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Dica de Disco

"Para Iluminar a Cidade" (1972)
Artista: Jorge Mautner.


Ser humano fascinante, Mautner nunca se limitou na sua arte, e pode, sem dúvida, ser colocado no rol dos "malditos da MPB", ao lado de gente como Tom Zé. Um cara de vanguarda? Pode ser. Ele, provavelmente, aceita bem a definição. Mas, ainda assim, é limitado para o talento dele. Tanto é que, a despeito de sua música atemporal, o homem já foi regravado por Caetano Veloso ("O Vampiro"), Gilberto Gil e Chico Science & Nação Zumbi ("Maracatu Atômico"), Gal Costa ("Lágrimas Negras") e Lulu Santos ("Samba dos Animais").

Some-se isso a uma necessidade quase biológica em ser cosmopolita. Não, meus caros, não tem nada de "fake" aqui. Com pais de origem européia, Mautner nasceu pouco tempo depois de seus pais desembarcarem no Brasil. Ele mesmo diz: "Nasci aqui um mês depois de meus pais chegarem ao Brasil, fugindo do Holocausto". Pra completar, o candomblé passa a ter forte influência em sua vida graças à sua babá Lúcia, que era ialorixá. Era quase certo que ele enveredaria para a arte, e que ela seria uma miscelânea única. Dito e feito. E, um dos melhores exemplos está no disco "Para Iluminar a Cidade".

Foi o primeiro gravado por Mautner, e ainda por cima, ao vivo, no Teatro Opinião, do Rio de Janeiro. Inclusive, o texto da contracapa é de ninguém menos que Caê. Eis um trecho: "Acabou-se o tropicalismo. Em Londres, apareceu Jorge Mautner com um guarda-chuva. Gostei logo dele porque ele é uma figura incrível e também porque ele foi logo me fazendo umas profecias muito boas (e que felizmente deram certo). Suas canções têm um cheiro de liberdade criadora que eu só encontrara em Jorge Ben."


De fato, "Para Iluminar a Cidade" é um trabalho delicioso, tendo como destaques as cadenciadas "Super Mulher" e "Estrela da Noite". A aura mística que essas faixas emanam é algo muito singular, e só escutando para sentir a realidade delas. E, claro, sempre com o seu indefectível violino a tiracolo, sua marca registrada até hoje. Todas as canções possuem uma poesia muito própria, a exemplo de "Olhar Bestial" e "Chuva Princesa". Lindíssimas, apesar de curtas, mas, talvez, por isso mesmo, sejam tão boas: dão a vontade de que fossem maiores.

"Anjo Bestial" tem muito de sonoridade afro, o que demonstra bem uma de suas mais importantes influências. Vale lembrar que um dos que participam do disco é o incrível Nelson Jacobina, tocando violão e guitarra, e ele arrasa no final de "Anjo Bestial". Já, a música "Quero ser Locomotiva" é engraçada e brinca com a métrica das palavras e suas sonoridades. Faixa bastante inusitada (ou melhor, nem tanto assim, em se tratando de uma criatura como Jorge Mautner).

Cantada em inglês, "Sheridan Square" é apenas bonita, e muito normal. Não condiz com as vibrações do artista em questão. "From Faraway", composta em parceria com Caetano, segue a mesma linha, o que é uma pena, pois o álbum vinha num louco e perturbador orgasmo mental com músicas verdadeiramente instigantes, para desembocar em canções até boas, mas, não mais que isso. Felizmente, o trabalho se encerra com a inspirada "Sapo Cururu", adaptação de nosso folclore. Belo desfecho.


Mautner, até hoje, prossegue inquieto, tanto quanto Tom Zé, Elza Soares e outros heróis da resistência. E, o disco "Para Iluminar a Cidade" é o seu atestado inquestionável de genialidade. Realmente, que maravilhosos tempos em que boa parte da nossa MPB realmente se preocupava em fazer algo relevante, ou, ao menos, perene por um longo tempo.

Salve Jorge Mautner!


Nota: 9/10.

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