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Dica de Filme

"As Noites Brancas do Carteiro"
2014
Direção: Andreï Konchalovsky


O ISOLAMENTO SOCIAL COMO BUSCA POR UM SENTIDO MAIOR NA VIDA

Alguns países possuem uma aura maio mística no imaginário popular. É o caso da Rússia. Para o bem e para o mal, após a implantação do Comunismo por lá, bem como a sua participação na Guerra Fria, quase sempre criaram uma polaridade do tipo "ame ou odeie". Nesse aspecto, é até interessante vislumbrar o cinema feito por lá, pois, a despeito dos noticiários tendenciosos, a sétima arte parece dizer mais de uma nação do que os folhetins jornalísticos. E, recentemente, vem surgindo uma ótima safra de filmes russos que provocam o nosso entendimento a cerca do país, ao mesmo tempo que critica com bastante ironia e sutileza o Estado Russo. Foi assim com o incrível "Leviatã". E, foi assim também com este "As Noites Brancas do Carteiro".




O filme começa despretensioso, quase documental, retratando o cotidiano de uma pequena vila isolada de tudo e de todos, onde os moradores vivem como seus antepassados, produzindo tudo o que precisam (principalmente, comida), e não possuindo avançadas tecnologias. A única ligação que ele têm com o cidade é através do carteiro, que vai de barco buscar todo tipo de correspondência para os moradores da vila, além de pegar encomendas de remédios e outras necessidades. E, é "somente" disso que o filme trata: do dia a dia dessas pessoas tão singulares e a sua vida, aparentemente, pacífica, sem problemas ou preocupações.

Este é o tipo de cinema que é preciso se apegar aos mínimos detalhes, pois, ele é bem simbólico e metafórico. Nota-se, por exemplo, a predominância da cor azul em vários momentos, desde as roupas que alguns moradores usam, passando por objetos triviais, ou que está presente até no barco que o carteiro usa para sair da vila. Pelo fato dessa cor significar paz, harmonia e tranquilidade, essa cor pode simboliza, muito bem, o estado de espírito daquelas pessoas, mas, como o azul está nos detalhes, e não na totalidade dos objetos, é como se aquela tranquilidade ali presente fosse apenas uma paz aparente, como se estivesse faltando algo para que a harmonia da vila fosse completa. Nisso, o diretor nos convida a espiarmos aquele cotidiano através de ângulos inusitados de câmera para entendermos qual o problema que, de fato, existe naquele lugar, e que impede que as pessoas sejam felizes.




Muito rapidamente, percebemos uma coisa: a vila é composta, predominantemente, por pessoas de meia idade a pessoas idosas. A exceção, é uma mulher jovem, que, junto  com seu filho pequeno, mora nessa vila a contragosto. O carteiro, por sinal, tem uma paixão reprimida por ela, ao mesmo tempo que tem pelo menino uma sincera amizade. No entanto, é através de um dos moradores da vila que entendemos a tônica do sentimento de quem mora ali: trata-se de um senhor que vive bêbado e que, aparentemente, não fala coisa com coisa. Mas, por se tratar de um filme lento, contemplativo, com poucas palavras, cada diálogo é muito importante para o entendimento da história. No caso desse senhor que vive bêbado, a explicação vem na fala de outro personagem: "Manter-se sóbrio é sentir muita dor."

Com o passar da narrativa, vamos entendendo que os moradores dali estão, quase todos, desesperançados com a civilização dita moderna, e, por isso, preferiram se isola, evitando qualquer contato externo. Nesse sentido, mesmo o carteiro sendo amigo de todos, e até confidente de alguns, ele não deixa de ser uma espécie de persona non grata no local; um elo inconveniente com aquilo que aquelas pessoas ali mais detestam. O próprio carteiro perece cansado de seu ofício, sempre naquela mesma rotina, acordando de manhã, vendo seus chinelos por um tempo antes de se levantar, tomar um chá, pegar o barco, ir pegar as correspondências, e voltar para entregá-las uma a uma, ao mesmo tempo que vai fortalecendo os laços com os moradores da vila. E, nesse cotidiano, vamos sendo habituados, vamos sendo inseridos, vamos sendo questionados. Uma sequência, em específico, mostra bem a desesperança dos habitantes dali, mostrando uma velha escola em ruínas, com o carteiro ouvindo as vozes das crianças que, um dia, estudaram naquele lugar. O abandono à civilização de fora se mostra, então, mais profundo do que imaginávamos.




Assim como "Leviatã", feito no mesmo ano, "As Noites Brancas do Carteiro" também faz uma bela crítica ao status quo da sociedade russa, só que de maneira mais introspectiva. Enquanto que no primeiro tínhamos claramente um Estado opressor, que, com sua burocracia e com sua corrupção, tiravam qualquer senso de liberdade do cidadão, neste aqui, o Estado se faz presente, na grande maioria do tempo, como uma mera lembrança que ficou no passado, e que trouxe dolorosas sequelas para quem tentou fugir dele se isolando na vila. Apenas tentou, é bom frisar, já que fica evidente de que a presença do Estado, como um fantasma que absorve qualquer possibilidade de felicidade, está sempre atormentando aqueles que deixaram de acreditar numa utopia que não faz mais sentido. Uma crítica, acima de tudo, corajosa feita pelo filme.

Como cinema, tudo aqui é tranquilamente bem feito, sem nenhum destaque aparente, seja das atuações, seja na direção, mas, todos muito bem engajados para passar a mensagem que a história se propõe da melhor forma possível. E, esse é o grande mérito de "As Noites Brancas do Carteiro": com uma trama simples, que, em alguns momentos, foge do convencional, conseguimos, através do microcosmo de uma vila que não tem mais do que vinte habitantes, refletir a respeito de assuntos profundos, que exigem um grau de atenção maior. Um cinema, decerto, fora dos padrões atuais, mas, que consegue resultados ótimos, com resoluções mínimas, porém, colocadas no momento certo. É cinema engajado, sim, mas, feito de maneira a ir além da mera reclamação básica, analisando, acima de tudo, o sentido do que é ser um cidadão num Estado que lhe massifica, e tira sua identidade. Uma bela provocação para os dias atuais.


Nota: 8,5/10


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