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DICA DE FILME

"Capitão América: Guerra Civil" (2016)
Direção: Joe e Anthony Russo.


E, lá vamos nós para mais um filme de super-heróis este ano. Claro, o prognóstico não é dos mais favoráveis, pois, apesar de terem feito sucesso, "Deadpool" e "Batman vs Superman", as primeiras grandes produções do gênero em 2016, mostraram-se bem aquém do esperado (pelo menos, pra mim). Dois filmes que tinham tudo pra injetar alguma ousadia no universo sempre morno dos quadrinhos na tela grande, mas, que cujo resultado final ficou forçado e pouco marcante. O que esperar, então, de "Capitão América: Guerra Civil?

Bem, os dois primeiros filmes do herói, mesmo sendo repletos de defeitos, ainda assim, conseguiram ficar um pouco acima da média, e até ousaram mais em mostrar alguns debates até pertinentes e inusitados para esse tipo de gênero no cinema, como o controle militar, a cultura do medo, etc. Apesar disso, invariavelmente, tais produções sempre desandavam para o bom e velho maniqueísmo patriótico de colocar estrangeiros como maus e norte-americanos como bons. Isso, realmente minava as produções anteriores do Capitão América.




Incrivelmente, não encontramos esse tipo de maniqueísmo aqui. Sim, o filme pode até começar fazendo menção a experimentos na Rússia que deram origem ao Soldado Invernal, antigo parceiro de Steve Rogers, mas, qualquer dicotomia rasa para por aí. Pois, logo após vemos uma missão do Capitão América em que tudo acaba falhando, deixando inúmeras baixas civis. No entanto, é quando Tony Stark, o Homem de Ferro, aparece que percebemos o mote que o filme vai seguir. Interpelado por uma senhora que afirma ter perdido o filho por culpa dele, Stark fica arrasado com a situação, e encabeça uma campanha entre alguns super seres para assinaram um tratado internacional que limitaria sua atuação.

A partir daí, e até o final da primeira metade do filme, acompanhamos interessantes conversas a respeito tanto da liberdade de escolha para agir em nome da justiça (defendida pelo Capitão América), quanto da necessidade de controlar ações que, inevitavelmente, terão incontáveis baixas civis. Importante frisar que ambos os argumentos são expostos de maneira correta, honesta e fazem sentido, como uma pitada de razão a mais para Tony Stark. Só que, justamente no evento da ONU em que o tratado seria assinado, um trágico acontecimento vai colocar ambos os heróis de lados opostos, com a volta muito bem bolada do Soldado Invernal em cena.




Cabe dizer que essa primeira hora da produção é um primor. Possui momentos mais reflexivos, com diálogos muito bons, ao mesmo tempo que expõe algumas das melhores cenas de ação dos filmes da Marvel. Mesmo a correria, às vezes, soando um pouco clichê, não deixa de ser empolgante, além de serem de necessidade real para a trama (coisa rara). O problema é quando o momento mais esperado da "Guerra Civil" ocorre, já na segunda metade da produção: o embate entre os times do Capitão e do Homem de Ferro. Ok, são cenas movimentadas e divertidas. O problema é que são divertidas até demais, tirando a complexidade e a dramaticidade que levaram a esse conflito. É como se o filme negasse a (boa) aura séria que vinha tendo só para dar aos fãs de quadrinhos o que eles queriam.

Tudo bem que, nesse momento do confronto, alguns acontecimentos valem ser vistos, como a tão esperada aparição do Homem Aranha, e a "arma secreta" do Homem Formiga. Só que tudo isso acaba fazendo contraponto negativo com o que estava sendo mostrado durante todo o desenrolar da história. É como se o filme, de adulto, tivesse tido a obrigação de se "infantilizar" para fazer o público relaxar e lembrar que aquilo ainda era um filme de super-herói. Tanto é que, depois do confronto entre os times, o longa volta a ficar soturno, tenso e reflexivo. Ponto negativo do roteiro, que poderia ter feito desse embate algo mais épico, e menos circense.




Só que mesmo com esse grande problema, o filme ainda reserva sua melhor trunfo: o embate final, envolvendo Capitão América, Homem de Ferro e o Soldado Invernal, tudo embalado por revelações do passado e um vilão que até entendemos suas intenções. Por sinal, essa parte lembra muito uma das principais sequências de "Batman vs Superman". Só que essa parte no filme da DC ficou tão mal-feita e caricata, que após assistirmos, basicamente, a mesma coisa em "Capitão América: Guerra Civil", talvez tivesse sido melhor o senhor Zack Snyder ter tido umas aulas com os irmãos Russo de como elaborar algo, minimamente, envolvente.

No final, "Capitão América: Guerra Civil" cumpre, em termos, o que prometeu, e um pouco mais. Peca em alguns momentos desnecessariamente piegas, furos de roteiro aqui e acolá, e na já falada batalha entre os times rivais. Mas, ganha pontos ao falar de assuntos políticos e éticos de uma maneira mais honesta do que se poderia supor, tudo unido a personagens carismáticos, e uma ótima ação. Talvez, o universo dos super-heróis possa ser bem melhor do que isso na sétima arte. E, poderia mesmo. Mas, como nada é perfeito e o cinema comercial se impõe a determinadas convenções, este último filme da trilogia do Capitão América é o melhor que podem nos oferecer no momento. Cabe nos contentarmos com isso ou não.


Nota: 7,5/10.

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