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Dica de Documentário

"Janis Little Girl Blue" (2016)
Direção: Amy Berg.


Música é sentimento. E, poucos levaram isso ao pé da letra como Janis Joplin, que, assim como qualquer outro artista que absorve do mundo mais do que deveria, foi embora muito rápido. "É melhor queimar de uma vez, do que se apagar aos poucos", já dizia o grande Neil Young. E, a chama de Janis foi fantástica durante sua (curta) carreira. Aproveitando a recente onde de ótimos documentários musicais, este "Janis Little Girl Blue" pode não ter a mesma força que as  produções que se debruçaram sobre as vidas de Kurt Cobain ou de Nina Simone, por exemplo, mas, foi realizado com tamanha honestidade, que ainda consegue estar acima da média em muitos pontos.

Talvez, o que mais se sinta falta aqui é um elemento mais humano em relação a Janis. Para a curta duração do documentário, há excesso de música, e até pouco sobre a vida particular da cantora. Só no início e no fim da produção que vislumbramos, mais ou menos, quem era Janis Joplin, e sua inadequação social, principalmente, pelo machismo que sofria, em especial, quando era adolescente. E, mesmo após a fama, todo o bullying que ela sofreu continuou quando resolveu voltar à terra natal, e foi solenemente ignorada pelos seus antigos conterrâneos. Foi essa rejeição que, em linhas gerais, acabou com a alma de Janis.




Mas, se a produção peca em se aprofundar nos motivos da tristeza que quase sempre permeou a vida da cantora, pelo menos, no campo musical, não há do que reclamar. Tudo é contado em detalhes, desde quando ela começou, propriamente, sua carreira, aos 17 anos, passando a ser integrante da Big Brother an the Holding Company, tendo sua maneira de interpretar as músicas mudada após assistir a um show de Ottis Redding, culminando com as críticas que recebeu após a saída da Big Brother, e, por fim, o ocaso de sua existência, quando o disco "Pearl" foi lançado 3 meses após sua morte, contendo, ironicamente, o maior sucesso de sua carreira: "Me and Bobby Mcgee".

Nos intervalos desses eventos, podemos acompanhar o quanto Janis foi maltratada pelos homens, quando ainda adolescente, e ver ela meio que recuperar a alto estima quando subia ao palco, lugar aonde expunha suas angústias e soltava seus demônios. Os registros musicais de suas apresentações são primorosos, em particular, nas suas apresentações em festivais, como o Monterey Pop e o Woodstock. Vemos ela melhorar bastante suas interpretações ao longo dos anos, numa evolução crescente de sua incrível voz, apesar dos eventuais excessos com drogas, outra válvula de escape para ela.




Por sinal, a produção é bastante respeitosa quando o assunto é o uso que Janis fez de destorpecentes, não havendo julgamento moral, nem por parte de quem participava de suas "viagens", e hoje, sobreviveu aquela época, quanto quem apenas observava à distância, como alguns de seus familiares. As lamentações dos entrevistados só são sentidas em uníssono quando todos concordam que ela foi longe demais, justamente porque não conseguia ignorar tudo o que estava à sua volta, como as pessoas comuns fazem. E, isso, segundo quem a conheceu, deixava ela transtornada.

O que transparece no documentário também que Janis tinha uma carência tremenda por causa de toda a violência psicológica que sofreu, e por isso, precisava se sentir amada o máximo que pudesse. Seus romances ao longo da vida (inclusive, um ocorrido no Brasil), e as letras de suas canções (como em "Cry, Baby") demonstram bem isso. E, mesmo assim, artisticamente, ela estava em ascensão, no nível de uma Aretha Franklin, por exemplo. Podemos até usar o clichê de que ela partiu dessa vida no auge, como Neil Young, em sua célebre frase, sempre insiste em nos mostrar.




"Janis Little Girl Blue" não tem o mesmo poder de fogo do que outros registros recentes de gente que também partiu muito cedo (Cobain, Amy Winehouse, etc.). Mesmo assim, é um interessante registro da época da contracultura, e. acima de tudo, o reconhecimento de uma cantora que, sem pudores, colocou sua alma na bandeja, e sofreu as dores que só algo como a vida possui. E, que, mesmo após sua morte, é um sentimento que continua vivo e pulsante, como o bom e velho rock'n roll.


Nota: 8/10.

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