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DICA DE FILME

"A Classe" (2007)
Direção: Ilmar Raag.


Linhas tênues precisam ser quebradas, vez ou outra. O risco é alto, mas, com isso, consegue-se fazer um debate mais amplo e profundo sobre assuntos que, geralmente, são tratados com superficialidade. Mas, não é fácil. A má-fé faz de uma boa abordagem algo distorcido, muitas vezes, distanciando-se do objetivo inicial. E, é assim que "A Classe" se insere.

É um filme bastante pertinente, mas não é para qualquer um assistir. Fica muito evidente que a interpretação que se pode tirar daqui seja o da violência pela violência. Só que, com um pouco de cuidado, vê-se que não é isso o que a produção se propõe. Longe de ser apelativa, ela mostra como a humilhação e o sofrimento podem afetar a mente de toda e qualquer pessoa.



Mas, não só isso. A partir do momento em que o enredo conta como Joosep passa a ser protegido por Kaspar, seu colega de classe, dos abusos dos outros alunos, o longa dialoga com outros assuntos, como a piedade e o altruísmo. Também se foca muito em como se pode ser covarde quando se está em grupo.

As sequências de humilhações são indigestas, nauseantes, mas não gratuitas. Provocam a revolta necessária, sem causar desequilíbrio na mensagem. Isso só é possível porque o filme consegue bem cuidado na construção não só dos personagens, mas do universo que os cercam. Kaspar, por exemplo, mora com um avó que até tentar conversar com ele, mas sem o menor tato.



Já, a vida de Joosep é mais complicada. Taxado como o "esquisito" do colégio, ele vive com uma mãe histérica, que não consegue entender a violência pela qual ele passa, e um pai que é pior ainda: adepto da caça, vive incentivando o filho a reagir da forma mais agressiva possível. É um típico machista estúpido, como vemos tantos por aí.

Com esse mosaico de personagens, o filme poderia ter caído facilmente no maniqueísmo, o que, felizmente, não faz. Todo soa (desconcertantemente) natural. E, é essa fluidez que permite indagar algumas questões, como até qual limite aguentamos uma violência até reagirmos ou se há algum atenuante quando, finalmente, revidamos, mesmo que de forma desproporcional.



É nesse ponto que "A Classe" se torna perigoso, e nem todos compreenderão suas sutilezas, suas minúcias. Com desleixo, podemos até pensar que o longa é uma ode à violência e à vingança. Mas, não é. Pois, a todo momento, Kaspar e Joosep tentam se manter quietos e calmos, na esperança de terem alguma paz.

Não é a reação posterior dos dois o mote do filme, e sim, como atitudes cruéis e covardes podem acabar com alguém, e, principalmente, como a irresponsabilidade de quem está ao redor ajuda nesse processo de destruição. Afinal, pais e professores, aqui, mostram-se inaptos para cuidarem de uma situação como essa. A culpa maior, portanto, não recai sobre Kaspar e Joosep.



Mesmo com essas ressalvas, é necessário assistir "A Classe". Está no mesmo patamar de outros "socos no estômago" que analisam a questão da violência, como "A Outra História Americana" e "Clube da Luta". E, coincidentemente, assim como eles, também corre o risco de se tornar incompreendido por um bom tempo. Comecemos, então, a dar o devido valor que este impactante filme merece.

NOTA: 9/10.

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