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Filme Não Recomendável

"A Vila" (2004)
Direção: M. Night Shyamalan


"Não conte a ninguém o final deste filme!"

Era essa a campanha de marketing de "A Vila" na época de seu lançamento. Instigante, não? O problema é que esse tipo de propaganda, geralmente, verde "gato por lebre". O que aparenta ser extraordinário não passa de algo muito simples, até medíocre. Então, como a promessa de algo verdadeiramente espetacular não se cumpre, a frustração logo vem. Mas, então, sejamos equilibrados, não é?  Independente de qualquer de qualquer expectativa, seja ele positiva ou negativa, o importante é analisar a obra pelo o que ela é, ou, mais especificamente, pelo o que ela se propõe. 

E, qual a proposta de "A Vila"? Bem, em tese é ser um filme de terror. Consegue? Não. Ao contrário do formidável "O Sexto Sentido", que, naturalmente, já dava a sensação de medo constante, aqui, Shyamalan perde a mão de vez no quesito suspense. As cenas que deveriam assustar são apenas bonitas e estilosas (e, até chatas diante de tanto estilo), mas, nunca chegam a incomodar o espectador, ou, de ter a capacidade de deixar ele tenso após o término do filme. É tudo, nesse sentido, muito mecânico, e pouco envolvente.




Talvez, a grande frustração em "A Vila" seja o fato da história ser uma das mais interessantes e originais que Shyamalan já escreveu, só que todo o potencial acaba sendo desperdiçado na realização. Vejam: o roteiro trata de um grupo de pessoas que parecem viver no século 19, de maneira rústica, bucólica, numa harmonia que só é quebrada pela constante ameça Daqueles Que Não se Pode Dizer o Nome, criaturas que moram na floresta ao redor do local, e que podem atacar a vila a qualquer momento. O povo vive ali como numa espécie de contrato social, para preservar muitos de seus valores e se proteger dos perigos das grandes cidades. Só que acontecimentos inusitados forçam uma nova postura diante dessas regras, ao passo que a ameaça dos monstros é cada vez maior.

Premissa interessantíssima, não? Só que alguns aspectos práticos sublimam a experiência, que, além de aterrorizante, poderiam render bons debates a respeito da questão do isolamento, da necessidade das leis e de como a repressão, por mais "bem intencionada" que seja acaba fazendo mais mal do que bem. Mas, Shyamalan pesa amão a cada sequência do filme, não deixando que essas questões fluam de maneira espontânea. Os diálogos, por exemplo, soam muito falsos, repletos de frases de efeito, como se os personagens estivessem declamando um poema, e não conversando na vida real. Em defesa do diretor, isso poderia até ser encarado como um artifício para mostrar o quanto os moradores da vila "representam" uma vida que, a bem da verdade, não têm. Só que nada aqui pressupõe uma espécie de redenção, do começo ao final do filme, o que nos leva a crer que os horríveis diálogos são frutos de falta de imaginação, mesmo.




Diante de uma história tão intrigante, que até lembra um pouco "O Show de Truman", seria preciso que nos importássemos com os personagens, algo que não acontece. Todos são extremamente frios, sem carisma, com exceção de Noah, que se torna moradores da vila mais cativantes aos nossos olhos (pra não dizer o único). Ivy, a protagonista da película, principalmente, no ato final, oscila entre a contemplação do lugar e o amor por Lucius, para se tornar, depois, uma "heroína", em cenas pra lá de inverossímeis e absurdas. E, o próprio Lucius não parece ter nenhum conflito, a não ser a fato de que enfrentaria a floresta e as criaturas em nome do seu amor por Ivy. Mesmo piegas, isso poderia até render algo empolgante dentro da narrativa em algum momento. Mas, não.

E, o que dizer das tão faladas criaturas? Quando aparecem, não assustam. Só isso. Sim, algumas coisas que fazem se mostram terríveis, como matar e tirar a pele de animais domésticos, mas, fora isso, não representam uma ameaça tão grande assim, e fica inócuo que um grupo inteiro de moradores, sendo tão éticos e puros em seus conceitos, não se juntarem para atacar os tais monstros. Tudo bem que aqui poderíamos pensar na questão da construção do medo e da paranoia na mente das pessoas, fazendo com que elas não raciocinem direito. Porém, isso só seria viável na trama caso as criaturas fossem realmente mais perturbadoras (o que não acontece em nenhum instante).A impressão que fica é que os moradores são muito ingênuos (pra não dizer outra coisa), e, por isso, o pânico se instala.




A direção de Shyamalan está entre as piores de sua carreira. Tem horas em que ele se mostra estiloso, com câmeras deslizantes pelo cenário para tentar fazer algo sinuoso. Em outras, inexplicavelmente, ele está de câmera na mão sem necessidade, pois a ação da cena não precisa disso. Ao menos a direção de arte, o cenário e o figurino bem feitos contribuem pra dar uma certa consistência à história. As interpretações, no geral, estão entre o piloto automático e a vergonha alheia. O melhor em cena é Adrien Brody, que faz de Naoh o personagem mais interessante do roteiro. Já, Joaquim Phoenix se esforça, mas, não consegue dar motivação ao seu Lucius. E, Bryce Dallas Howards, simplesmente, faz uma atuação constrangedora, interpretando uma pessoa cega que "olha" para os personagens quase que o tempo todo. Por fim, Sigourney Weaver e William Hurt apenas cumprem tabela aqui, não acrescentando muito.

Shyamalan, de certa forma, continua sua saga de não repetir o mesmo feito que no extraordinário "O Sexto Sentido". Todos os seus filmes posteriores a esse sempre se mostram faltando algo, o que compromete as ótimas premissas, e, pior: gera expectativas que nunca se comprem. "A Vila" é, nesse ponto, o seu filme mais deficiente. Não funciona nem como terror, nem como a crítica social decorrente desse terror. Interessante é que todos esses defeitos poderiam ter sido sanados com soluções simples, principalmente, com uma direção mais enxuta e com menos maneirismo, e com um roteiro melhor trabalhado. Ah, não esqueçamos: e, a grande revelação da história, implícita em seu marketing de "não conte o final deste filme a ninguém"? Na realidade, são duas grandes revelações, e até que são interessantes dentro da proposta da trama. Mas, acabam sendo gotas num oceano de mesmice. Uma pena, mesmo.


Nota: 4/10


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