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Dica de Filme

"Aprile" (1998)
Direção/: Nanni Moretti


Nanni Moretti é um cineasta que sempre teve algo relevante a dizer, e isso se aplica desde os seus primeiros filmes, até os mais recentes. E, o melhor: geralmente, suas produções possuem um humor inteligente, irônico, provocador, e, de certa maneira, até pouco histriônico, o que contrasta com o cinema italiano como um todo. A preocupação de Moretti é fazer rir e pensar, muitas vezes, de forma leve e descontraída, e em outras, nem tanto, mas, em todos os casos, respeitando a inteligência do espectador, não colocando soluções fáceis em suas tramas.

"Aprile", portanto, é puro Moretti, inclusive, com a presença maciça do cineasta a todo tempo na produção. Sim, pode até parecer uma certa vaidade da parte dele, mas, como os seus textos e mensagens, a cada filme, são muito bons, então, releva-se essa questão dele ser quase onipresente na película, e nos concentramos em suas críticas, que são muito peculiares e interessantes. Este filme aqui, na realidade, é uma espécie de "falso documentário", em que o diretor, que interpreta a si mesmo, tenta fazer uma produção para relatar os acontecimentos das eleições de 1996 e 1998, nas quais a Direita subiu ao poder. "Aprile", então, refere-se a abril, mês em que essas eleições ocorreram.




Logo nos primeiros minutos, o clima de descontração e deboche impera, com um pronunciamento do então candidato à presidência Berlusconi, e Moretti e sua mãe assistindo a tudo, e conversando de forma bem sarcástica, numa sequência bem hilária. Desde o começo, p cineasta se mostra interessado em fazer um musical com clima dos anos 50, mas, o momento político "exige um posicionamento", e fazer um documentário sobre a ascensão da Direita na Itália se mostra mais urgente. A partir daí, vamos vendo as desventuras do diretor em tornar o projeto viável.

O que talvez incomode a muitos, principalmente, nesses tempos de polarização fácil das ideias, seja o fato de Moretti ser um contumaz crítico de todos os lados, e isto é evidente em "Aprile". Num determinando momento ele diz (num belo exercício de metalinguagem): "Eu quero fazer um filme para mostrar o que eu penso, e não para convencer a Direita, ou bajular a Esquerda". Facilmente, também, encontraremos provocações a movimentos que se dizem de Direitos Humanos, a cineastas que se enveredam pelo caminho da Publicidade, etc. E, tudo com muita graça, num humor ora rasgado, ora requintado, mas, nunca apelativo.




O filme, contudo, perde um pouco de força com o nascimento do filho de Moretti, o que faz com que ele dê mais atenção à sua paternidade do que a seu trabalho como cineasta. É interessante, sim, ver retratado na tela como os acontecimentos de nossa vida pessoal tiram muito do foco daquilo que a gente acredita, mas, o problema é que a narrativa de "Aprile" acompanha esse momento mais light na vida do diretor, deixando a história um pouco arrastada. Nada de tão grave, assim, diga-se, pois, em determinado momento, o cineasta recomeça os seus trabalhos no documentário, e com o seu filho do lado, o rende cenas muito engraçadas.

Perto do final, temos um interessante "choque de realidade", o que, decerto, desagradou alguns, mas, que é plenamente condizente com o espírito inquieto de Moretti. A cena que encerra "Aprile", inclusive, serve como uma forma de "redenção" para o diretor, ao propor que precisamos fazer mais aquilo que gostamos, mesmo que isso vá de encontro às muitas patrulhas ideológicas existentes por aí. O que também mostra muito do senso crítico do cineasta em não se render à demagogia barata ou ao discurso fácil, cheio de frases de efeito. 



Enfim, pra quem já conhece o cinema de Nanni Moretti de longa data, não vai se decepcionar com "Aprile", que  talvez seja um dos filmes mais completos dele, aonde encontramos humor e drama muito bem embalados numa metalinguagem dentro de outra metalinguagem, mas, nada soar complexo ou pedante demais. "Brincando", o cineasta conseguiu fazer o filme que queria, passou o seu recado, criticou quem merecia, fez um panorama interessante da Itália atual e ainda se divertiu ao final de tudo. Com um autêntico espírito provocador, Moretti mostra porque é um diretor diferenciado. 


Nota: 8,5/10


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