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Dica de Filme

"A Mãe" (1926)
Direção: Vsevolod Illarionovich Pudovkin



Ah, as velhas adaptações literárias para o cinema... Sempre uma tendência, vez ou outra, temos a transposição de uma obra assim para a tela grande, na maioria das vezes, porém, sem resultados satisfatórios. O que não deixa de ser óbvio, afinal, alguns livros são, realmente, difíceis de se adaptar, seja pela estrutura narrativa, linguagem ou ambientação da história. É o caso de "A Mãe", do russo Maksim Górki. Pungente retrato da luta do proletariado contra um patronato explorador na essência, ele é um dos pilares da literatura russa. Mas, além da grande carga social que carrega, o livro também expõe a tomada de consciência por gente simples, mas, que aprende a pensar por conta própria, além das limitações de seu mundo. Aí está a dificuldade de sua adaptação, e é nesse ponto que a sua versão cinematográfica peca um pouco.

Logo no início da película, lemos algumas palavras de Lênin para, digamos, ambientar o espectador para o que virá a seguir. É um texto ótimo, e que dá a dimensão da grandeza dos personagens, sem dúvida, mas, fica um tanto deslocado, pois, ele acaba soando partidário demais, o que contradiz um pouco o que está implícito no livro (um libelo contra toda a forma de opressão). Mas, passado esse lapso, temos o começo da história, em si. A desesperança e a miséria logo tomam contam na tela, com um homem, trabalhador das fábricas, caindo de bêbado, e chegando em casa para buscar algo que possa trocar por vodka. Logo, conhecemos os protagonistas da trama: a esposa do homem bêbado, e o filho deles, Pavel. Num rápido momento de tensão, rapidamente percebemos o desajuste familiar ali presente, e facilmente, identificamos a personalidade de cada um; Pavel, aguerrido e com forte senso de justiça e a sua mãe, sofrida na desesperança de uma vida sem melhoras.





Após essa sequência, o filme demonstra outra boa faceta, ao expôr os interesses escusos envolvendo os trabalhadores do local, para que sejam cada vez mais explorados, e que toda e qualquer menção à uma greve seja logo abafada. Brutalizado pela situação de penúria em que vive, o pai de Pavel se mostra uma ótima "isca", facilmente manipulável por aqueles que detém o poder na região. Logo, torna-se uma espécie de "agente" a serviço dos donos das fábricas, encarregado de reprimir qualquer movimento grevista. Ao passo que Pavel, seu filho, vai se envolvendo mais e mais com com grupos que visam lutar contra a exploração dos trabalhadores, para desespero da mãe, que, assim como boa parte da sociedade da época, vê esses grupos apenas como baderneiros.

É, justamente, no trato com a personagem principal da história, que o filme erra muito em comparação ao livro. Na obra de Górki, ela é retratada como uma pessoa humilde, sem grande conhecimento, munida de muitos preconceitos em relação aos movimentos revolucionários, mas, que, ao longo do tempo, vai adquirindo consciência aos poucos, devido à influência de Pavel e seus amigos, e no final, sabe perfeitamente pelo o quê está lutando. Já, no filme, ela começa mais ou menos ignorante em relação à realidade, e termina quase que da mesma maneira, lutando contra seus opressores, sim, porém, não com consciência, mas, por instinto, sem refletir a respeito de suas ações. A emblemática cena dela segurando uma bandeira (certamente, vermelha) no encerramento da película, acaba servindo mais como uma ode ao Comunismo, com sequências carregadas de heroísmo e música pomposa ao fundo, do que como um importante retrato da tomada de consciência pelas camadas mais populares. Uma certa distorção, portanto, da s entrelinhas do livro de Górki.




Mesmo defeituoso no trato com a sua protagonista, o filme ainda consegue manter muito da essência do livro, como a importância da luta de classes e a ridicularização das autoridades russas, do Exército à Suprema Corte. A sequência, por exemplo, do julgamento de Pavel é um primor, nesse sentido, dando a real dimensão de como as autoridades mais respeitadas da sociedade eram, a bem da verdade, ridículas e dantescas, não se preocupando com a justiça, e sim, com futilidades. Chocante como, depois de décadas, essa visão continua atual. Os soldados também são retratados de maneira nem um pouco amena, como se fossem meros bobos da corte a serviço de interesses "maiores". 

Como cinema, "A Mãe" tem mais qualidades do que defeitos. Por vezes, exagera do tom melodramático para para arrancar o sentimento que se quer da plateia, mas, na maior parte do tempo, a narrativa flui de maneira satisfatória, com cada ação sendo contada no tempo certo, sem atropelos. Nesse sentido, a direção segura de Vsevolod Pudovkin é bastante competente. Igualmente boas são as atuações, em especial, de Vera Baranovskaya, que interpreta a mãe, e Nikolai Batalov, que faz o seu filho Pavel. São eles, por sinal, que dão a intensidade necessária ao texto de Górki, quando a direção resolve "enfeitar" demais algumas situações, simplificando a obra original além da conta. 




No fim, o que temos é uma adaptação cinematográfica satisfatória de "A Mãe", mas, ainda assim, aquém do poderoso texto original. Isso porque, com essa obra, Górki estava mais preocupado em conscientizar as pessoas, em fazê-las refletir a respeito de sua realidade, ao passo que os realizadores do filme acabaram fazendo algo mais parecido com uma doutrinação partidária. A mãe do livro é expressiva em mudar suas convicções. Já, a do filme é inexpressiva, e mesmo que, no final, faça a coisa certa, não parece fazer por consciência própria, e sim, pelo calor dos acontecimentos. Vale ser assistido, servindo até mesmo como documento histórico, mas, o livro, esse sim, continuará como um clássico absoluto da literatura, profundo e intenso como tem que ser.


Nota: 7,5/10


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