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Dica de Filme

"A Nona Vida de Louis Drax"
2016
Direção: Alexandre Aja


Uma das vantagens do cinema é que ele pode, de fato, surpreender. Alguns filmes são pequenas excentricidades, produções tão bem-feitas que acaba sendo injusto que muitas não sejam de grande conhecimento do público. "A Nona Vida de Louis Drax", por exemplo. Quem imaginaria que o diretor do apelativo (apesar de interessante em alguns pontos) "Alta Tensão" e do completamente descartável "Piranhas 3D" pudesse realizar um longa sensível sobre a infância, comparável, recentemente, ao belíssimo "Indomável Sonhadora"? Pois, é exatamente o que temos aqui: um bonito exercício metafórico a respeito de uma criança que vê o mundo de uma maneira peculiar.

O Louis Drax do título trata-se de um menino de 9 anos que nasceu com propensão a sofrer acidentes. Todo ano, algo completamente inusitado quase acaba com a sua vida, mas, mas, ele consegue sobreviver. Até que, no seu nono aniversário, ele passa por aquele que pode ser o seu último acidente: a queda de um penhasco, enquanto fazia piquenique com os seus pais. A partir disso, o filme passa a nos apresentar mais da vida do menino e de seus pais, e as investigações das autoridades para saberem se o que o garoto sofreu foi um acidente ou não. O fato dele ter ficado em coma após a queda e de seu pai ter desaparecido aumenta todo o clima de suspense em torno da história.




Acreditem: falar só um pouco mais sobre a trama é estragar a grata surpresa de assistir esse filme. Isso porque a direção segura de Alexandre Aja, unida ao roteiro muito bem estruturado de Max Minghella, vai dando pistas aos poucos, sem pressa, ao longo da produção. Evidente que olhares mais atentos perceberão algo de estranho no ar, e talvez descubram o que está por trás de tanto mistério. Só que tudo é tão bem amarrado que, mesmo a gente conseguindo prever o "que" aconteceu, ainda nos indagamos "como" aconteceu. É um suspense que não para de surpreender e de instigar, mesmo após alguma revelação decisiva.

Um dos muitos pontos positivos é a construção dos personagens. Nenhum é mostrado de forma maniqueísta ou rasa. O melhor: não vemos aqui pessoas tomando decisões absurdas diante de algo complicado. As atitudes que todos tomam são críveis, do tipo que qualquer pessoa faria na vida real, sem maiores esforços. Exemplo disso é o dr. Allan Pascal que, mesmo fazendo um ou outra coisa imprudente, não chega a ter ações comprometedoras. Outro bom personagem que acaba se revelando mais do que aparentava é o dr. Perez, psicólogo do menino antes dele sofrer o fatídico acidente no penhasco. É dele, por sinal, algumas das melhores cenas, principalmente, quando contracena com o seu pequeno paciente, o que acaba rendendo ótimos diálogos. 




O grande atrativo do filme, a despeito de sua trama elaborada, é mesmo o personagem título. Louis Drax é, ao mesmo tempo, inteligente, solitário, sincero e um tanto cruel. Essas características são bem delineadas nos flashbacks que contam alguns momentos na vida do menino antes do acidente, além de ir mostrando sua conturbada e estranha relação com os seus pais. Um artifício interessante na produção é o universo de fantasia que o garoto cria enquanto está em coma, sempre acompanhado por uma horrenda criatura, mas, que será peça-chave na história. Uma pena, somente, que esses momentos sejam poucos, pois, dão um aspecto ainda mais instigante ao filme.

Uma das crítica recorrentes ao filme é que ele, teoricamente, não se decide entre ser um drama conjugal, um terror, um suspense ou uma fantasia. Bobagem. Primeiramente, porque o cinema não precisa se render a rótulos. Isso é, na prática, limitar o que uma produção tem a dizer. E, segundo, esse é, justamente, um dos grandes trunfos da história, que prende e envolve o espectador até o último minuto, sem precisar apelar para soluções fáceis ou clichês mais do que batidos. É uma mistura temática que pode até incomodar pela estranheza, porém, em nenhum momento, as ações aqui se mostram deslocadas, o que chega a lembrar um pouco a concepção narrativa de "O Labirinto do Fauno", que, não por coincidência, também não se prende a um único gênero.




Em termos de atuações, ninguém aqui está ruim, apesar de também não haver nenhum que brilhe de verdade nesse sentido. Aiden Longworth desempenha bem o seu papel de menino excêntrico, enquanto que Sarah Gadon e Aaron Paul interpretam de maneira tocante e honesta os seus pais. Um que está um pouco acima da média é Jamie Doman, que consegue passar com verossimilhança um médico que vai ficando cada vez mais paranoico com uma história da qual não deveria ter se envolvido, e que não pode mais sair. Já, em relação a direção, roteiro e edição, estes estão em perfeita simetria, não deixando que a trama perca fôlego à  medida que o quebra-cabeças vai se encaixando até um final verdadeiramente impactante.

Não é uma experiência simples assistir "A Nona Vida de Louis Drax". Requer certa paciência para deixar a história "seguir", e saber aonde o filme quer chegar. Mas, quando finalmente entendemos tudo, chegamos à conclusão de que se trata de um baita filme. E, não importam rótulos. Se suspense, drama ou fantasia, o que interessa mesmo é que se trata de cinema feito com esmero, com cuidado, sem subestimar a inteligência do espectador. Trata-se, por fim, de uma história interessante contada de forma interessante. Somente isto já basta para apreciar este pequeno grande filme, que se mostrou um ótima surpresa em meio a produções atuais tão, digamos, "comuns".


Nota: 9/10


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