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DICA DE FILME

"Abril Despedaçado" (2001)
Direção: Walter Salles.


A eterna tradição que nos oprime. Podemos encontrá-la em qualquer lugar, a qualquer momento. Muitas vezes, cobra um alto preço. No caso de Tonho, esse preço é a sua vida. A tradição? Um rixa de família que ultrapassa gerações, e que não dá trégua. O sangue de um pago somente com o sangue do outro. Essa é a regra, e que ninguém ousar quebrar. Um ciclo interminável de violência.

O calvário de Tonho começa quando matam seu irmão. Sua obrigação? Matar o seu assassino. E, o irmão deste irá continuar o ciclo, tirando a vida de Tonho. Mas, há regras. A vingança só pode ser consumada quando o sangue da camisa da vítima, pendurada num varal, "amarelar". Aí, será a hora. E, todos, como num acordo formal, cumprem isso religiosamente.



A contestação desses absurdos vem justamente do irmão mais novo de Tonho, a quem chamam apenas "Menino". O garoto é um típico estranho no ninho. Mesmo num ambiente tão desolador, possui muita inteligência e uma imaginação fascinante. Em determinada hora, é Menino quem diz: "Parecemos os bois da moenda; andamos em círculos, e não saímos do lugar."

Nesse meio tempo, aparecem no local Salustiano e sua afilhada Clara, ambos do circo. São eles que alimentam ainda mais a inspiração de Menino, que após ganhar um livro deles, passa a imaginar estórias fantásticas. Uma válvula de escape, o único alento diante da iminente morte de Tonho, que se aproxima.



O filme expõe muito bem os absurdos que muitas tradições possuem. Como num ciclo infinito, onde ninguém pensa ou raciocina além do que se vê, simplesmente, os costumes precisam ser cumpridos. E, pronto! Uma conversa entre os pais de Tonho exemplifica isso:

- Não era melhor Tonho não voltar mais? A pior vida ainda é melhor do que morrer que nem bicho!
- Mulher, olha à sua volta, e veja o que nos restou.
- Nada!
- Pois, bem. Se Tonho não voltar, perderemos o que sobrou: a honra!



Tal pensamento é um incômodo, mas a forma como o roteiro narra e o diretor Walter Salles conduz faz com que, mesmo não concordando, entendamos o porquê dessa gente se apegar a tradições tão ferrenhas, que chegam a custar a vida de seus entes mais queridos. E, mais uma vez, o ponto de corte é Menino, que representa, de certa forma, a esperança de que isso, um dia, acabe.

A produção, em si, é uma miscelânea de sensações. O ponto principal é a opressão, mas também perceberemos muita fé, esperança, amizade e amor entre alguns personagens. É, inclusive, alguns desses sentimentos que vão determinar, no final, o destino de Tonho, Menino e tantos outros. Assim, talvez, a redenção venha.



Como já dito, a direção de Salles é primorosa, superando, e muito, seu filme anterior, "Central do Brasil". Há de se destacar as atuações também, em especial, Rodrigo Santoro, que faz Tonho e, principalmente, Ravi Ramos Lacerda, que faz Menino. A relação dos dois possui tanta humanidade, que, por vezes, esquecemos a desgraça que se aproxima na vida dos personagens.

Falando de assuntos difíceis, complexos e duros, mas de uma maneira competente, "Abril Despedaçado" está entre os melhores filmes brasileiros recentes. Um longa que pode ser sintetizado como uma ode à liberdade, e a necessidade da quebra de algumas tradições em favor do bem mais precioso, que é a vida.



Pra finalizar, o escritor albanês Ismail Kadaré, autor do livro homônimo em que o filme se baseia, chegou a afirmar: "As duas tentativas anteriores de adaptar meu livro fracassaram. Essa ficou magnífica". Se o criador dessa estória aprova o resultado, então, não há mais nada a dizer.

NOTA: 9/10.

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