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Dica de Filme

"Perdidos na Noite" (1969)
Direção: John Schlesinger


Desesperança, pessimismo, solidão. A Guerra do Vietnã gerou marcas profundas na sociedade norte-americana, e um desses reflexos foi no cinema. Hollywood, antes berço de produções iluminadas pela prosperidade, começava a ficar um pouco mais realista, mais crua, mais visceral. A década de 70 foi o auge dessa tendência, com filmes como "Serpico" e "Taxi Driver", que expunham a escória da sociedade sem muitos pudores. Mas, o grande pioneiro nisso, aquele que trouxe Hollywood para uma fase mais adulta, foi "Perdidos na Noite".

E, por ter sido pioneiro, alguns temas abordados aqui chocaram na época de seu lançamento, como a prostituição de garotos de aluguel,, que, junto com a questão das drogas, dos marginalizados e da indiferença criam um panorama nada glamouroso dos EUA. E, tudo sob a ótica do ingênuo Joe, texano, que viaja a Nova York em busca de novas oportunidades. Acredita ter um charme irresistível,e por isso, vai tentar seduzir senhoras ricas em troca de dinheiro. Sua alegria é visível, e o filme acompanha esse sentimento do personagem começando num ritmo um tanto festivo.




Só que, na cidade grande, não será tão fácil assim. Com abordagens mal sucedidas, e já começando a ficar angustiado, Joe conhece o trambiqueiro Enrico Salvatore Rizzo, ou, simplesmente, Ratzo. Aparentemente, eles têm pouco em comum. E, no final das contas, são mais parecidos do que imaginam. Ambos estão "perdidos" não só na noite, mas, num ambiente hostil, que não aceita os fracassados. Um lagar aonde uma pessoa pode estar caída no chão, e os transeuntes passarem por ele, como se nada estivesse acontecendo. Uma cidade aonde até mesmo os "invisíveis" são indiferentes ao outro, mais preocupados em transformar seus problemas em arte, numa alienação não tão diferente do resto da sociedade.

E, é aqui que Joe e Ratzo se tornam amigos. Mais que isso: passam a fazer pequenos delitos juntos. Tornam-se cúmplices e confidentes de sua própria miséria. Ratzo se mostra mais pessimista, mas, aceita Joe em sua "casa" como a um irmão. E, o "cowboy" mesmo com tantos atropelos, acredita em algo melhor, ainda tem fé. Isso inspira Ratzo de alguma maneira. De golpe em golpe, que não dão nem pra comprarem o necessário para comerem, vão sobrevivendo como podem. Tentando encontrar alguma saída, eles vão estreitando os laços de amizade, numa das construções de anti-heróis mais ternas da histórias do cinema. 




O filme não nos oferece um olhar de censura sobre os dois, e sim, de muita piedade. Não estamos diante de criminosos crueis, que merecem nosso repúdio, mas, sim, de gente comum, que está, simplesmente, sem rumo, caminhando por aí. Ao mesmo tempo, não se trata de apologia ao crime. São, acima de tudo, personagens mostrados de maneira bem realista, retratando um momento difícil da História recente, em que nada parecia fazer sentido, a não ser se rebaixar por migalhas. É essa a principal reflexão que "Perdidos na Noite" nos oferece, além de abordar, de maneira crítica, outros temas, como a alienação religiosa, por exemplo.

Interessante que a história de Joe antes de sua ida pra Nova York não é contada nem de maneira linear, nem de forma muita clara. São flashbacks que vão, ao longo da trama, dando pistas do que realmente aconteceu a ele, e que meio que explicam o porquê de sua personalidade tão ingênua e o motivo dele achar que ser garoto de programa seria viável. São momentos rápidos, mas que dizem muito do personagem, da forma como foi criado pela avó, das violências das quais teve que passar, entre outros traumas. Um recurso muito bem utilizado, e que gera o impacto necessário, num tempo que em esses artifícios nem eram comuns no cinema.




O roteiro, adaptação do livro "Midnight Cowboy", lançado 4 anos antes do filme, é um primor. Mescla momentos de humor e de drama com maestria. Todos os diálogos têm importância para a história; não são mero desperdício de tempo. A direção de John Schlesinger é inventiva o tempo todo, ajudada por uma edição ora clássica, ora frenética. Atuações? Digamos que Jon Voight e Dustin Hoffman estão "somente" impecáveis. Voight passa fácil a impressão de garoto ingênuo do interior, e que vai amadurecendo ao longo do tempo, mas, sem perder sua essência quase infantil. Já, Hoffman faz de Ratzo um personagem fascinante, às vezes, um pequeno crápula, às vezes, um valoroso amigo.

"Perdidos na Noite", é bom lembrar, foi o primeiro filme com classificação "X" a ganhar o Oscar, tendo, depois, sua classificação baixada para "R", mais branda, portanto. Além disso, iniciou uma dos mais produtivos períodos do cinema estadunidense. E, para o pioneirismo, nada melhor do que um clássico desse porte. Com personagens atemporais, história envolvente e críticas certeiras a uma sociedade cada vez mais em degradação, o filme continua com uma mensagem muito forte. Diria até necessária, e, acima de tudo, comovente, de uma época em que Hollywood, apesar dos pesares, mostrava-se relevante.


Nota: 10/10


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