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Dica de Filme

"Quero Ser John Malkovich"
1999
Direção: Spike Jonze


FÁBULA EXTRAVAGANTE ANALISA A CRISE DE IDENTIDADE DO CIDADÃO MODERNO, AO MESMO TEMPO QUE FAZ UMA CRÍTICA ÁCIDA AO MUNDO DAS CELEBRIDADES

Há diversas maneiras de se abordar um mesmo assunto (ou, até mesmo, diversos assuntos) utilizando o cinema. Por exemplo: para se falar a respeito da guerra, há quem prefira o patriotismo puro e simples, sem questionamentos ("Pearl Harbor"), há quem aproveite o tema para fazer uma crítica mordaz ("Três Reis") e existem aqueles que partem para um caminho mais pesado, mais denso ("Vá e Veja"). Portanto, um tema pode assumir muitas formas a depender da vontade de seu realizador. Agora, peguemos um roteirista peculiar como Charlie Kaufman, a mente por trás das histórias de filmes como "O Show de Truman" e "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças". Obviamente, que teremos algo fora da curva, que vai de encontro ao óbvio, e que, mesmo que não tão aprofundado, às vezes, é o tipo de realizador que nos oferece boas reflexões sobre essa sociedade moderna. E, é essa reflexão, muito pertinente para os dias atuais, que iremos encontrar em "Quero Ser John Malkovich", alucinante estreia de Spike Jonze na direção.




A questão aqui é pegar o ordinário, o banal, o cotidiano, e pintá-lo com cores exóticas para extravasar o vazio existencial do cidadão suburbano, aquele que tem sonhos, mas, que são destruídos pela perspectiva de uma realidade duramente corporativa. Muito engenhoso, portanto, compor um personagem como Craig Schwartz, um sujeito tímido, patético aos olhos dos outros, um verdadeiro zé ninguém, cuja arte de ser titereiro (manipulador de marionetes) está cada vez mais inviável. Craig vive com sua esposa, Lotte , num verdadeiro muquifo, uma casa suja e degradante, onde, para suprir suas carências afetivas, criam animais de todo tipo, como um chimpanzé e uma iguana. Pensando numa perspectiva de vida melhor, Craig vai a uma entrevista de emprego na função de arquivista, num prédio um tanto, digamos, "inusitado". Afinal, o andar onde ele vai para essa entrevista fica no 7 1/2, ou seja, entre o 7° e o 8º andares. O teto baixo do lugar contribui bastante para a metáfora de opressão no trabalho que a história pretende passar. Algo estranho aos nossos olhos, mas, logo nos acostumamos com algo tão bizarro para sermos apresentados a lago mais bizarro ainda depois.

Bom salientar que Craig se apaixona por sua companheira de trabalho, Maxine Lund, uma mulher bastante inescrupulosa, e até cruel, que não tem o mínimo pudor em desprezar o seu admirador como se ele não fosse absolutamente nada. É quando Craig descobre algo que pode mudar sua vida por completo: um portal, localizado por trás dos arquivos de onde trabalha, que dá direto na mente do ator John  Malkovick (isso mesmo!). Como se já não bastasse o nível de excentricidade, após 15 minutos confinada na cabeça do ator, a pessoa é simplesmente "expelida", caindo numa estrada qualquer de New Jersey (!!!). Somem-se isso ao fato de que Lotte e Maxine descobrem esse portal, aceitando o fato como se fosse a coisa mais natural do mundo, com ambas vislumbrando muito bem a possibilidade se aproveitarem disso; Lotte, que, segundo ela, está se descobrindo transsexual, e percebe que gostaria de "viver como um homem" e Maxine, que aproveita a oportunidade para lucrar com essa descoberta fascinante, transformando o portal numa espécie de ponto turístico do prédio. Pois, é... A história segue esse tom, e vai além, acreditem...




