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Dica de Filme

"Spider - Desafie sua Mente" (2002)
Direção: David Cronenberg.


Simbologicamente, a aranha e sua teia possuem vários significados. Um deles, presente na psicanálise, refere-se à obsessão pelo centro, absorvendo grande introspecção, chegando até mesmo a reverberar no narcisismo. No caso de Spider, personagem título deste filme, a introspecção chega às raias da loucura, e a teia da aranha passa a representar o intrincado da mente humana, com todas as suas falhas, desassossegos, paranoias e medos. E, de forma até óbvia, esta é uma das produções mais minimalistas do cineasta Cronenberg.

Quase sempre partindo para o grotesco em seus filmes, com o intuito de criticar as limitações da sociedade, aqui, temos um Cronenberg mais contido, sombrio, até mesmo triste. Ao acompanhar as perturbações de Spider, que vão se revelando aos poucos, nós também somos levados a um mundo de paranoias e intimismo. Sentimos o cheiro do ar (muitas vezes, com repugnância), escutamos cada som como se isso fosse o indicativo de que sempre precisamos ficar atentos, e sentimos, psicologicamente, a claustrofobia do personagem, sempre andando curvado em espaços fechados, mas, também se sentido oprimido em locais abertos.




Somos apresentados a Spider (seu nome verdadeiro é Bill Cleg) logo nos primeiros minutos de filme, quando desembarca de um trem. Pouco antes, uma multidão faz o mesmo, e num alvoroço de pessoas, somos meio que "jogados" no meio de uma multidão quase uniforme, com as mesmas expressões, e o mesmo passo apressado. É como se todos ali fossem seres insignificantes, que estão ali só mudando de um lugar para o outro. Alheio ao que está à sua volta, Spider chega a uma espécie de abrigo para pessoas com necessidades especiais. Fica algo intrigante no ar: o que teria gerado a loucura dele?

Como hábitos nada ortodoxos, como trazer objetos em uma lata dentro de uma meia escondida na calça, Spider se sente um estranho no ninho, mesmo fazendo algumas "amizades". Mas, sua mente está em outro lugar, e é quando, pela visão dele, somos levando, em flashbacks, para o seu passado, e começamos a entender o que poderia ter acontecido com ele. Pai alcoólatra e mãe omissa podem até soar um pouco clichê, mas, no desenrolar da trama, vamos percebendo que não é bem assim, e que nem tudo que parece, de fato, é.




Ponto positivo da produção é prender a atenção do espectador, apesar de pouca coisa acontecer em tela. Afinal, a história principal está nos flashbacks de Spider, e mesmo assim, roteiro e direção desenvolvem muito bem a história, dando pequenas pistas aqui e acolá, deixando quem assiste tão confuso quanto o próprio Spider. Só bem próximo ao final é que algumas revelações são feitas, e mesmo assim, de forma tão onírica e dúbia que as dúvidas são inevitáveis, e talvez seja preciso assistir o filme novamente para captar alguma "lógica".

Pensaram em Danid Lynch? Pois, é, este filme tem muita similaridade com os anti-enredos das produções lynchianas. E, Cronenberg, apesar de estar contido aqui, faz um trabalho muito bem orquestrado, tornando o filme mais interessante do que poderia ter ficado nas mãos de alguém menos habilidoso. Claro, muito das qualidades de "Spider - Desafie sua Mente" precisam ser creditadas ao estupendo trabalho de Ralph Fiennes. Pelo fato da câmara, muitas vezes, ter ficado bem próxima do ator, ele precisou mostrar uma atuação mais intimista, baseada em olhares e alguns movimentos corporais, e o resultado chega a lembrar Geoffrey Rush em "Shine - Brilhante".




E, temos aqui mais um ótimo exemplar da carreira de Cronenberg, um dos inúmeros filmes dele que estão além de serem considerados apenas "interessantes" ou "cults". Talvez, não seja um filme para o grande público, ou até para os fãs mais radicais do diretor, mais ávidos por cenas escabrosas, repletas de sangue. Porém, um bom realizador de cinema é assim: reinventa-se vez ou outra para provar que pode fazer algo além do óbvio. Que Cronenberg volte a fazer filmes assim, e com urgência.

Filme completo no Youtube:


Nota: 8,5/10.

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