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Dica de Série

"Stranger Things" (2016) - 1ª Temporada
Direção: The Duffer Brothers.


Nada se cria, nada se perde, tudo se copia. É vem sendo a máxima das produções recentes no audiovisual, seja na TV ou no cinema. Ok, que se copie, mas, que, pelo menos, tenham a capacidade de fazer o "feijão com arroz", um produto que seja, minimamente, degustável. O problema é que muitos dos filmes e das séries para TV feitos nos EUA não só recriam o que já foi feito, como fazem tudo mal-feito. Não à toa o mote de Hollywwod agora são o remakes e os filmes de super-heróis, a maioria de medianos pra ruins. Por isso, é gratificante termos uma série como "Stranger Things".

Não se enganem. Ela não traz nada de novo, nem nada de mirabolante. Apenas recria (muito bem) todo um universo que, pra muitos, foi o último grande lampejo de criatividade em Hollywood, que foram os anos 80 em geral. São várias referências a filmes, músicas e toda uma cultura, que, na época, era estigmatizada como "coisa de nerd". Tudo bem que hoje ser nerd está na moda, mas, a série não se rende a rasgações de ceda fáceis, sendo feita, claramente, por quem conhece e tem um carinho especial por esse tipo de cultura.

Agora, teremos a apresentação de cada um dos 8 episódios da primeira temporada de "Stranger Things", comentados um a um. Aviso: é recomendados que, antes de lerem os textos a seguir, vocês tenham assistido à toda primeira temporada, pois, eles darão alguns (inevitáveis) spoilers. 

Aviso dado, vamos nessa:


Capítulo 1 - "O Desaparecimento de Will Byers"
Aqui, temos, basicamente, a apresentação dos personagens principais, desde a trupe de crianças que estarão no centro dos estranhos acontecimentos da pequena cidade, até o xerife meio caricato. Pra falar a verdade, esse início é um tanto morno. Como esse primeiro episódio é relativamente curto em comparação a outras séries (menos de 50 minutos), tudo é jogado na tela de forma abrupta. A primeira sequência remete diretamente a "Aliens - O Resgate", mas, sem o mesmo impacto de outrora. A apresentação das crianças também é meio forçada e histérica, mesmo que condizente com suas personalidades. Ao longo desse primeiro episódio, porém, as coisas vão entrando nos eixos, e a narrativa passa a ser mais envolvente e interessante, culminando numa cena que dá vontade de assistir a continuação da história. Ponto positivo é que, logo em seu início, a série mexe com alguns esteriótipos, como, por exemplo, o grupo principal de crianças da trama, que sofrem bastante preconceito por serem "diferentes" em vários sentidos. E, já vislumbramos inúmeras referências mais sutis e menos óbvias a filmes de décadas passadas, como o convite que a mãe de Will faz pra irem assistir "Poltergeist" no cinema. Mesmo irregular em muitos momentos, esse primeiro capítulo de "Stranger Things" ainda consegue ser bom. Nota: 7/10.


Capítulo 2 - "A Esquisitona da Rua Maple"
Incrível, mas, a série, de um episódio para o outro, melhorou (e, muito), principalmente, na construção dos seus personagens. Não só a estranha menina que foi mostrada na capítulo passado torna-se mais interessante, como também os garotos Mike, Lucas e Dustin ganham contornos mais elaborados e divertidos. Jonathan e Joyce (irmão e mãe, respectivamente, do desaparecido Will) também possuem um espaço considerável neste segundo episódio, e até o delegado Hopper, que havia se mostrado um personagem muito raso à primeira vista, mostra-se uma pessoa mais complexa agora. A própria história tem um dinamismo diferente, sendo mais fluida, ganhando o espectador logo nos primeiros minutos. E, as referências continuam, ora explícitas, ora sutis (somente no quarto e Jonathan dá pra ver os pôsteres de "A Morte do Demônio" e "Tubarão"). Claro, a série ainda possui alguns defeitos, colocando momentos cômicos e caricatos aonde, muitas vezes, não precisa, mas, no conjunto, este episódio está bem melhor resolvido do que o anterior. Uma evolução louvável. Nota: 8,5/10.


Capítulo 3 - "Caramba"
Neste episódio, continuamos a ver a ascensão da série, mostrando que a qualidade que vimos no capítulo anterior não foi mero "golpe de sorte". Além dos personagens estarem plenamente construídos na trama, cada um com uma característica própria, e todos carismáticos, temos ainda mais (boas) referências a coisas do passado. Interessante como os realizadores de "Stranger Things" conseguem dialogar com os anos 80/90, às vezes, por pequenos detalhes, seja por um pôster do filme "Enigma do Outro Mundo" no quanto de um dos personagens, seja pela programação da TV, que exibe desde de noticiários com boletins da época, até desenhos, como He-Man. Especificamente, nesse episódio, encontraremos bastante foco em produções como "E.T." e "Akira", principalmente, em relação à estranha garota, que atende apenas pelo nome de Onze. O desenvolvimento muito competente do enredo, aliado a um tratamento bastante humano e comovente dado aos personagens, fazem deste um dos melhores episódios da primeira temporada. Nota: 9/10.


