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Dica de Livro

"O Imoralista" (1902)
Autor: André Gide.


A vida; simplesmente, a vida. Isso o que não compreendemos, e alguns partem sem compreender. Muitos, assim como Charles, personagem principal de "O Imoralista", buscam um sentido para tudo isso. Mas, Charles não é bem uma espécie de herói ou alguém que possa ser considerado virtuoso. Não. O encanto de sua personalidade inquieta é, justamente, de ir desvendando sua existência aos poucos, porém, encontrando mais dúvidas do que certezas.

"Cheguei a desprezar dentro de mim essa ciência que era antes o meu orgulho; esses estudos, que antes eram toda a minha vida, pareciam ter comigo apenas uma relação perfeitamente acidental e convencional. Descobria-me outro, e existia, feliz de mim, fora daquelas coisas. Como especialista, sentia-me estúpido. Como homem - será que me conhecia? - sentia apenas que estava nascendo sem poder saber quem eu nascia. Era o que precisava descobrir."

O livro, em si, é um confessionário do protagonista aos seu mais queridos amigos (talvez os únicos que ainda lhe restam). Contando a eles tudo o que se passou ao longo dos últimos anos, e que mudou completamente a sua vida e a percepção das coisas, Charles vai se desnudando. Seus amigos, por outro lado, mantém silêncio absoluto enquanto ele narra o que lhe aconteceu, desde o casamento com Marceline até sua necessidade de viajar e não se apegar a nada material.

Marceline, por sinal, funciona como uma espécie de ponto de equilíbrio dele, alguém a quem ele aprende a amar aos poucos, mas que, de uma certa maneira, tolhe seus mais profundos desejos. Nas suas andanças, que incluem desde países europeus até a África do Norte, Charles se encontra com uma gama cada vez maior de pessoas, todas com as suas particularidades, do popular ao erudito. Um desses eruditos, Ménalque lhe diz certa ocasião:

"Quase todos pensam que só obterão de si mesmos algo de bom pelo refreamento; só se sentem contentes nesse estado. É a si mesmos que menos procuram parecer-se. Cada um deles toma pra si um padrão, depois o imita; não chega sequer a escolher o padrão que imita; aceita um padrão já escolhido. Creio, entretanto, que há outras coisas para ler em um homem. Mas, eles não ousam. Não ousam virar a página. Leis da imitação: chamo a isso: leis do medo."

Mas, Charles não se contenta com explicações ou fórmulas. A obviedade e o fingimento lhe desagradam profundamente; coisas que, facilmente, ele se depara estando na elite da sociedade. Quer ele mesmo desvendar tudo, aproximar-se dos mais populares, mesmo que a custa de sua fortuna, do seu bem estar, e até da saúde de Marceline. Sente-se melhor ao lado dos seus empregados, do que dos supostos amigos seus e de sua esposa.

"Dava ordens ainda, como era preciso, e dirigia a meu modo os trabalhadores; mas não montava mais a cavalo, com receio de mostrar o meu domínio sobre eles. Apesar das precauções que tomava para que não sentissem a minha presença e não ficassem constrangidos diante de mim, eu continuava, como antes, cheio de uma curiosidade perversa. A existência de cada um deles permanecia, a meus olhos, misteriosa. Parecia-me sempre que uma parte de suas vidas se ocultava."

André Gide, um dos mais aclamados escritores franceses do século 20, presenteia o leitor com uma escrita de profundidade psicológica intensa, mas, de uma linguagem direta e nada rebuscada. Não à toa, Saint-Exupéry, Sartre e Camus viam nele uma enorme inspiração. Como pouco, Gide dizia muito. O anti-herói de "O Imoralista" é a perfeita personificação das nossas dúvidas perante a vida. Só que, muitas vezes, nós nos acovardamos; Charles, não.


Se a vida é uma causa perdida, então, como contraponto, a eterna procura por "algo" deveria ser uma espécie de combustível que nos fizesse questionar tudo e a todos. Viver para isso, e apenas isso.

"Parecia-me que eu nascera para um gênero desconhecido de descobertas; e enganava-me apaixonadamente àquela pesquisa tenebrosa, para a qual o pesquisador deve abjurar de si a cultura, e decência e a moral."


Nota: 9/10.


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