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Filme Não Recomendável

"Você Acredita?" (2015)
Direção: Jonathan M. Gunn.



O título deste filme, na verdade, deveria ser "Você Acredita... Em Forçação de Barra?" Sim, pois, é isso o que os mais atentos espectadores encontrarão aqui. Independente de crenças, tentarei fazer uma crítica isenta, não desmerecendo ou desrespeitando nenhuma denominação religiosa, algo que realmente deve ser repudiado. Mas, é preciso também destrinchar o que essa produção passa, seja em termos de cinema, seja em questão de ideologia.

A princípio, é bom dizer que os seus produtores são os mesmos do péssimo "Deus Não Está Morto". Ou seja, se antes os roteiristas pesaram a mão na estória, em "Você Acredita?", as coisas não ficaram tão diferentes assim. E, por incrível que pareça, tirando uma introdução pra lá de clichê, com a velha e batida narração em off, até que o filme vai bem. A narrativa flui muito bem, os atores passam um razoável senso de realidade e as estórias individuais de cada um deles é, de fato, interessante.




O problema mesmo mão é o que a produção quer dizer, mas, COMO ela diz. Não há nada de errado em propagar a sua crença como algo bom e verdadeiro. Porém, o roteiro (sempre ele) força demais certas situações para demonstrar o quanto os cristãos, principalmente, são as únicas pessoas boas do mundo. E, isso tira todo o brilho de uma estória que renderia mais sem esse tipo de artimanha. É tudo milimetricamente arquitetado para acontecer tal ação DAQUELE jeito, e que vai repercutir de TAL MANEIRA.

Exemplo prático: depois de uma tensa sequência de perseguição policial (ponto para a parte técnica, como a edição, que realmente está muito boa), tudo termina de forma bastante irreal, onde, numa coincidência incrível, um dos personagens entra numa pequena igreja. Pior: sendo procurado, esconde-se entre os fieis, e, quando os policiais entram no templo, simplesmente, não o encontram, mesmo o local sendo muito pequeno. Ilógico, no mínimo.




Porém, tem mais: numa grande forçação, só para tentar mostrar o quanto cristãos são perseguidos, um bombeiro é processado pelo Estado porque consolou uma vítima de acidente à beira da morte, e esse mesmo Estado (ateu, portanto, mau), entende que ele converteu o pobre moribundo de maneira coercitiva (forçada, mesmo). Isso, inclusive, muito se assemelha a um arco de estórias, em "Deus Não Está Morto", onde uma moça, ao contestar cristãos, adquire câncer depois. Simplesmente, não dá!

O roteiro de "Você Não Acredita?", claramente, divide a sociedade em três categorias: cristãos fervorosos, que já estão salvos; pessoas que estão quase se convertendo, mas ainda não são seres humanos ideais, por isso, sofrem; e os ateus e agnósticos, maus por natureza, e que são os vilões da estória, claro. Não há, pois, como ser mais simplista, visto que no filme, só uma dessas categorias é altruísta e humanitária. Adivinhem qual é?




Pra não dizer que não falei de flores, além da parte técnica, muito bem caprichada (vide a impressionante sequência do acidente de carros), o filme tem alguns personagens muito bons, que, pelo menos, não ficam o tempo todo pregando que todos precisam acreditar em Deus e na cruz, e que possuem uma visão interessante da vida. Exemplo disso é J.D., que tem uma boa consciência a respeito da perda da filha, e consola sua esposa de maneira correta.

Mas, o que impera mesmo é a velha manipulação de situações para provar uma ideia. Repito: nada contra achar que se está certo, e querer mostrar isso. O problema são os artifícios desonestos. Tirando a técnica e um ou outro personagem bem construído, "Você Não Acredita?" repete os mesmos erros de "Deus Não Está Morto", tentando doutrinar apelando para a emoção fácil e articulando situações que, se formos olhar bem, estão longe da realidade.

Uma pena, porém, esse é mais um típico filme gospel que se perdeu por motivos óbvios.


Nota: 4/10.

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