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DICA DE DISCO

"Construção" (1971)
Artista: Chico Buarque.




Esse disco, facilmente, pode ser considerado como o melhor e mais importante da carreira de Chico. Não apenas por conta da qualidade das composições (tranquilamente detectada), mas também, e principalmente, devido ao período em que feito feito. Só para situar: começo da década de 70. O Brasil vivia o mais ferrenho momento da Ditadura Militar. Garrastazu Médici, ao mesmo tempo que reprimia com violência seus opositores, deixava a opinião pública eufórica com o chamado "Milagre Econômico".

O slogan governamental "Brasil: ame-o ou deixe-o" virou mote entre boa parte da população. E, é justamente nesse ambiente que, depois de um breve período de exílio na Itália, Chico Buarque volta ao Brasil. Claramente, Chico se mostra contra a situação que o país vivia, e resolve passar isso na música. Com tanta indignação em mente, o disco "Construção" é feito. As composições mostram não somente uma evolução artística de Chico, como também um maior posicionamente político e social diante da opressão do governo.




Tome-se como exemplo a faixa "Cotidiano". Aparentemente, sua letra retrata o dia-a-dia de um típico casal suburbano. "Todo dia, ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã, me sorri um sorriso pontual, e me beija com a boca de hortelã". Porém, pegando-se o histórico daquele instante, percebe-se uma co-relação com a Ditadura. Se formos pensar que tal regime obrigava a uma postura de comportamento (rotina/cotidiano), para que ninguém fosse "acordado cedo", com um "sorriso pontual", tudo faz sentido.

A canção seguinte, "Desalento", possui versos como "Vai e diz assim, que eu rodei, que eu bebi, que eu caí, que eu não sei, que eu entrego os pontos". Uma sensação de impotência com um governo que incomodava a parcela consciente da população da época. Mas, é a terceira canção do LP, "Construção", a que melhor sintetiza tanto este trabalho, como toda a carreira de Chico. Com sua métrica fabulosa, onde cada estrofe termina com palavras proparoxitonas, ela relata a dura vida dos trabalhadores da cidade. Bom lembrar que os operários eram os que mais sofriam acidentes de trabalho nas grandes cidades.




A mensagem é clara, ao mesmo tempo que extremamente poética: "Subiu a construção como se fosse máquina, agonizou no meio do passeio público, morreu na contramão atrapalhando o tráfego". Com cada palavra mudada no final das estrofes, Chico dá múltiplas visões ao ouvinte, numa música realmente fascinante, uma das melhores da MPB, sem dúvida. Ao final da canção "Construção", ainda temos alguns trechos de "Deus lhe Pague", o que deixa o contexto dela ainda mais forte: "Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir, a certidão pra nascer e a concessão pra sorrir, por me deixar respirar, por me deixar existir, Deus lhe pague".

A indignação de Chico continua nas faixas seguintes, mesmo que de forma sutil, porém, não menos contundente. Exemplo é "Cordão", que com alegria, profetiza: "Ninguém vai me segurar, enquanto eu puder cantar, alguém vai ter que me ouvir". A música "Olha Maria" é de autoria conjunta com Jobim e Vinícius, e é belíssima. Trata-se de mais uma composição que reflete o estado de espírito das coisas: "Pra minha surpresa, pra minha tristeza, precisas partir, Parte, Maria, que estais tão bonita, que estais tão aflita".




Já, "Samba de Orly" é mais melancólica quanto à questão do exílio. Faz menção ao Aeroporto de Orly, a 14 KM de Paris: "Vai meu irmão, pega esse avião, você tem razão de correr assim". Detalhe que dois versos dessa música foram vetados pela censura. "Pela omissão" foi substituído para "Pela duração" e "Um tanto forçada" foi mudada para "Dessa temporada". A canção "Valsinha", em parceria com Vinícius, é lírica. Muito bela, mas sem nenhuma aparente mensagem de cunho sócio-político: "E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar, e ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou, e foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou".

"Minha História" retoma o tema do exílio por se tratar de uma versão para a canção "Gesùbambino", composta por Lúcio Dalla. A história do marginal que, sarcasticamente, chama-se Menino Jesus, passou por problemas para ser liberada, principalmente, com a Igreja, que a considerou ofensiva. E, para fechar o disco, "Acalanto", uma canção de ninar que teve como inspiração Sílvia, filha de Chico, nascida durante o exílio: "Dorme Maria pequena, não vale a pena despertar, eu vou sair por aí afora, atrás da aurora mais serena".




Logo após o lançamento do LP, Chico Buarque começou a ficar mais visado pela Ditadura. Tanto é que passou a usar o pseudônimo Julinho da Adelaide, pois, a partir de então, qualquer coisa com sua assinatura era passível de censura. E, o próprio disco "Construção" é uma obra irretocável em diversos aspectos. Tem poesia. Tem indignação. Tem crítica. Tem beleza. Tem bom gosto. Tem tristeza e alegria. É arte em alto nível. Um dos melhores álbuns lançados por um artista brasileiro.

A prova de que Chico Buarque, como artista e pessoa pública, já teve grande relevância.


NOTA: 10/10.

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