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Dica de Documentário

"Cássia" (2014)
Direção: Paulo Henrique Fontenelle.


Cássia Eller foi a última grande cantora que o Brasil teve. Isso era facilmente constatado com ela em vida, e, mais ainda, nos dias atuais, aonde não temos nenhuma que chegue aos pés dela; apenas meninas de vozes suaves, tentando fazer uma espécie de Bossa-Nova pós-moderna, porém, sem identidade. E, após assistir a esse belo documentário, fica a certeza de que a partida precoce de Cássia realmente deixou uma grande lacuna na música brasileira, que ainda não foi preenchida, e que, pelo visto, não será tão cedo. Como disse alguém num dos depoimentos aqui: "Não se nasce Cássia Eller impunemente!"

Só que essa declaração ganha ares mais profundos no decorrer da produção, já que vamos conhecendo Cássia de maneira mais íntima, particular. Estamos ali, presenciando sua notável timidez com o carinho e o afeto necessários a pessoa que ela era. Como ela mesmo fala num determinado momento: "Tirando aqueles com os quais eu tenho mais intimidade, eu tenho vergonha e até medo das pessoas". Esse "medo", obviamente, ficava evidente no dia a dia, mas, era extravasado em cima do palco, que era onde Cássia gostava de soltar seus demônios, numa relação de "entrega" poucas vezes vista na música brasileira.




Evidente que a vida pessoal da cantora tem vez no documentário, e, felizmente, essa questão é tratada com muito respeito por parte dos realizadores. Desde sua relação com Maria Eugênia, até a gravidez de Chicão, passando pelos eventuais envolvimentos com drogas, não há julgamentos, ou qualquer forma de preconceito ao estilo de vida que Cássia tinha. Ao contrário, fica claro no documentário que ela era bastante amada por familiares, amigos e afins, mas, que sua (sempre bem-vinda) rebeldia atrapalhava um pouco sua relação com a imprensa. Não à toa, ela odiava dar entrevistas.

A imprensa, inclusive, tem papel de destaque na produção, mas, de maneira negativa, que é quando chegamos ao momento da morte de Cássia. Foi unânime a opinião de todos de que nenhum veículo de comunicação tratou o falecimento da cantora com o devido respeito, com destaque para a revista Veja e o jornal O Dia, que estamparam matérias grotescas, em que se via, claramente, muito preconceito e recalque em relação a Cássia, seja pela questão das drogas, seja pela sua livre sexualidade.




Porém, mesmo com fatos negativos relacionados à sua morte, o documentário faz questão de frisar algo importante nesse contexto, que foi a luta de Maria Eugênia pela guarda de Chicão, cujo pai havia morrido antes de seu nascimento, e, naquele momento, seu avô paterno estava querendo a sua guarda. Isso foi no longínquo ano de 2002, e, de maneira inédita, a Justiça determinou que Chicão ficaria com Maria Eugênia, reconhecendo, implicitamente, uma relação homoafetiva, o que abriu muitas portas para questões desse tipo Brasil afora.

No campo musical, vemos, com muita alegria, a evolução artística de Cássia, começando cantando rock e blues, e expandindo seu repertório para o samba, a MPB, e até a música francesa. Tudo mostrado com muita propriedade por quem viveu aqueles momentos, desde os músicos da banda dela, até quem produziu seus discos. Claro que, nesses aspecto, temos uma atenção especial para Nando Reis, com quem Cássia criou um vínculo artístico e de amizade muito fortes, e que foi um dos responsáveis pelo ápice da cantora: os discos "Com Você, Meu Mundo Ficaria Completo" e o "Acústico MTV".




"Cássia" é um documentário muito bem realizado, com tudo no lugar. Respeita, e muito, a figura de Cássia Eller, dando o devido valor artístico a ela, e ainda tentando desmistificar alguns tabus que ainda hoje muitos têm em relação à sua pessoa, que, claramente, não era simplesmente uma "porraloca" revoltada, mas também uma pessoa cativante, que conseguia reunir em torno de si verdadeiros amigos. No quesito arte, continuamos com uma lacuna aberta enorme, pois, nenhuma cantora ainda se mostrou à altura de seguir o legado de Cássia. De fato, "ninguém nasce Cássia Eller impunemente".


Nota: 8,5/10.

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