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DICA DE FILME

"Estado de Sítio" (1973)
Direção: Constantin Costa-Gavras.



Falar de política no cinema é complicado. Geralmente, o resultado sai panfletário demais, e isso, eventualmente, afasta os espectadores que, muitas vezes, procuram apenas uma boa estória. O cineasta grego Constantin Costa-Gavras tem um mérito muito a seu favor: faz filmes bastante críticos, com uma carga política muito forte, mas que também são puro cinema, com enredo, narrativa e personagens bem elaborados.

A forma como surgiu este "Estado de Sítio" mostra como Costa-Gravas é um diretor diferenciado. Ele estava, à época, pesquisando sobre o embaixador norte-americano John Peurifoy, um dos responsáveis pelo golpe de estado que instalou uma ditadura na Grégia. Só que no meio dessas pesquisas, surge o nome de Dan Mitrione e menções à USAID - United States Agency for the International Development.



Com base nessas informações, o que Costa-Gavras fez? Viajou até o Uruguai para conhecer melhor a história das ditaduras latino-americanas (que já estavam mais do que instaladas em diversos países no início da década de 70), e achou melhor focar seu próximo filme nesse assunto. É aí que surge o embrião para "Estado de Sítio" ser feito, e como o resultado bem mostra, é um filme que vale mais do que muitas aulas de História.

O enredo se concentra no sequestro do agente americano Dan Mitrione por um movimento de guerrilheiros Tupamaros. No cativeiro, é constantemente interrogado por um dos integrantes do movimento, e esses diálogos são verdadeiramente esclarecedores. Não só mostram a engrenagem da atual norte-americana na implantação dessas ditaduras, como também suscita reflexões sobre as inúmeras violações ao direitos humanos no processo.


São nessas conversas, que vemos, inclsive a participação do Brasil. Até a deposição de João Goulart é mencionada. É mostrado, inclusive, um "treinamento" de tortura com jovens cadetes. Um jovem, nu, recebe choques elétricos sob os olhares atentos dessa plateia, tendo a bandeira brasileira asteada em segundo plano. Como se vê, Costa-Gravas não queria amenizar nenhuma crítica; colocou o dedo na ferida de forma clara, sem simbolismos.

E, como falei anteriormente, ainda consegue ser cinema. Na realidade, é tão bem feito, que, muitas vezes, chega a parecer um documentário. As tomadas aéreas, com centenas de militares sitiando ruas e avenidas é assustadoramente verossímil. A atuações são corretas, sem exageros, pois o principal aqui é a mensagem, a ideia. E, a forma narrativa possui suspense e fluidez suficientes para prender o espectador até o fim.


É bom ressalto algo: "Estado de Sítio" foi filmado num Chile ainda governado pelo socialista Salvador Allende. Inclusive, setores da Direita exigiam que o governo chileno proibisse a exibição de "A Confissão", filme anterior de Costa-Gavras, que fazia uma ferrenha crítica ao totalitarismo. O diretor chegou a cogitar terminar as gravações em outro país, após ser constantemente agredido nas ruas. Só após garantias do próprio presidente Allende, ele permaneceu, e terminou seu filme.

Algum tempo depois, Salvador Allende é deposto, e assume em seu lugar, o general Augusto Pinochet, que instaura uma das mais violentas ditaduras do período. Foram aproximadamente 40 mil pessoas torturadas, desaparecidas e mortas sob o poder de Pinochet. Nesse caso, a vida imitou, tristemente, a arte, e Costa-Gavras, involuntariamente, tornou-se uma espécie de profeta da desgraça que estava prestes a se abater sobre o Chile.


Hoje, olhando-se a História com calma, percebe-se o quanto os governos militares fizeram mal à América Latina, mesmo com uma parte considerável da população (principalmente, no Brasil) ainda apoiar tais regimes. Para eles, valeria uma assistida atenta em "Estado de Sítio", um exemplo claro de como a arte pode ser perene e relevante para entendermos nosso passado, e analisarmos o presente.


NOTA: 9/10.

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