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DICA DE DISCO

"Encarnado" (2014)
Artista: Juçara Marçal.




A gama de bons artistas da música brasileira atual está escassa, e isso não chega a ser novidade. Há alguns anos que a criatividade nesse meio anda em baixa, principalmente pelo o que é passado pelos grandes meios de comunicação. Porém, essa acaba sendo também a desculpa perfeita para não procurar por novidades e se acomodar com o que é oferecido. Azar o dessas pessoas, pois não chegarão a conhecer Juçara Marçal.

A cantora fluminense (e não somente carioca, por favor) está num patamar acima das usuais intérpretes que circulam pela recente MPB. Ela não está preocupada em soar como uma caricatura de Elis Regina ou de Cássia Éller. Mesmo tendo similaridade com as duas, Juçara tem identidade própria, forjada a ferro e fogo no meio alternativo. Aqui não tem "samba pra gringo ver", mas, sim, uma miscelânia de referências espertas e bem elaboradas.




"Encarnado" é a primeira viagem-solo de Juçara. Mas, ela não está sozinha. Kiko Dinucci, guitarrista e membro da banda anterior da cantora, também a acompanha em seu disco. Outros que se fazem presentes são Rodrigo Campos no cavaquinho e em algumas incurções de guitarra, e Thomas Rohrer na rabeca. Isso mesmo: um disco inteiro sem bateria, ou qualquer outra forma de percursão. Aparentemente, a "estratégia" foi proposital, pois deixou Juçara interpretar à vontade, dando mais ênfase às letras das músicas.

A combinação de sons tão díspares quanto uma guitarra, um cavaquinho e uma rabeca, unidos à voz poderosa da cantora, dão um aroma especial a cada faixa, onde todas brilham individualmente. Começar a audição com "Velho Amarelo" é um choque (positivo) para os puvidos mais desavisados. Com um refrão maravilhoso, a canção pega o ouvinte em cheio, e, de cara, ele se habitua fácil à proposta estética do álbum.




"Damião" representa bem a postura de Juçara como intérprete: raivosa, revoltada, angustiada e desesperada. Minimalista (mas, muito interessante) em termos sonoros, é o tipo de música que mexe com os sentidos e mantras de quem escuta. Instiga e inquieta. Realmente, dá vontade de "ajudar Damião" a bater em quem o maltratou, em quem o humilhou, em quem o matou. Arte provocadora.

Até agora, foram duas músicas. Dois petardos. Dois espantos. Valem mais do que muita gente tida como a nova MPB. Que de nova, não tem nada (pelo menos, nas ideias e nas posturas). Eis que a terceira faixa, "Queimando a Língua", segue a mesma linha das demais. Ou seja, inusitada e fenomenal. Juçara interpreta como se estivesse declamando um "repente" (envenenado, diga-se). Trata-se de poesia musicada. Sem tirar, nem por.




"Pena Mais Que Perfeita" tem uma estrutura mais tradicional, mais leve, mas não menos estupenda. A linha de guitarra e a bela melodia de rabeca fazem uma boa cama para deitarmos no som, e nos sentirmos etéreos, plenos de espírito. Como se vê, até aqui, "Encarnado" vem se mostrando um trabalho com múltiplas possibilidades. Parecem vários discos gravados num só. Ficamos, então, pensando, o que a próxima canção nos reservará.

Surge a curta e simples (no bom sentido) "Odoya". E, é somente a introdução para o ápice do álbum, "Ciranda do Aborto". Tudo o que eu disse a respeito desse disco ser extremamente sensorial e mexer mentalmente com o ouvinte faz sentido aqui. A interpretação de Juçara, a letra (fortíssima, ora de uma crueza mordaz, ora de uma delicadeza sublime) e os instrumentos em arranjos insanamente bem elaborados. Tudo converge para uma experiência única.




Depois da catarse, vem a calmaria, alento. "Canção Para Ninar Oxum" é exatamente aquilo que se propõe: uma música singela, um sonho tranquilo após um longo pesadelo. Mas, aí vem a loucura e a ironia com "E, O Quico?". Cadenciada e muito interessante, parece ter sido composta especial para Juçara teatralizar nela de forma muito competente. "Não Tenha Ódio no Verão" também proporciona uma baita interpretação da cantora, mostrando que, sim, ela tem talento de sobra.

A música "A Velha da Capa Preta" talvez seja o ponto menos inspirado do disco. Isso porque a sua execução é apenas competente, e Juçara Marçal, ao longo das 9 faixas anteriores, "acostumou mal" o ouvinte com um trabalho acima da média. Mesmo assim, não é algo que incomode, o que desmereça o álbum. A criatividade (e a passionalidade sofrida da alma) volta na curta (porém, maravilhosa) "Presente de Casamento", com direito a interpretação à capela no final.




E, para terminar, "João Carranca", ao mesmo tempo, bem-humnorada e triste. Relata a vida de um boêmio namorador que encontra a tragédia nos ciúmes de sua amante. O fato da sonoridade da canção ser calcada no samba só reforça sua qualidade. Uma bela maneira de acabar um trabalho tão peculiar.

É bom que se diga que muitas das faixas de "Encarnado" são de vários compositores. E, isso se torna ainda mais especial, pois Juçara e sua banda conseguem de apropriar delas de tal maneira, que até pareceram algo autoral, totalmente espontâneo. Os letristas vão de Tom Zé ("Não Tenha Ódio no Verão"), até Itamar Assumpção ("E, O Quico?"), passando por Siba ("A Velha da Capa Preta"). No entanto, há de ressaltar que as duas melhores canções do disco são de seus instrumentistas: "Ciranda do Aborto" (do guitarrista Kiko Dinucci) e "Velho Amarelo" (do também guitarrista Rodrigo Campos).




O tema principal de "Encarnado" é a morte. Coincidentemente, é um disco que deu vida nova à combalida música brasileira do ano passado pra cá. Junto com outros artistas, como Criolo, Juçara Marçal vem demonstrando talento ao revisitar conceitos. Ela, por sinal, valoriza algo em desuso hoje em dia: a canção como formato. Em seu trabalho, a interpretação (fundamental) retoma um tempo em que nossos artistas tinham zelo e cuidado com os produtos que entregavam ao público.

Agora, é esperar que venham outros lançamentos tão inspirados, poderosos e densos quanto esse. Mas, Juçara Marçal está no caminho certo. Não parece querer agradar a gregos e troianos com "música pra tocar na rádio ou na novela". Corre riscos, aventura-se por temas difíceis, e consegue, mesmo que pelo caminho mais complicado, extrair arte pungente da música. Escutar uma artista assim nesses tempos é acalentador.


NOTA: 10/10.

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