O bom é que, em nenhum momento questionamos a verossimilhança do enredo, dada a sua força narrativa em passar uma tremenda mensagem metafórica sobre a perda da nossa identidade e o culto exagerado que fazemos das celebridades, a tal ponto de querermos "ser como eles são" (ou, no caso do filme, literalmente, SERMOS ELAS). O fato de Craig ser titereiro não é à toa. A partir do momento em que ele percebe que pode controlar o corpo e a mente de John  Malkovich, ele faz do ator o seu "boneco particular", e começa a viver a vida que sempre quis. Ao passo que sua esposa Lotte também começa a devanear quanto a possibilidade de viver como outra pessoa. Nutrindo uma grande paixão por Maxine, usa o portal para, na mente de Malkovich, sentir o que ele sente enquanto faz sexo com ela, numa absorvição total de sentimentos. É a perfeita metáfora do vazio existencial, que precisa ser preenchido mediante a perda da personalidade, entregando-se por inteiro à possibilidade de ser quem, na verdade, não é. É uma percepção um tanto difícil de entender de início, mas, fascinante em muitos pontos quando se captam as nuances da história.

A história também abre um bom espaço para falar do culto exacerbado às celebridades, aquelas pessoas que ditam a moda, e impõem, involuntariamente ou não, as regras que uma sociedade vai seguir. Não há ninguém no filme, com exceção de Maxine, que não queira ser John Malkovich, o grande ator, a grande celebridade, o grande mentor daquilo que eu penso que deveria ser, mas, não sou. Num mundo repleto de reality shows e de pseudocelebridades que possuem os seus 15 minutos de fama (analogia certeira com o tempo em que se fica na mente do ator), esse o tipo de história que tende a suscitar várias reflexões e análises, principalmente com o advento das redes sociais, aonde todos, em seu microcosmo, parecem ser celebridades, quando, na realidade, estão apenas com suas vidas mais expostas do que antes. Verdade que esse também não deixa de ser um enredo um pouco cruel com os seus personagens, e com a visão da sociedade atual, como um todo, classificando as pessoas em duas categorias bem distintas: aquelas que, de tão vazias, precisam perder a própria personalidade para se sentirem felizes, e aquelas que têm bastante consciência desse vazio, e se aproveitam para adquirirem alguma espécie de vantagem. Pessimista, sim, mas, importantemente provocativo.




No campo das atuações, todos aqui estão ótimos. John Cusack, com a sua persona ora depressiva, ora histérica, combina à perfeição com alguém angustiado com a sua condição, tornando Craig um personagem muito bem elaborado. Há a queridinha de Hollywood, na época, Cameron Diaz, mostrando uma atuação sólida como Lotte. Temos uma Catherine Keener fazendo de Maxine uma personagem fortemente imoral e sem escrúpulos, porém, ao mesmo tempo, muito humana. E, por fim John Malkovich interpretando a ele próprio, e que, claramente, divertiu-se bastante com a inusitada experiência. Aqui, temos a estreia de Spike Jonze no cinema, e, apesar de ser o seu primeiro filme, ele não compromete em momento algum. Sua câmera é ágil quando tem que ser, e sutil quando se faz necessário. E, obviamente, o grande destaque de tudo, no final das contas, que é o roteirista Charlie Kaufman, que conseguiu construir uma bela fábula sobre a solidão, usando, para isso, um enredo completamente alucinado e diferente do que, habitualmente, vemos por aí.

"Quero ser John Malkovich" é, sem dúvida, um filme inusitado. Mas, não tão estranho assim, visto que, em 1999, ano de seu lançamento, outros filmes provocativos foram feitos em Hollywood, como "Clube da Luta", "Beleza Americana" e "Magnólia". Foi realmente um ano perfeito para o cinema norte-americano, o que faz pensar se hoje em dia tais filmes seriam viáveis. Muito provavelmente não, visto que o cinema por lá está cada vez mais careta, igual e pasteurizado. Então, o negócio é revisitar excelentes momentos, como o deste filme aqui, que, passados 18 anos de sua realização, ainda tem muito a nos dizer sobre nós, sobre o que queremos ser e sobre o que nos obrigam a ser. E, ainda se comporta como uma ótima crítica a um mundo fútil, que prega a beleza e a juventude a qualquer custo, mesmo que isso signifique perder sua personalidade. E, você? Quem quer ser num mundo assim?


Nota: 9/10


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