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Dica de Filme

"V de Vingança" (2006)
Direção: James McTeigue.

"Lembrai, lembrai do cinco de Novembro. A pólvora, a traição, o ardil. Por isso, não vejo como esquecer uma traição de pólvora tão vil."


Às vezes, um elemento da cultura se expande de tal forma que fica incontrolável, até mesmo para os seus criadores. Afinal, será que o escritor Alan Moore e o desenhista David Lloyd, um dia, imaginariam que os quadrinhos de "V de Vingança" pudessem gerar um dos mais espetaculares filmes baseados em HQ's? E, os realizadores da versão cinematográfica, será que poderiam prever que a figura do personagem V pudesse se tornar tão emblemática para essa geração que, rapidamente, a sua máscara foi adotada por militantes no mundo todo? Raríssimo e fascinante caso em que a arte influencia (bastante) a vida real.

Mas, tudo o que está em volta de "V de Vingança" não tira os méritos individuais de cada uma de suas mídias, em especial, sua versão para cinema. Na realidade, tudo convergia para ser mais um filme comum, burocrático, que, tendo como base as histórias em quadrinhos, iria se limitar a explosões, correria e efeitos especiais. Porém, o material original era tão bom que os irmãos Warchowski (responsáveis por "Matrix") tiveram o cuidado necessário para transpor para as telas a essência da história, uma visão mais moderna de "1984", de George Orwell. E, como quase sempre tudo o que gira em torno da ideia de distopia produz ótimos resultados, com "V de Vingança" não poderia ser diferente.




E, o filme, que possui uma narrativa que nunca (repito: NUNCA) perde a mão, não tem tempo para muitas explicações. Já nos joga num futuro próximo, mais precisamente na Inglaterra, onde a sociedade é controlada por um governo autoritário, cheio de regras e proibições, e usando, claro, a força para impor a sua vontade. Numa sucessão de acontecimentos alheios à sua vontade, Evey Hammond, que vive um vida, aparentemente, pacata, de repente, acaba se envolvendo no meio de atentados terroristas protagonizados pelo enigmático V, que numa de sua investidas, invade a principal emissora de TV do país e lança uma provocação ao governo e um aviso à população:

"Crueldade e injustiça, intolerância e opressão. E onde antes você tinha a liberdade para descordar, para pensar e falar conforme sua consciência, agora vocês têm censores e sistemas de vigilância coagindo seu conformismo e solicitando sua submissão."

Somente esse discurso de V cai como uma bomba na população, que mesmo não podfendo se manifestar abertamente, começa a dar sinais de insatisfação, fazendo o governo tomar medidas mais enérgicas. Ao mesmo tempo, Evey, que passa a se tornar uma foragida das autoridades, passa a ser acolhida por V, e, ao mesmo tempo, vai compreendendo qual o sentido desses atentados terroristas, o que isso representa para a sociedade, e qual a verdadeira essência desse governo, controlado por um déspota que sempre passa suas ordens através de um telão numa sala de comando aos seus subordinados, numa clara alusão ao Grande Irmão de "1984".




Não se enganem. O filme "V de Vingança" é repleto de clichês, desde a aura mítica encarnada no personagem principal, até o fato dele e Evey, em algum momento, admitirem que estão apaixonados. Mas, direção e roteiro conseguem dar tanta energia e vigor à história que é impossível não se envolver com a trama. Mesmo que, em alguns momentos, pareça que uma espécie de pieguismo comece a tomar conta da produção, imediatamente, vem uma cena que quebra isso, e deixa a narrativa fluir de maneira sossegada.

As críticas sociais, como era de se supor, são um dos pontos altos da produção, e ela está presente em diversos aspectos. Por exemplo, dois alvos preferenciais do governo são os homossexuais e o livro do Alcorão. Quem for pego com o livro sagrado dos islâmicos, ou se souber que é homossexual, o destino é um só: morte por fuzilamento. Também há uma crítica muito bem bolada à Igreja, em especial, no que se refere a sacerdotes pedófilos. E, a forma como V vai eliminando cada escória dessa da sociedade é bastante empolgante.




O filme também acerta ao mostrar cenas que, por vezes, assemelham-se mais a um documentário, principalmente em sequência que mostram protestos nas ruas, com direito a violência policial e tudo. Até mesmo a explicação para como um governo autoritário desses conseguiu chegar ao poder é muito bem posta no enredo, fazendo uma óbvia (mas, certeira) menção ao Nazismo. Além disso, há cenas de uma beleza ímpar, como da legista que sabe que vai morrer nas mãos de V, porém, este escolhe o melhor método para a execução dela. Soa ao mesmo tempo triste e poético.

As atuações são, igualmente, um destaque. De Natalie Portman a John Hurt, todos estão muito bem. Mas, o foco mesmo é em Hugo Weaving (o sr. Smith, de "Matrix"), que aqui faz o protagonista, e, por isso mesmo, o rosto nunca aparace, sempre oculto por uma máscara. E, é uma atuação muito interessante, pois, como não podemos ver suas expressões faciais, tudo é dito através da movimentação corporal, que vai lembrar, claro, em muitas ocasiões, algo mais teatral. Uma forma de atuar difícil, mas, que deu muito certo.


No final, a adaptação para cinema de "V de Vingança" cumpre tudo o que promete, e que folga. Pouco antes dos atuais filmes de quadrinhos estarem mais preocupados com o realismo, e como a questão do super-herói é vista por pessoas comuns, "V de Vingança" já mostrava de maneira competente os efeitos de uma ideologia encarnada num único ser, com o agravante de estarem todos sob o controle total da tirania. Sim, tudo isso pode parecer piegas ou clichê, porém, a máscara de V espalhada mundo afora em inúmeros protestos só prova que a ideia ali precisava ser dita. E, foi.

"Por baixo desta máscara não há só carne; há uma ideia. E, ideias são à prova de balas!"


Nota: 9/10. 

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