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Dica de Filme

"Moonlight" (2016)
Direção: Barry Jenkins


Ritos de passagem são necessários para o amadurecimento de todos. Só que, muitas vezes, podem ter o efeito contrário: com o passar do tempo, e dependendo dos acontecimentos da vida, nem sempre a fase adulta se torna mais tranquila. Família, amigos, escola; tudo pode influenciar negativamente para o surgimento de algum trauma, ressentimento ou angústia profunda. No cinema, são diversas as formas de simbolismo que retratam situações dessa natureza, e "Moonlight", forte candidato ao Oscar desse ano, é mais um que nos apresenta as principais fases da juventude em sua concepção narrativa. Com algumas diferenças bem marcantes, é bom ressaltar.

A trama é centrada, no (ainda menino) Chiron, que, não por acaso, é chamado de "moleque" por todos, e este é o título da "primeira parte". E, ele é apresentado a nós de maneira tensa, quando é perseguido por garotos da vizinhança que querem bater nele. Salvo por Juan, traficante do local, v Chiron passa a ter uma certa amizade com ele, que, ao mesmo tempo, é conflituosa, já que a mãe do menino, além de se prostituir, ainda é viciada em crack. Vem a "segunda parte" do longa, chamada apenas de"Chiron", que mostra o rapaz já adolescente, e enfrentando os mesmos conflitos de infância, só que piorados. Na "última parte", intitulada de "nego", o filme mostra o proyagonista já adulto, e "aparentemente", livre de qualquer trauma.




Não esperem, no entanto, soluções óbvias na história de "Moonlight". O roteiro, espertamente, quebra algumas convenções, a maioria baseadas em esteriótipos e preconceitos, e não somente por conta do elenco ser predominantemente negro, mas, por também tocar em questões sérias, como a descoberta da sexualidade e a destruição física e psicológica que as drogas fazem. Só que não é nada esquemático, panfletário ou conservador, Chega a ser quase documental, por exemplo, como é mostrada a degradação de Paula, mãe de Chiron. ao longo dos anos, gerando alguns dos momentos mais dolorosos do filme.

Muitos alardearam (erroneamente) que este era "O Segredo de Brokenreak Mountain" da nova geração, o que é um tremendo exagero. De fato, a orientação sexual de Chiron gera alguns conflitos complicados para o rapaz ao longo de sua vida, mas, em linhas gerais, não chega a ser o mote principal da trama, que gira mais em torno dos problemas típicos de um subúrbio com enfoque em histórias particulares, além de mostrar a crueldade das pessoas perante não somente aos homossexuais, mas, a todos que consideram "estranhos". Por isso, a história não tem uma grande tensão sexual, só possuindo algo similar a isso nos seus minutos finais.




A grande sacada do filme está em mostrar, de maneira bem humana, como um garoto sem muita perspectiva na vida reage aos problemas que vão sendo impostos pra ele, ora de maneira contida e calada, ora na base da explosão de uma revolta de quem já não aguenta tanta humilhação. Nesse sentido, criança e adulto se equivalem na timidez, enquanto é na fase adolescente que vem, ao menos, um revide, um soco de volta, mesmo que as consequências sejam graves. O espectador acompanha o protagonista com o olhar de quem gostaria de fazer algo por ele, tamanho é o carisma dado ao personagem através do roteiro.

Interessante é que nessa passagem do tempo na trama, personagens vêm e vão, como se fosse a representação da própria vida: com o passar dos anos, conhecemos pessoas das quais, depois, não temos mais contato, mas, que deixaram a sua marca de alguma forma. Essas pessoas, inclusive, podem retornar, suscitando velhas paixões, e antigas dúvidas. Portanto, todos que aparecem aqui possuem algum grau de importância na vida de Chiron, e nisso, a história é amarrada para dar um sentido único à vida do protagonista, e fazer como que ele "descubra quem é".




O elenco todo está impecável, com destaque para Alex R. Hibbert e Ashton Sanders (que fazem Chiron criança e adolescente, respectivamente). Também merece menção Naomie Harris, brilhante e intensa como Paula, mãe de Chiron. Já, quanto à direção,  o já veterano Barry Jenkins (que também assina o roteiro) está bastante seguro, só perdendo um pouco a mão no terceiro ato, quando o protagonista, já adulto, meio que revisa o seu passado, numa sequência desnecessariamente longa, que poderia ter ficado mais enxuta na hora da edição. Tirando isso, a narrativa envolve muito bem o espectador na história, fazendo com que fiquemos ansiosos pelo final dela. A trilha sonora também é ótima, indo, sem concessões, do hip-hop à música clássica. Vale a pena, após assistir o filme, escutar somente a trilha que compõe a produção.

Em se tratado do assunto "indicado ao Oscar", é verdade que "Moonlight" não é tão audacioso quanto "A Chegada" (outro candidato de peso), mas, com certeza, é bem melhor resolvido dentro do que se propõe do que o incensado "La La Land". Caso esse ano a Academia faça justiça, se a produção de Dennis Villenueve não ganhar a estatueta dourada, o prêmio ficaria em boas mãos com "Moonlight", sem sombra de dúvidas. Sendo um drama até um pouco ríspido, cru, ele consegue tocar em temas interessantes e pertinentes, sem cair no piegas. Uma produção de forte teor social, e que merece não apenas ser assistido, mas, debatido por algum tempo. Em suma: um belo filme.


Nota: 8/10


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