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Filme Mais ou Menos Recomendável

"Personal Shopper"
2016
Direção: Oliver Assayas


APESAR DA BOA MENSAGEM SOBRE O TEMA DO LUTO E DA ATUAÇÃO COMPETENTE DE KRISTEN STEWART, "PERSONAL SHOPPER" É UM FILME QUE DESPERDIÇA POTENCIAIS

Às vezes, as pretensões para se falar de algo num filme superam a realização. A premissa é até boa, mas, falta algo, como uma condução mais sóbria, ou um pouco menos de frieza na abordagem. Tratar do luto, por exemplo, não é tarefa fácil, já que é o tipo de sentimento que acomete a todos, sem distinção, e pode levar a uma profunda e irremediável depressão. O novo filme de Oliver Assayas parte dessa premissa para tentar analisar os efeitos do luto na vida de alguém, e como ele pode impedir essa pessoa de viver em paz, de continuar uma vida normal. No entanto, o tratamento um tanto esquemático da narrativa, deixando o longa sem alma (trocadilho involuntário, por favor), atrapalham, e muito, uma percepção mais reflexiva sobre o tema, algo que se aproximasse um pouco mais da realidade do que, de fato, acontece.




O grande problema de "Personal Shopper" é que ele padece daquela velha síndrome de "Chapolim Colorado" dos típicos dramas cults: todos os seus movimentos são friamente calculados. A cada 24 quadros por segundo, dá pra perceber a mão do diretor posicionando a sua câmera, e conduzindo a movimentação, e isso não é bom. Tanta preocupação acaba tirando a espontaneidade que a interessante trama possui, fazendo com que pouco sintamos empatia pela protagonista, o que é um tremendo erro, visto que ela domina 95% do tempo no filme. Com tanta exposição, seria necessário que a personagem principal fosse muito bem desenvolvida, o que não acontece aqui. Até entendemos suas motivações, e vez ou outra, nos sentimos compadecidos pelo seu sofrimento, mas, isso ocorre em raros momentos, já que, na maior parte do tempo, o diretor está mais preocupado em filmar sequências memoráveis. Mas, o que consegue são apenas algumas boas cenas no meio de uma completa monotonia.

Apesar dos defeitos, o filme encontra a seu tom lá no início do seu segundo ato, quando estranhos acontecimentos vão colocando Maureen, a personal shopper do título, em desespero. O problema, mais uma vez, é a frieza com que tudo é tratado, pois, o desespero da protagonista, nesse momento, é um desespero contido, que não condiz com a postura de alguém que está recebendo mensagens ameaçadoras por celular, mesmo que a explicação seja o fato dela ter uma percepção diferente da realidade por seu médium. Por falar nisso, até a questão do espiritismo é mal explorada no roteiro com Maureen buscando tutoriais sobre isso na Internet. Nada mais didático, portanto. Pelo menos, nesse segundo ato, quando o filme adquire ares de thriller, ele melhora bastante, porém, quando os acontecimentos daqui se concluem para darem início ao terceiro ato, o longa volta a esfriar, voltando à velha tática esquemática de provocar sentimentos no espectador de forma quase que matemática, e pouco orgânica.




Existe até uma tentativa de desenvolver algumas nuances da personalidade da protagonista, quando ela, por exemplo, veste as roupas de sua cliente, como se ela precisa fugir de sua realidade, mesmo que por alguns minutos, "travestindo-se" de outra pessoa. Ainda assim, é muito pouco para aprofundar de forma satisfatória a psique de Maureen. Podemos até fazer um paralelo com outro filme recente, que também abordou a questão do luto de maneira fria e calculista: "Manchester à Beira-Mar". A diferença é que, aqui, o personagem de Casey Affleck passou por um trauma ainda maior do que Maureen. Porém, em ambos os casos, a dor dos protagonista é tão forjada que a empatia por eles vai muito da boa vontade de quem assiste a esses filmes, já que o potencial desse tema é bastante desperdiçado neles.

Quando chegamos nos minutos finais de "Personal Shopper", verdade seja dita, o filme consegue sintetizar toda a mensagem que quis passar numa sequência muito interessante. O xis da questão é que isso ocorre somente na prorrogação do segundo tempo, e até chegar nesse instante, tivemos que passar por uma produção de muitos altos e baixos. Com relação às atuações, não há como negar: o filme É da Kristen Stewart, para o bem e para mal. Para o bem, pois, mesmo sendo uma atriz com limitações, ela demonstra alguma competência ao tentar dar um pouco de humanidade autêntica à sua personagem. E, para o mal, porque, justamente pelo fato de ser limitada, levar um filme inteiro na costas é tarefa dificílima, e poucos conseguem. Ou seja, mesmo esforçando-se bem, Kristen Stewart não consegue elevar muito a nota do longa, ficando bastante exposta, sendo que o principal responsável por "Personal Shopper" ser um filme tão mediano é o seu realizador, Oliver Assayas, que conduz tudo com uma mão, geralmente, pesada demais.




No fim, o que temos aqui é mais um exercício de estilo do que do que um panorama intenso e relevante sobre a dor do luto e a difícil decisão de recomeçar a vida. É uma mensagem que, por muito pouco, não se esvaiu em "Personal Shopper", já que a preocupação, ao que tudo indica, não foi no ser humano, e sim, em arquitetar um thriller, que acaba não indo pra lugar nenhum.Se a intenção era abordar um assunto complexo como o luto, muitas arestas precisariam ter sido aparadas. Mas, se, ao contrário, o que se pretendia era fazer um thriller puro e simples, também não surtiu efeito, pois, no geral, toda a tensão do filme é frouxa, e não chega a angustiar o espectador. Um longa que só vale mesmo pela sua necessária mensagem final (principalmente, para quem passa por esse tipo de sofrimento), e pela "melhor" atuação de Kristen Stewart no cinema (o que não é nada extraordinário, é bom dizer). Regular, e só.


Nota: 6/10


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