Pular para o conteúdo principal
Dica de Filme

"Pequeno Segredo"
2016
Direção: David Schurmann


DRAMA SENSÍVEL PECA EM ALGUNS PONTOS EXAGERADAMENTE PIEGAS, MAS, NO GERAL, CONVENCE ATRAVÉS DE UMA HISTÓRIA GENUINAMENTE COMOVENTE

Sei perfeitamente que o ideal seria começar esse texto me atendo somente ao filme que estou analisando, e pronto. Mas, como tudo hoje em dia está atrelado rigorosamente a um viés político, partidário e ideológico, então cabe expôr o quão ridícula e sem fundamento foi a receptividade ao longa "Pequeno Segredo". Após o bem-vindo (sejamos honestos) protesto em Cannes da equipe do elogiado filme "Aquarius", infelizmente, os adoradores de cinema Brasil afora confundiram demais as coisas, transformando numa verdadeira obrigação endeusar a produção de Kléber Mendonça Filho, e odiar tudo o que se opusesse a ela. É claro que "Pequeno Segredo", ao desbancar "Aquarius" da corrida do Oscar deste ano, virou persona non grata entre os cinéfilos mais progressistas de plantão, cuja característica principal foi não terem, sequer, assistido ao filme de David Schurmann. "Não vi, e não gostei". O que tivemos, com isso, foi um tremendo exagero, colocando "Pequeno Segredo" como uma produção que representa os "coxinhas" e o impeachment contra Dilma Roussef ocorrido ano passado. Analisar o filme como cinema, poucos fizeram. Dica: mais maturidade de uma próxima vez.




Feitas as devidas colocações, verdade seja dita: "Pequeno Segredo" está longe de ser excepcional, mas, também não compromete. Baseado numa história real, o filme tem como foco Katherine, uma menina de 12 anos, cujos pais são o famoso casal de velejadores Schurmann. Estes, escondem um importante segredo dela, e que está diretamente relacionado com o seu passado. A produção, então, vai, em paralelo, contando duas histórias distintas, mas que irão se mostrar correlacionadas: uma, atual, na qual a menina vive os típicos dilemas de uma pré-adolescente, e outra, anos atrás, quando ela ainda não era nascida. Nesse aspecto, o roteiro é muito bem construído, indo e voltando no tempo nos momentos certos, para irmos, aos poucos, encaixando as peças centrais da história, e entendendo, afinal, o que é esse segredo que os pais de Katharine escondem.

Infelizmente, a despeito da boa história, o filme começa muito mal. Num filme desse tipo, não existe motivo para forçar o espectador a se emocionar a todo custo, pois, se a história não for contada de maneira natural e sóbria, o envolvimento de quem assiste será, invariavelmente, nulo. No entanto, certos recursos extremamente piegas ainda continuam irritantemente sendo usados por aí, e "Pequeno Segredo", pelo menos, na sua primeira parte, não foge à essa regra. É muita trilha intrusiva, narrações em off desnecessárias e câmeras contemplativas sem o mínimo nexo. Porém, é bom frisar, à medida que o filme avança, ele abandona um pouco esses recursos (mas, não por completo, diga-se), o que deixa o enredo mais cativante e menos apelativo. É verdade que a história que envolve o passado de Katherine, é bem melhor filmada do que os "dias atuais" de sua vida, mas, pelo menos, da segunda parte em diante, ambas as narrativas se encaixam de forma mais orgânica, prendendo mais o nosso interesse a respeito do que vai acontecer.




Além do excesso de pieguismo no início, um ponto que conta de maneira negativa é como o cotidiano de Katherine é tratado, principalmente, na escola. Nesse aspecto, o filme usa e abusa de alguns clichês bem batidos, como o fato dela ter um diário e de ter um amor não correspondido por um de seus colegas na escola. Não que isso não faça parte do dia a dia de muitas garotas nessa idade, mas, do jeito que foi feito, soou bastante forçado. Somente com o desenrolar de "Pequeno Segredo" que esse aspecto vai melhorando, e finalmente podemos ver Katherine lidando com seus problemas de uma maneira maias espontânea. No entanto, os melhores momentos do longa são mesmo os que fazem parte da outra história que compõe o enredo, mostrando, de maneira muito crível, conflitos familiares muito reais, sem aquele maniqueísmo forçado dos melodramas mais típicos. São instantes bem interessantes, em que, mesmo tendo alguns eventos bem trágicos, os realizadores não pesaram a mão, fazendo tudo parecer verossímil.

