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Dica de Filme

"Sicario - Terra de Ninguém" (2015)
Direção: Denis Villeneuve. 


Villeneuve é um cineasta acima de qualquer suspeita. Sempre é certo de que seus filmes serão um ótimo e adulto entretenimento. Até seus momentos menos inspirados ("Suspeitos" e "O Homem Duplicado") estão, inegavelmente, acima da média do que a (atual) insossa Hollywood está nos oferecendo. Mas, nesse fase "norte-americana" do diretor ainda faltava algo, aquele ponto essencial que nos faz identificar um grande trabalho.

Vejamos. Os melhores filmes dele ("Redemoinho", "Polytechnique" e "Incêndios") tinham um elemento em comum: um ambiente inóspito, brutal, violento, e bastante opressor. Poderia ser uma cidade grande, o Oriente Médio ou até mesmo um massacre ocorrendo numa escola. O que importasse era que o lugar passasse uma sensação angustiante. Some-se a isso personagens bastante perturbados e traumatizados.




Eis que chegamos a "Sicario" que (adivinhem) possui tudo isso. O ambiente aqui, no caso, é o México, e seu problema envolvendo o narcotráfico. O personagem perturbado (e, de quebra, misterioso) ficou a cargo de Alejandro (interpretado de forma muito competente por Benicio Del Toro). Pra completar, como é de costume, Villeneuve não perde a mão da narrativa, e impõe um ritmo tal na trama, que pouco incomodam suas duas horas de duração.

Na estória, Alejandro funciona como uma espécie de "guia" para a oficial do FBI Kate Macer, que, após descobrir uma casa repleto de corpos de gente assassinada a mando de um grande traficante mexicano decide acompanhar uma missão para capturá-lo. Mas, não será fácil, pois além do lugar ser extremamente violento e estar imerso na corrupção, o próprio Alejandro mantém uma certa dubiedade nas suas reais intenções (que só serão expostas com o passar do tempo).




Até lá, o diretor não vai poupar o espectador, seja mostrando sem pudores a carnificina que reina nesse local, seja na angústia dos oficiais estarem mais próximos de seu objetivo, onde o perigo, claro, aumenta. A tensão é muito bem conduzida, mas não esperem grandes tiroteios e correrias desenfreadas. Felizmente, Villeneuve não tem esse vício. Tudo é oferecido em doses homeopáticas, o que deixa o filme ainda mais nervoso (e melhor).

A câmera, por sinal, consegue pegar cada ângulo preciso da ação, seja em momentos mais próximos aos personagens, seja nas tomadas aéreas. Um primor de técnica, que, inclusive, ajuda na narrativa da produção. A cidade, vista de cima, parece ser um lugar normal e pacífico. Ao chegar mais perto, as cores ficam mais escuras, e a câmera, mais trêmula. Uma manipulação de sensações como poucos cineastas sabem fazer nos dias de hoje.



"Sicario" só perde pontos mesmo na última cena de ação, onde o ambiente é a mansão do tal narcotraficante. Tristemente, o enredo se rende a clichês do gênero, oferecendo sequências pouco convincentes. Pelo menos, o desfecho dessa parte é satisfatório e até condizente com a proposta do filme. Mas, se certas forçadas de barra tivessem sido evitadas, com certeza, o resultado teria ficado muito mais instigante.

Mesmo assim, temos que admitir que este é o que de melhor que Villeneuve fez em terras norte-americanas, sem dúvida. Basta dosar certos exageros, e, facilmente, teremos no futuro filmes que rivalizem com petardos como "Incêndios" e "Redemoinho".


Nota: 9/10.

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