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Dica de Filme

"Flocken: O Rebanho"
2015
Direção: Beata Gårdeler


A CULPABILIZAÇÃO DA VÍTIMA NUM FILME DOLOROSAMENTE ATUAL

Seria ótimo que alguns filmes não precisassem ser feitos, que eles nem sequer fossem cogitados em serem realizados. Não estou falando da qualidade cinematográfica dessas obras, em si, mas, que, pela urgência com que seus temas dialogam com a realidade atual, seria muito bom que esse tipo de filme fosse só cinema de qualidade, e pronto, que ele não incomodasse (tanto) por falar de algo que está aí, na nossa frente, cotidianamente, para nos mostrar o quanto somos atrasados e bárbaros. Dito isto, "Flocken: O Rebanho" trata de estupro. Mas, não só: vemos como se constroi a culpabilização da vítima desse tipo de violência, e como a mulher ainda está distante de qualquer ambiente que lhe seja favorável, seja na Índia, seja na Suécia (país no qual se passa o filme).




O filme não demora muito para mostrar a que veio. No meio de uma festa de casamento onde todos parecem felizes e reluzentes, numa típica e banal convenção social, uma pessoa aparenta estar bastante incomodada: Jennifer. A garota, assim que pode, logo desaparece da vista de todos, e começa a beber desenfreadamente, até que cai bêbada num canto qualquer. Ninguém liga muito para o ocorrido. Corta para a cena seguinte, e, então, percebemos o porquê da comportamento dela: Jennifer relata às autoridades que foi violentada pelo seu colega de escola, Alex. Após o depoimento, a vida da jovem se transforma rapidamente num inferno. Desacreditada por todos, principalmente por aquelas que se diziam suas amigas, passa a ser hostilizada por toda a cidade, sendo xingada de vadia e aproveitadora a todo momento.

O roteiro é incômodo, e, ao mesmo tempo, exemplar ao expôr o constrangimento que Jennifer passa a todo momento. Quando ela vai prestar seu depoimento, o policial, de forma fria e dura instiga que ela relate detalhadamente o que aconteceu. Isso se repete algum tempo depois, quando ela precisa dizer tudo o que ocorreu novamente numa audiência sobre o caso. Ao mesmo tempo, Alex é tratado como uma vítima, um pobre rapaz que está sofrendo pela irresponsabilidade de uma vagabunda que só quer se aproveitar dele. A situação chega ao cúmulo da mãe dele fazer um blog em homenagem ao filho. Por sinal, um bom artifício explorado na trama é o uso das redes sociais para disseminar discursos de ódio. Em muitas cenas, aparentemente, que não têm nada a ver com a história, aparecem letreiros de conversas por mensagens de texto na Internet, com vários pseudônimos atacando Jennifer, fazendo apologia ao seu estupro, etc. Algo que mostra bem como são covardes esses tipos de pessoas, ao se esconderem por detrás de um computador.




Uma das críticas bastante presentes no filme, além da que está presente em seu foco, é o da hipocrisia religiosa. Todos aqueles que duvidam de Jennifer e acham Alex uma vítima, frequentam muito a igreja local, inclusive, com o próprio padre da paróquia discriminando a menina, não a querendo mais nos trabalhos da igreja por ser "má influência". É verdadeiramente repugnante a cena em que vários populares vão consolar a mãe de Alex, que está chorando nos ombos do padre, para, em seguida, falarem as piores atrocidades da garota na Internet. Esses fatos podem soar um pouco maniqueístas dentro da trama, mas, é bom lembrar que, recentemente, no Brasil, uma pesquisa mostrou que para mais de 30% da população, a vítima de estupro é culpada pelo o que aconteceu. A ficção imitando a realidade, e não o contrário.

No geral, o roteiro é bem conciso ao abordar um tema tão espinhoso, desde as partes mais "burocráticas" da questão, como o depoimento de Jennifer, e o julgamento de Alex, até a coisa que, à primeira vista, parecem surreais, mas, que são passíveis de acontecer, como alguns habitantes da cidade, bêbados, e trajando máscaras tenebrosas invadirem o terreno da casa de Jennifer para intimidar ela e toda a sua família. Mais uma vez, pensemos na realidade: os linchamentos (morais e físicos) são mera fantasia? Talvez, a única falha da história tenha sido ser explícita demais na penúltima sequência do filme, algo que poderia ter sido evitado com um artifício narrativo melhor. É compreensível, por outro lado, porque mostra, em linhas gerais, o efeito causa e consequência de quando se culpabiliza a vítima e se absorve o agressor. Mesmo com a mensagem final sendo de suma importância, a referida cena poderia ter sido melhor trabalhada, e isso é fato. 



Tanto a direção de Beata Gårdeler (mesma realizadora de "Em Suas Veias"), quanto as atuações, em especial, a de Fatime Azemi, que interpreta Jennifer, estão em ótima sintonia, sem exageros, deixando que a história siga seu rumo, sem atropelos. E, ao final, o que temos, sim,é um filme amargo, indigesto, mas, que dialoga bastante com a realidade de muitas garotas por aí, violentadas em sua intimidade, e que, ainda assim, são taxadas de vagabundas, sendo consideradas culpadas pela violência que sofrearam. O que é assustador, pois, o filme se passa na Suécia, necessariamente, uma nação avançada em termos de educação e de leis, mas, que, como bem mostra a produção, não está imune à total ignorância. Prova, portanto, que essa é uma questão que precisa ser debatida e enfrentada; diariamente.


Nota: 8,5/10


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