Quando a produção adentra na sua derradeira parte, e, finalmente, o segredo do título é revelado, o que poderia ser um show de sentimentalismo barato (aquele mesmo que acometeu o filme em seu início), acaba dando lugar a uma história triste e naturalmente emocionante, sem tantos vícios narrativos. Fica aquela sensação de que, caso a produção tivesse adotado essa postura logo no começo, o drama que é retratado aqui teria muito mais força. Obviamente que o que contribuiu muito pra isso foi o fato do diretor do longa ser David Schurmann, alguém diretamente ligado à história real que o filme retrata, o que até justifica a maneira demasiadamente romantizada que algumas situações são mostradas. Talvez tivesse sido melhor que a direção fosse dividida com outro cineasta, dadndo, assim, mais equilíbrio à trama. Apesar disso, é bom dizer que a condução narrativa de David Schurmann é bem correta, não deixando, na maioria das vezes, que o ritmo do filme fique monótono. Nesse aspecto, ponto pra ele.




No quesito atuações, não há nenhuma que seja verdadeiramente formidável, é verdade, mas, todas estão num bom nível. Quem se destaca um pouco mais é Júlia Lemmertz e Fionnula Flanagan, conseguindo ir um pouco além do que o roteiro pedia. E, por fim, o bom roteiro, aliado à (em geral) boa direção completam o filme de forma coesa. "Pequeno Segredo" não é, nem de longe, um drama inesquecivelmente arrebatador, apesar de possuir uma história bem peculiar, e de mostrar uma genuína emoção em seus momentos de maior clímax. Poderia ter sido conduzido de uma maneira menos óbvia, evitando tantos clichês. No entanto, a história na qual o roteiro foi baseado é tão boa que compensa, de certa maneira, esses deslizes, fazendo do filme uma experiência válida, mesmo que não tão marcante quanto poderia ter sido. 


Nota: 7/10


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dica de Filme

"As Fitas de Poughkeepsie" (2007)
Direção: John Erick Dowdle.


A maldade humana já gerou filmes verdadeiramente perturbadores, mas, que, muitas vezes, são feitos de forma apelativa, sempre expondo mais violência, como numa forma de fetiche, do que propondo alguma forma de reflexão. Exemplos desse desserviço cinematográfico são muitos, e não vou citá-los aqui, porque só servem mesmo para alimentar mentes doentias. Porém, existem aqueles filmes que conseguem fugir dessa regra, e conseguem propor algo válido, ao mesmo tempo que assustam bastante. É o caso deste "As Fitas de Poughkeepsie".
Primeiramente, é bom que se diga que ele se trata de um falso documentário, usando a (hoje batida) técnica de found-footage, que consiste em apresentar filmagens de maneira amadora, aumentado o tom realístico da obra. O resultado, pelo visto, deu certo. Quando "As Fitas de Poughkeepsie" foi exibido pela primeira vez no conceituado Festival de Trapeze, em Nova Ior…
Lista Especial Final de Ano

20 MELHORES DISCOS DE 2017


Este ano, em termos de música, foi um pouco melhor do que 2016, indiscutivelmente. Novos artistas mostraram trabalhos maravilhosos (Triinca, Royal Blood, Rincon Sapiência, Kiko Dinucci), ao mesmo tempo que alguns da velha guarda voltaram com tudo, em discos que parecem de início de carreira (Accept, Living Colour). 
Além disso, tevemos obras das mais variadas teméticas, desde a banda instrumental Macaco Bong fazendo uma reeleitura pra lá de insana do clássico "Nevermind", do Nirvana, até artistas como Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis, que, com "Sambas do Absurdo", emularam à perfeição a obra do filósofo Albert Camus. 
O resultado desta excelente miscelânea sonora está aqui, numa lista com os 20 melhores discos lançados neste ano que passou, cada um com cheiro e gostos diferentes, mas, que, de forma alguma, são indigestos.
Bon appétit. 🍴

20º
"In Spades"
The Afghan Whigs


19º
"The Rise of Chaos…
Dica de Disco

"Shade"
2017
Artista: Living Colour


BANDA CLÁSSICA DOS ANOS 80 CONTINUA NA ATIVA, E ACABA DE LANÇAR UM DISCAÇO DE ROCK QUE VALE A PENA SER OUVIDO ATÉ O ÚLTIMO SEGUNDO
O Living Colour foi um dos melhores grupos de rock surgidos nos anos 80, e que continuaram a ter relativo sucesso no início da década de 90. Entre idas e vindas, a banda já não lançava material inédito desde 2009, com o bom "The Chair in the Doorway". Eis que, em 2017, surge "Shade", 6º álbum de estúdio deles, e que comprova que o som do Living Colour não se tornou nem um pouco datado, visto que aqui vamos encontrar todos os elementos que tornaram a banda mundialmente conhecida, e que, ao mesmo tempo, ainda soa moderno e contagiante.



"Primos" de som do Red Hot Chilli Peppers e do Faith no More, o Living Colour, ao contrário destes, continua, ainda nos dias de hoje, com uma regularidade muito bacana em sua música, mesmo depois de mais de 30 anos de carreira. Isso se deve a…