Capítulo 4 - "O Corpo"
O quarto capítulo dessa primeira temporada mantém o ótimo nível da série, apesar de já apresentar alguns pontos fracos, que acabam sendo clichê em muitas produções do gênero. Talvez, o que incomode mais nesse episódio sejam alguns furos de roteiro envolvendo o personagem Hopper, e sua, cada vez mais, incessante investigação a respeito do paradeiro do garoto Will. Não raro, ele comete atitudes imprudentes, mas, tendo a sorte de ser ajudado pelas atitudes mais imprudentes ainda de quem ele começa a combater. São momentos um tanto forçados, como se a intenção fosse lembrar o clima de mistério de produções como "Arquivo X", por exemplo, mas, sem um devido cuidado com o roteiro. Em compensação, temos um bom desenvolvimento dos dramas familiares que acometem, praticamente, todos os personagens, deixando a história com componentes dos quais o espectador possa se identificar mais. No geral, a partir daqui, a trama começa a se afunilar, e algumas pistas do que, de fato, está acontecendo vão sendo dadas. O bom clima de tensão segura o interesse até o final do episódio, que termina de maneira satisfatória. Nota: 8/10.


Capítulo 5 - "A Pulga e o Acrobata"
Chegamos ao quinto episódio, e a série, aqui, mostrou certo cansaço criativo, tanto no início, como fim do capítulo. O clima de tensão ficou bom, mas, o preço disso foram os chatos furos de roteiro, que já tinham no episódio anterior, e que nesse ainda persistem. O que salva é um pouco mais de explicações a respeito do tenebroso passado da menina Onze, e o terror cada vez mais próximo de estranhos seres que rondam a cidade. Outro ponto positivo também é, de novo, o bom desenvolvimento dos personagens, em seus dramas e inquietações, principalmente, depois dos macabros acontecimentos que todos estão presenciando. Esse lado mais humano é uma das melhores qualidades de "Stranger Things", pois, acaba fazendo o espectador se "transportar" para o olho do furacão, criando um envolvimento muito bom. Pena que os roteirista aparentam ter um pouco de preguiça quando o assunto é a condução das ações dos personagens (Hopper e Nancy, respectivamente). Mas, ainda assim, a série tem predicados suficientes para estar acima da média. Nota: 7,5/10.


Capítulo 6 - "O Monstro"
Depois de dois episódios relativamente fracos, temos este que é um dos melhores e mais equilibrados capítulos dessa primeira temporada. Isso porque já estamos totalmente habituados à jornada de Mike, Lucas e Dustin em busca de seu amigo Will, e, com um tempo mais considerável em tela, as crianças vão ficando cada vez mais cativantes, justamente por se comportarem como crianças, e não como mini-adultos. A sub-trama envolvendo Jonathan e Nancy dá uma melhorada considerável, além das atitudes do delegado Hopper passarem a ser mais pensadas, e menos imprudentes. A série vai tomando mais ares de terror e ficção científica, num enredo que, até em seus piores momentos, consegue prender a atenção e gerar uma enorme expectativa. Além disso, o final desse episódio reserva um dos momentos mais bonitos da série, digna de um "Conta Comigo". Nota: 8,5/10.


Capítulo 7 - "A Banheira"
O mais curto e um dos mais interessantes episódios da temporada, sem dúvida. Com o espectador já inteiramente ambientado com a história, e sem necessidade de apresentações ou explicações, o foco aqui é tão somente a ação da narrativa, num jogo de gato e rato muito bem filmado e tenso. Muito bacana ver a "nerdice" dos protagonistas, para criarem, através da ciência, mecanismos para salvar Will, lembrando muito aquelas boas matinês oitentistas, em que os personagens criavam engenhocas mirabolantes, e que, incrivelmente, davam certo. Ponto negativo só (e, mais uma vez) as atitudes imprudentes de Hopper, que precisa parar mais pra pensar antes de agir. Mais um episódio que faz jus às referências às quais presta homenagem. Nota: 8,5/10.


Capítulo 8 - "O Mundo Invertido"
E, eis que chegamos ao fim da primeira temporada de "Stranger Things" com um episódio que mantém o bom nível da série. Mesmo com um ou outro problema de roteiro e uma parte técnica não tão elaborada (o que é até justo, pois, não estamos falando de uma superprodução à lá "Game of Thrones"), ele chega até aqui convencendo, divertindo, empolgando e cativando. Um (momentâneo) desfecho que, como toda boa produção do gênero fantasia, deixa o gancho para uma aguardadíssima continuação em breve. Basta esperar. Nota: 8,5/10.


Conclusão
"Stranger Things" é o tipo de série que merece (e, precisa) ser vista pelos nostálgicos de plantão. Sim, é provável que as gerações mais recentes até se encantem com a premissa dela, mas, é mais certo que ela foi feita, basicamente, para aqueles que viverem do final dos anos 70 para o início dos anos 90, com aquelas sessões matinês, jogos de fantasia, filmes de terror verdadeiramente aterrorizantes, e amizades autênticas. Bom destacar também as atuações, que estão bem naturais e divertidas, mesmo sem nenhum grande destaque, e que ainda tem gente que participou ativamente das produções da época que a série retrata, como Winona Rider e Matthew Modine. 

Uma produção que não quer "inventar a roda", pois, desde o começo, é deixado bem claro que se trata de uma "homenagem" `diversos elementos da cultura pop, e que, incrivelmente, vem fazendo sucesso por onde passa. A segunda temporada já foi confirmada com merecidos aplausos. Seus roteiristas só precisam melhorar um pouco a construção das cenas, evitando os irritantes "furos", e terem mais recursos técnicos para deixar a imaginação fluir numa boa. Assim sendo, teremos uma pequena grande série a ser lembrada por um bom tempo.


Nota Final da 1ª Temporada: 8/10.

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