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Filme Mais ou Menos Recomendável

"A Qualquer Custo" (2016)
Direção: David Mackenzie


Alguns filmes nos soam tão familiares, que pensamos se tratarem das mesmos realizadores daquelas produções que já conhecemos. "A Qualquer Custo", por exemplo, pode muito bem ativar a memória do espectador, remetendo diretamente a "Onde os Fracos não têm Vez", dos irmãos Coen. A estrutura, junto com a temática, formando uma espécie de "comédia de erros", com personagens, propositalmente, atrapalhados e bastante caricatos vai lembrar muito o jovem clássico dos Coen. O problema é que vai só lembrar, mesmo,  pois, "A Qualquer Custo" têm muitas intenções interessantes, mas,  uma realização capenga.

Já começa pela dupla que protagoniza a história (os irmãos Toby e Tanner Howard), extremamente irritantes e burros em suas ações. O problema é que se o roteiro fosse melhor estruturado, subvertendo clichês e paradigmas do gênero (neste caso, um faroeste moderno), a persona desses personagens seria um "upgrade" numa trama inteligente, que prendesse o espectador a cada cena (exatamente como "Onde os Fracos não têm Vez" fez há alguns anos). Os dez primeiros minutos são sintomáticos para delimitarem bem o que veremos: um jogo de "gato e rato", com personagens desinteressantes e uma história cheia de furos.




Mas, vamos lá: se o filme se comportasse como uma comédia, talvez rendesse  bem mais. Mas, após esse início, mais com cara de pastelão do que de qualquer outra coisa, a produção resolve se levar a sério, e meio que tenta "justificar" a atitude dos irmãos em roubarem bancos. Só que o drama dos rapazes é muito raso, e não rende a emoção necessária para que sintamos algo por eles (simpatia, pena, raiva, ou que quer que seja). E, com a entrada na história do policial Marcus Hamilton e seu parceiro Alberto Parker, a coisa só piora. Isso porque é da dupla diálogos verdadeiramente constrangedores, muitas vezes carregados de preconceito.

Este, por sinal, é um defeito bem latente no filme: os personagens carregados de estereótipos. Por se passar no Texas (e, não faço ideia se a população de lá é realmente assim), todos se comportam como os típicos machões, sempre de chapéu de cowboy, e que nunca perdem a oportunidade de fazerem piada contra mexicanos e índios. Se o roteiro mostrasse isso pelo lado cômico, expondo o quanto estão sendo ridículos, ou até se fosse crítico, correndo o risco de ser panfletário, ótimo. Mas, como mencionei antes, a trama se leva a sério o tempo todo. Não se trata de ser "politicamente correto" ou até mesmo "chato", mas, até com a ascensão desse conservadorismo que estamos vendo aí, unida a um verdadeiro ódio aos imigrantes faz desse detalhe do filme algo incômodo.




Com um roteiro tão frouxo, personagens tão irritantemente caricatos e piadinhas recheadas de preconceito, o que sobra? Bem, ao menos, a história, às vezes, consegue sobressair algo de interessante, como num diálogo muito esparso entre Marcus e Alfredo, a respeito das questão dos ancestrais indígenas, e chegando até a exploração feita pelos bancos. Nesse aspecto, inclusive, o filme, em alguns momentos, tenta fazer críticas consistentes ao sistema bancário, ligado às hipotecas de imóveis, entre outros assuntos relacionados. O problema, mais uma vez, é que tudo é dito e mostrado mostrado muito na superfície, dando mais ênfase à relação dos irmãos Toby e Tanner.

O diretor escocês David Mackenzie, ao menos, mostra esforço para conduzir a trama da melhor maneira possível, não alongando ela além da conta, e até surpreendendo em algumas ações dos personagens, principalmente no final, criando uma tensão até razoavelmente boa. Porém, o que complica mesmo é a burrice dos irmãos, só superada pela burrice da polícia (menos o policial Marcus, que, mesmo em idade avançada, e prestes a se aposentar, obviamente vai tentar dar uma de herói, como todo bom e velho machão texano). E, mais clichês aparecem. Em termos de atuações, nada de extraordinário aqui. Chris Pine e Ben Foster são apenas competentes, mas, seus personagens realmente exigem o mínimo de esforço, e Jeff Bridges, como o policial Marcus, até que se si bem, fazendo um personagem bem a rigor do que o filme pede, no final das contas.




Caso subvertesse certas convenções (como os irmãos Coen fazem, rigorosamente, em cada uma de suas produções), ou não se levasse tão a sério em suas caricaturas (que nem um Tarantino da vida, por exemplo), estaríamos diante de um filmaço. Mas, com tantos defeitos, sobra a "A Qualquer Custo" o estigma de possibilidades não realizadas, de uma produção, cuja premissa até era boa, mas, que na realização, perdeu-se em muitos aspectos. No final, este "faroeste moderno" fica num meio termo entre a comédia de erros e o drama, não chegando a se realizar em nenhum desses universos.


Nota: 5/10


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