coliseu com um estádio de futebol, e pensarmos que, recentemente, tivemos uma Copa do Mundo que proporcionou inúmeros problemas sociais, mas que foram "mascarados" pelo sentimento de diversão e laser.

No filme, por exemplo, a cidade encontra-se com muitas dificuldades, como doenças fatais causadas pela falta de saneamento básico, porém, que são colocadas de lado durante os dias de jogos no Coliseu. A arte, de alguma maneira, passando uma mensagem relevante.


Claro, "Gladiador" também tem seus arroubos de entretenimento, e se sai bem quando envereda por esse caminho. As sequência de batalhas são fabulosas, muito diferentes dos malabarismos à lá "300". São lutas brutais, corpo a corpo, onde o espectador sente a pressão pela sobrevivência a cada instante.

E, as atuações são ótimas, com destaque, claro, para Russel Crowe e Joaquim Phoenix. Ambos, antagonistas, encarnam de forma perfeita seus papéis, indo além dos óbvios herói e vilão, dando mais profundidade à luta dos dois, apesar de estarem de lados opostos.


Apenas como ressalva, algumas cenas um pouco mais piegas e desnecessárias poderiam ter sido limadas, deixando o resultado ainda mais coeso. Mas, em se tratando de Ridley Scott já é um alívio ele ter conseguido fazer um excelente trabalho como este (talvez, o seu único).

"Gladiador" ainda pode se gabar de ser o último grande filme a ganhar o tão famoso Oscar. Afinal, de 2000 pra cá, poucos foram as produções que receberam a estatueta dourada e que podem se dar ao luxo de serem consideradas "relevantes".


Unindo ação adulta com intrigantes embates políticos, esta é uma produção que faz falta nos dias de hoje, pois em termos de épicos o cinema norte-americano anda vazio, burro e sem criatividade.

Rever "Gladiador", pois, faz-se necessário.


NOTA: 9/10.

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