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Dica de Filme

"A Tartaruga Vermelha" (2016)
Direção: Michaël Dudok de Wit


O que pode ser "dito" sem palavras, apenas com gestos, movimentos, olhares, atitudes? Muito, não é verdade? Só que em se tratando de cinema, os filmes estão cada vez mais verborrágicos, necessitando muito dos diálogos. Nada contra, e está aí a maioria dos filmes de Tarantino para comprovarem que, quando as falas são boas, elas ajudam demais o filmes, e se tornam tão marcantes quanto algumas atuações, por exemplo. Mas, na maioria das vezes, o que temos é um amontoado de palavras ditas ao vento, e que tornam certos filmes ainda mais chatos. Portanto, chega a ser louvável, e até corajoso, que tenham feita uma animação como "A Tartaruga Vermelha", um longa de oitenta minutos sem absolutamente um diálogo sequer.

Esta ousadia acaba sendo uma faca de dois gumes, pois, para nos prender na cadeira por quase uma hora e meia, usando apenas imagens, seria preciso que a narrativa fosse, no mínimo, ótima, despertando o nosso interesse para o que viria na próxima cena. E, aqui temos isso, de forma muito bem feita, mesmo que num ou noutro momento, algumas imagens soem contemplativas em excesso, porém, nada que atrapalhe a concepção geral. A trama? Em tese, mais simples,impossível: um homem naufraga num ilha deserta, e tenta sair dela a todo custo, sendo misteriosamente impedido por uma tartaruga gigante. Lembraram de "Náufrago", com Tom Hanks? Pois,é, vai por aí, apesar da história aqui ser mais poética e menos aventureira do que o filme de Robert Zemeckis.




Por não ter falas, o mérito da animação está na direção segura do veterano  Michaël Dudok de Wit, unida os efeitos gráficos muito bem cuidados, a cargo dos Estúdios Ghibli. As cenas naturais são belíssimas, e, nesse aspecto, lembra muito os filme de Myiazaki, no tocante ao respeito pela natureza. O visual, apesar de parecer simples em certos momentos, consegue ser crível, sem ser enfeitado ou carregado demais. As sensações dos personagens também são bem exploradas pelo visual, principalmente, com alguns efeitos práticos. Por exemplo: quando escurece, as cores, em sua maioria, "somem", dando lugar a tons de preto e cinza, correspondendo a uma sensação de tristeza ou de desesperança.

A poética implícita no roteiro não fica atrás, tratando os acontecimentos com o náufrago, ora de forma onírica, ora de forma mágica. E, mágica, diga-se, no melhor da palavra, fazendo com que o inusitado na vida do protagonista sirva como uma bonita metáfora da necessidade do respeito à natureza e da ciclo inevitável da vida. Temas que podem parecer meio cabeçudos, chatos e até difíceis, mas, que aqui são tratados com uma sutileza muito envolvente, fazendo a gente refletir, mas, sem deixar tudo denso e profundo demais. O conjunto de alegorias presentes no enredo causam mais impacto ainda por se tratar de uma animação, ainda hoje, estigmatizada como um produto exclusivamente para as crianças. 




"A Tartaruga Vermelha" acaba sendo não só um desenho bonito, mas, ousado em sua proposta, principalmente, num tempo em que as animações da Disney estão bem prestigiadas, e todas elas, quase sem exceção, são extremamente movimentadas e verborrágicas; o contrário do que assistimos aqui, que vai por um caminho mais calmo e sensorialmente cativante. No final, é também uma bela homenagem, talvez involuntária, aos primórdios do cinema, em que as histórias tinham que ser contadas só através das imagens, e, por isso, os seus realizadores tinham que se esforçar para passar a mensagem que a trama exigia. "A Tartaruga Vermelha" demonstra que ainda tem gente talosa nesse sentido, e que uma animação não precisa ser histriônica para ser boa; muito pelo contrário.


Nota: 8,5/10


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