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DICA DE DISCO

"IV" (2016)
Artista: Carlos Santana.


Há nomes na música que, de tantos bons serviços prestados à sua arte, já não precisariam fazer mais nada. Um deles é Neil Young. Outro, é Bob Dylan. O estupendo guitarrista mexicano Carlos Santana se encaixa, facilmente, nessa prerrogativa. Tendo feito um show hipnótico ainda no longínquo primeiro Woodstock, e cravando sua marca como um dos melhores guitarristas de todos os tempos graças ao atemporal "Abraxas", Santana, no últimos anos, galgou um sucesso estrondoso (e, inusitado), devido ao acento pop de discos como "Shaman" e "Supernatural". Mesmo não tendo que provar mais nada, no entanto, faltava mostrar às recentes gerações porque este (agora) distinto senhor sempre foi considerado mestre. E, a resposta veio com "IV".

As duas primeiras canções do álbum ("Yambu" e "Shake It") são um empolgante cartão de visitas, e retomam aquela aura dos primeiros discos do guitarrista, com um ritmo latino irresistível, cheio de batucadas, e a indefectível sonoridade guitarrística de Santana. Talvez, a terceira faixa ("Anywhere You Want to Go") tenha sido pensada para ser o carro-chefe deste trabalho, um possível hit. De fato, a canção tem uma veia bem pop, mas, a percussão e a guitarra não deixam que a coisa descambe para o lugar comum. Já, "Fillmore East" é um exercício pedante de virtuosismo. Não empolga, e só serve para mostrar muita técnica, o que é uma pena, pois uma faixa instrumental é sempre uma boa oportunidade de conferir o real talento de um músico.



As voltam aos eixos com as ótimas "Love Makes the World Go Round" e "Freedom in Your Mind", que apesar de aceleradas, possuem uma vibração bem soul, lembrando Billy Paul, falecido recentemente. Não é à toa. As músicas têm participação de Ronald Isley, um dos artistas de R&B e soul mais cobiçados da atualidade, mas, que já tem uma carreira das antigas. O riff esperto de "Choo Choo" dá o tom festivo certo para a música, e, mais uma vez, a percussão dá um show à parte. Percussão tão formidável que, em seguida, mostra, de novo, a que veio com a instrumental "All Aboard".

"Sueños", mesmo sendo bonita, não acrescenta muito ao disco, e faz um contraponto negativo, bem como "Fillmore East". O que é estranho, pois, Santana prova, neste mesmo trabalho, que pode bem mais. E, "Caminando" é a prova disso. O ritmo cadenciado e pesado da faixa proporciona um dos mais instigantes momentos do disco, bem como a sentimental (e, nada descartável) "Blues Magic", essa sim, uma música poderosa , ao contrário das duas citadas anteriormente como as piores do álbum. "Echizo" e "Leave Me Alone"são bons momentos que poderiam ser melhores. Nelas, está tudo lá, da percussão extremamente talentosa à guitarra estridente de Santana. Mas, faltou carisma a ambas.


A climática e interessante "You and I" é a preparação para uma das melhores faixas do disco: "Come As You Are". Não confundam com a canção do Nirvana; não se trata de cover. Trata-se, isso sim, de uma música que emula muito bem os ritmos latinos, tendo uma levada à lá "Buena Vista Social Clube". E, tudo se encerra com a leveza de "Forgiveness". Se não é a melhor coisa do disco, ao menos, não decepciona. Mostra, enfim, porque este senhor de quase 70 anos ainda tem muita coisa a mostrar a uma juventude que está há um bom tempo consumindo música descartável e esquecível. Um álbum, até de certo ponto, inesperado, mas, que veio em boa hora.

Salve Santana!




Nota: 8,5/10.

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