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DICA DE FILME

"Polytechnique" (2009)
Direção: Dennis Villeneuve.


Villeneuve sempre foi um cineasta preocupado. Seja com a questão da culpa individual diante de uma fatalidade ("Redemoinho"), com a guerra ("Incêndios"), com a vingança num ambiente hostil ("Suspeitos"), ou até mesmo com a busca de um sentido de vida ("O Homem Duplicado"), o diretor mostra em seus filmes muita inquietação com a condição humana.

Não seria de estranhar, portanto, que uma produção baseada num massacre real ocorrido na Escola Politécnica de Montréal, em 1989, tivesse força e indignação suficientes para o espectador refletir. "Polytechnique" é mais de que um filme que se inspira em fatos verídicos. A forma como foi realizado é um convite ao debate, mas sem pedantismo ou qualquer didatismo.



Primeiro, a cena inicial mostra um grupo de jovens, num dos ambientes da Escola, e, logo depois, vemos tiros atingindo algumas dessas pessoas. Então, a câmera mostra o causador do tiroteio: um rapaz, claramente perturbado, que munido de uma arma decide ir à Escola, e matar todas as mulheres do lugar, que representam as feministas, grupo da qual ele odeia.

No filme, o assassino não tem nome. Um recurso tanto para que não haja identificação com o personagem, quanto para mostrar que ele não representa apenas uma pessoa específica, mas um ideia, que nada mais é do que uma repulsa a certos movimentos (no caso, o Feminista). Não à toa, seus argumentos, apresentados apenas numa carta para a mãe, são extremamente falhos.


Daí, observamos, também, a vida de outros personagens antes do massacre. Apenas Valérie, contudo, é apresentada como o ponto central da trama, e isso será proposital. Pra não falar muito a respeito desse desenvolvimento, ela irá representar uma ideologia, um símbolo, do qual Villeneuve (bem intencionado) nos quer passar.

De maneira premeditada, o filme é em preto-e-branco. Não necessariamente por conta da estética (apesar de que, geralmente, toda produção nesse formato cai muito bem), mas para evitar a "presença" de sangue. Afinal, o foco aqui não é um espetáculo grotesco de matança, mas o absurdo que um ato de uma única pessoa (ou de uma ideia) pode causar, abalando a vida de inúmeras outras.


Uma cena, especificamente, é emblemática para a tônica do enredo, que é quando o assassino entra numa sala de aula, e ordena que todas as mulheres fiquem à esquerda, e todos os homens à direita. Muito simbólica, essa sequência explora a questão da opressão que a mulher sofre, independente dela ser ou não feminista, já que o rapaz não tinha, sequer, como saber qual delas era realmente a favor desse movimento.

Mas, são as palavras finais do filme que dão ênfase à toda a mensagem. É quando uma das personagens diz: "Estou grávida. Se for menino, ensinarei-o a amar. Se for menina, ensinarei que o mundo é dela". Num ambiente ainda tão pouco acolhedor para o universo feminino, tal sentença tem um peso muito forte, e fecha com brilhantismo uma produção cujo recado é muito pertinente.


Como diretor, Villeneuve, é sempre agradável de se assistir. Seus filmes têm ritmo e jogadas de câmara inusitadas e envolventes. Outro ponto positivo de suas narrativas é a tendência do cineasta em fazer "caminhadas" no tempo. Em "Polytechnique" não é diferente, e aqui acompanhamos, ora o desenrolar na vida de um personagem após a tragédia, ora a estória retrocede para vermos outros pontos de vista e detalhes que, talvez, tenham passado desapercebidos.

Enfim, "Polytechnique" é um filme que se posiciona, e isso num mundo cada vez mais "político" e indiferente, é muito bom. E, Villeneuve mostra, de novo, que é um realizador confiável, engajado, mas que, mesmo assim, ainda consegue fazer um ótimo cinema.


NOTA: 9/10.

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