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Dica de Filme

"Bob Roberts"
1992
Direção: Tim Robbins


A ESTREIA DE TIM ROBBINS NA DIREÇÃO É UM ATORDOANTE RÉQUIEM DO MEDÍOCRE SONHO NORTE-AMERICANO

É muito comum se rebaixar a arte chamada de engajada, sob o pretexto de que seria algo pedante. "Panfletário" e "tendencioso", por exemplo, são alguns dos adjetivos pejorativos que sofrem os realizadores dessas obras. Porém, muitos se esquecem que a perenidade da arte está, na maior parte dos casos, em seu engajamento com o tempo no qual foi feita, provocando uma reflexão necessária mesmo muito tempo depois de sua realização. "Cidadão Kane", "A Montanha dos Sete Abutres", "Doze Homens e uma Sentença"; alguém ousa dizer que esses filmes tão engajados não sejam obras-primas da sétima arte, e justamente, pelo fato de que, ainda hoje, são relevantes para entendermos um poco da realidade atual? Portanto, esse estigma contra algo mais crítico, mais provocativo, é infundado, já que a análise também precisa ser feita tendo como base se algo foi ou não bem realizado dentro da sua proposta. E, se ainda trouxer consigo uma mensagem de impacto social necessária, muito melhor. Nisso, chegamos a um filme que, além de ser bastante engajado, também, é excelente como cinema: "Bob Roberts".




O filme, na verdade, é um falso documentário (muitas vezes, com filmagens no estilo "câmera na mão"), que retrata a ascensão meteórica de Bob Roberts, um cantor folk ultraconservador, que se candidata ao Senado, e que vai ganhando cada vez mais popularidade entre o povo. Obviamente, que tudo não passa de uma grande "desculpa" do roteiro para tecer uma crítica ácida ao american way life em todos os seus níveis. E, que crítica! Bom ressalta que ninguém melhor para encarnar o protagonista do que o próprio diretor Tim Robbins, que faz, aqui, uma impressionante estreia por detrás das câmeras, além, de como o ator principal, mostrar uma já costumeira competência acima da média. O ritmo frenético da narrativa é proposital, tanto para dar a impressão de um documentário sendo filmado no "ato dos acontecimentos", quanto para inquietar o espectador, que presencia as coisas mais absurdas que Bob Roberts é capaz de fazer para se eleger. Seria cômico, se não fosse trágico o impressionante eco que esse filme tem com a realidade que estamos vivendo hoje.

O roteiro é primoroso ao pegar todos aqueles pequenos costumes do norte-americano médio, o representá-los na figura do protagonista, da forma mais odiosa possível. As letras das músicas de Bob Roberts, por exemplo, são a quintessência do preconceito em uma sociedade imensamente conservadora e retrógrada. E, é especialmente irônico e assustador como músicas assim fazem sucesso, transformando o personagem num ícone de sua geração, onde adultos veem nele uma pessoa que finalmente dá vasão às suas mais estapafúrdias ideias, e jovens vendo nele um exemplo a ser seguido. Poucos têm coragem de confrontá-lo, e os que fazem, são silenciados de alguma maneira. Roberts, além do carisma de um político extremamente populista, sabe como mexer com os brios e sentimentos da população, e isso é essencial para a sua campanha. Mais uma vez, vale lembrar: qualquer semelhança com a realidade NÃO é mera coincidência.




Roberts é um candidato que sabe como "ganhar" a plateia (no caso, eleitores). Para se ter uma ideia, ele financia uma clínica de reabilitação de drogas, e, como todo bom conservador de plantão, faz maciça campanha anti-drogas, muito bem representada nas letras de suas músicas, que fazem, até mesmo, apologia à violência contra os "maconheiros". Nascido para a política, ele sabe reverter as dificuldades em benefício próprio, mesmo quando, só para citar um exemplo, o coordenador da sua campanha está envolvido (acreditem, se quiserem!) em tráfico de drogas, sendo a tal clínica de reabilitação uma grande fachada para a realização dessas atividades ilegais. O roteiro é otimamente expositivo ao tratar disso, o que é perfeito para a abordagem em questão, pois, a intenção é não ser nem um pouco sutil, e sim, expôr, de maneira bem cínica, a hipocrisia que rege o discurso de Bob Roberts e de seus fieis seguidores. 

À medida que a história avança, vamos nos sentindo cada vez mais incomodados com os acontecimentos, principalmente, porque denotam uma realidade sórdida, onde o poder está sempre nas mãos de facínoras, e quem os elege é sempre uma massa de manobra sem o mínimo critério de consciência. É óbvio que um dos combustíveis para Roberts ganhar status de celebridade numa sociedade assim é o discurso de ódio, seja contra imigrantes, mendigos, ou, simplesmente, contra "maconheiros esquerdistas". Chega ao ponto do protagonista usar uma "tragédia pessoal" em benefício de sua campanha, fazendo um videoclipe extremamente irônico, com ares pra lá de ufanistas, e que rende um dos melhores e mais provocativos momentos do filme. Por sinal, há outro momento impagável no longa, que é quando o personagem faz um videoclipe totalmente inspirado em "Subterranean Homesick Blues", de Bob Dylan, só que com mensagens totalmente contrárias, evidentemente.




O elenco principal tem nomes de peso, e merece muitos elogios. Além do próprio Robbins interpretando magistralmente o personagem principal da história, temos o saudoso Alan Rickman fazendo o papel de Lukas Hart III, coordenador direto da campanha de Roberts, e até mesmo o escritor Gore Vidal, numa competente atuação como o candidato opositor ao protagonista. Temos, inclusive, participações especiais bem interessantes, como as de John Cusack no papel de um comediante de TV que se recusa a participar de um programa com a presença de Bob Roberts, Susan Sarandon (na época, esposa de Robbins), na pele de uma âncora de telejornal, e Jack Black, fazendo um jovem bobo e completamente alienado, que endeusa o protagonista como o verdadeiro messias. Cabe destacar que, além da direção forte, e da atuação primorosa, Tim Robbins acumula também as funções de roteirista (num texto genial, diga-se) e de compositor, ao lado do irmão David Robbins, das ácidas músicas que o personagem canta ao longo do filme.

"Bob Roberts" é bem mais de que uma comédia satírica. É um documento precioso que expõe de maneira bastante incômoda como o populismo e a intolerância podem agradar a massa da população, chegando facilmente ao poder, e não se importando com os meios usados para isso. Não poupando críticas à imprensa, que só noticia e dá destaque aquilo que lhe interessa, à classe política, cada vez mais atolada num conservadorismo tacanho, e ao próprio povo, facilmente manipulado por discursos simplórios, o filme termina com uma sensação amarga de que o poder já está predestinado nas mãos de alguns, e que estes estão preocupados apenas e tão somente, com os seus inteeresses. É bom lembrar que, à poca do longa, o governo de George Bush pai vivia seu "auge" nos EUA, com a Guerra do Golfo sendo destaque quase que diariamente. Ou seja, com a produção de inimigos bem delineados, qualquer aventureiro mais esperto chega tranquilamente no meio político. A vida imitando a arte?


Nota: 9,5/10


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