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Dica de Filme

"Paterson"
2016
Direção: Jim Jarmusch


ATRAVÉS DE UM FILME COM MUITAS SUTILEZAS, JARMUSCH DISSERTA, DE MANEIRA BEM INTIMISTA, A RESPEITO DA ARTIFICIALIDADE DAS RELAÇÕES

Pequenas coisas. Ditas e não ditas. Que estão nas entrelinhas. Nas frestas das paredes, num olhar, numa única palavra. Gestos que se desenrolam ao longo do nosso cotidiano. Involuntários, que, às vezes, carregam uma grande falta de honestidade. Mas, não por maldade, é bom dizer, mas, pela "necessidade" implícita que temos em agradar, em parecermos "legais", e, fingirmos que está "tudo bem". E, são essas sutilezas que, de uma maneira geral, compõem o universo minimalista e solitário de "Paterson", um dos melhores filmes de Jarmusch fez nos últimos tempos. Um trabalho que, diga-se de passagem, é preciso assistir com calma, para que não se percam os mínimos detalhes que completam de maneira sublime uma típica história amor, porém, com ares melancólicos, mas, cujos envolvidos não percebem (ou não querem perceber) que pertencem a um relacionamento melancólico.




O filme se concentra na história de um casal, Paterson (que ironicamente, também é o nome da cidade em que vivem) e Laura. Ele trabalha como motorista de ônibus. Ela faz artesanato. Ele, eventualmente, escreve poesias. Ela quer fazer cupcakes para vender. Ele gosta de ir todos os dias, após o expediente de trabalho, a um bar que já frequenta há um bom tempo. E, ela quer se tornar cantora country. Essas são, digamos, as informações preliminares que vamos tendo de ambos ao longo da narrativa. Mas, são justamente nos detalhes encontrados entre essas informações, que vamos conhecendo melhor os dois. São pequenas percepções que vão montando um cenário em que, é verdade, ambos se respeitam, e ambos querem ver o outro feliz, mas, que, ao mesmo tempo, nenhum tece uma crítica sequer ao outro, não provocando nenhum conflito, o que, invariavelmente, deixa tudo numa estranha e artificial "paz".

Paterson, por exemplo, é metódico, acordando todo dia praticamente no mesmo horário, pegando sempre o mesmo caminho para o trabalho, escrevendo uma parte de seus poemas antes de começar o serviço, voltando para a casa, levando o cachorro para passear e chegando no mesmo bar que frequenta todas as noites. Isso, todos os dias na semana. No entanto, é no meio dessas ações que coisas fora dos "padrões cotidianos" vão acontecendo, como se Paterson fosse confrontado diariamente de que a vida é bem mais do que aquilo. Ele passa, por exemplo, a enxergar diversos irmãos gêmeos espalhados por aí, logo depois de sua companheira ter dito que sonhou que ambos tinham filhos gêmeos. Ao mesmo tempo, são particularmente interessantes as conversas que Paterson escuta dos passageiros. Dentre essas conversas, destacam-se a de dois meninos falando sobre o boxeador "Hurricane" Carter, e a de dois homens dialogando a respeito do flerte que tiveram com algumas mulheres, mas, que não conseguiram ir além disso. São aflas, aparentemente banais, mas, que, de alguma forma, servem como um ponto fora da curva para Paterson, conseguindo vislumbrar histórias que vão além da sua.




Laura também tem um desenvolvimento interessante na história, mesmo que não com tanta força quanto Paterson. No entanto, são algumas de suas atitudes que denotam bem a relação do casal. Não à toa, por exemplo, em seus artesanatos, ela tem uma grande obsessão pelo preto e branco. Metaforicamente, podemos dizer que esse preto e branco, que ela faz questão de espalhar por toda a casa, é uma demonstração de que o relacionamento deles é sem vida, "sem cores", apático, artificial, "monocromático". Ela também compartilha algo em comum com ele: nunca o critica, em hipótese alguma. Mesmo que as poesias de Paterson sejam bem mais ou menos, Laura faz questão de dizer que são os melhores textos do mundo. Ao passo que, mesmo ela não sendo uma exímia cozinheira, ele nunca diz que uma comida dela está ruim. Isso tudo apenas para um agradar o outro, faltando algo bem essencial: sinceridade, atrelada à cumplicidade (o que eles, notadamente, não têm).

A galeria de personagens exóticos na trama incluem ainda um casal que vivem brigando, mas, que nunca se separam efetivamente. Ambos sempre se encontram no bar aonde Paterson vai, cujo proprietário é Doc, outro ótimo personagem, que coleciona recortes de jornal que possuem a palavra "Paterson" em alguma notícia. Até mesmo uma garota de 10 anos ganha espaço na história, mesmo que por poucos minutos, quando se encontra eventualmente com o protagonista do filme, e lhe fala uma de suas poesias (por sinal, bem melhor que as dele). E, claro, há o companheiro de trabalho de Paterson, que sempre responde à pergunta "tudo bem?" com uma série de queixas, como se esse personagem fosse um atestado de como as pessoas deveriam agira caso sejam confrontadas com essa pergunta. São esses personagens "triviais", que, mesmo que por instante, mostram a Paterson o quanto sua vida pode estar sendo vazia, justamente, por ele não se arriscar a fazer "algo" diferente ou por não ser mais honesto consigo. 





Na verdade, se é para citar uma característica inerente a "Paterson", essa seria o seu senso de humanidade. O roteiro (do próprio Jarmusch) sabe explorar muito bem pequenas nuances, que mostram o ser humano em essência, com suas carências, fragilidades e desejos reprimidos. Mas, tudo de maneira tênue, sutil, sem pesar a mão. Até mesmo o cachorro de Paterson e Laura ganha ares "humanos", tendo comportamentos típicos de todos nós, como ciúmes e até um certo cinismo. E, toda essa "excentricidade leve" é conduzida com muita categoria por Jim Jarmusch, que, aqui, faz um trabalho melhor do que em seu filme anterior, "Amores Eternos". Aqui, sua direção funciona como se ele deixasse a história fluir para que nos preocupemos, unicamente, com os personagens, sem a vaidade de muitos diretores que fazem questão de mostrar que "estão ali". E, tudo ajudado pelas atuações simples, mas, convincentes, de Adam Driver e Golshifteh Farahani, que, se não são espetaculares, ao menos, são tão espontâneos, que realmente acreditamos que essas pessoas existem. 

Há quem possa, talvez por uma visão superficial das coisas, achar "Paterson" um longa um tanto ingênuo, um filme demasiadamente romântico, "delicado", simplório, sobre a vida "perfeita" de um casal jovem. Não é. Por baixo de todo aquele verniz, digamos, fútil, há inúmeras necessidades a serem preenchidas, mas, falta coragem para os personagens encaram uma vida mais "pé no chão", vivendo relacionamentos mais verdadeiros. A perfeição está só na aparência, faltando, muitas vezes, algo até simples, como um diálogo mais aberto, uma atitude mais tresloucada ou, quem sabe, uma poesia sem tantos floreios, e que vá direto ao ponto. Trata-se, portanto, de um filme bastante sutil, singelo, é verdade, mas, também um triste, e muito reflexivo, que mostra o quanto a artificialidade das nossas relações podem fazer mal a nós e aos que nos cercam.


Nota: 8,5/10


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