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Dica de Documentário

"Laerte-se"
2017
Direção: Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum


ÓTIMO DOCUMENTÁRIO DESNUDA UM POUCO DA PECULIAR PERSONALIDADE DE LAERTE PARA O GRANDE PÚBLICO

Algumas pessoas públicas atualmente são tão peculiares que merecem ter a sua história contada. O cartunista e chargista Laerte teve esta honra. Primeiro documentário produzido exclusivamente pela Netflix, "Laerte-se" expõe de maneira muito bonita e honesta um pouco da trajetória de Laerte Coutinho, 65 anos, que, desde 2010, resolveu assumir de vez o seu lado feminino, para choque de alguns, e encanto de tantos outros. A produção traça, respeitosamente, a vida do artista, começando da sua infância, passando pela adolescência, chegando à fase adulta, e chegando ao momento em que ele assume a sua sexualidade e o seu modo feminino de ser de forma plena.




Dirigido por Lygia Barbosa da Silva e entrevistado por Eliane Brum, "Laerte-se" é intimista e não possui pudores quando o assuntos é desnudar o artista (algumas vezes, de maneira literal). A cada minuto que é captado pela câmera, Laerte parece estar feliz, vivendo a sua nova condição com bastante humor, desde assuntos como a escolha da roupa que vai vestir, até a temas mais sérios, como o corporativismo presente nas militâncias LGBT e feminista, mostrando que o cartunista está, sim, bastante consciente a respeito do universo do qual está inserido hoje. Tão consciente que a sua arte nunca esteve tão engajada quanto nos últimos anos, protestando, colocando as suas ideias, e dando a cara a bater para eventuais críticas. 

Mas, acima de tudo, é mostrando como Laerte está lidando com as mudanças de comportamento típicas de sua nova condição. E, interage de maneira muito natural diante da câmera, mesmo após ter evitado as gravações para o documentário por ainda não estar se "sentido pronta". Passado o medo inicial, Laerte conversa com muita espontaneidade com Eliane Brum, uma das diretoras do filme, e que faz questão de aparecer durante a entrevista, deixando tudo mais informal e coloquial, e menos hermético. Mesmo com esse clima despojado, o protagonista do documentário confessa ter medo; medo de "descobrirem que eu sou um personagem", "medo de dar a minha opinião e influenciar outras pessoas"... Porém, Laerte mostra, ao longo do documentário, que esses medos, ao invés de anestesiá-lo, dão mais impulso a ele.




Nenhum assunto é deixado de lado: mudança de sexo, implante de silicone, política, transsexualidade, família, morte, militâncias, direita x esquerda, questões de gênero... E, todos abordados de forma simples, direta e sincera. Sem frescuras ou arrodeios. O nível de intimismo é tanto que os espectador se sente ao lado de Laerte, como se a conversa fosse ali, na hora, com quem está assistindo. Para uma pessoa de personalidade forte como Laerte, este é um recurso muito válido no documentário, pois nos aproxima mais do artista, e, acima de tudo, do ser humano.

Apesar da alegria de Laerte no decorrer da entrevista, também fica latente um certo desgosto quanto à não aceitação, por parte de algumas pessoas, nem ao universo trans, nem ao universo feminino. Para ela, há um certo posicionamento fascista dentro desses movimentos, onde alguns transsexuais não  a aceitarem por ela não ter feita mudança de sexo, e algumas mulheres não a aceitarem por ela não ser uma "mulher autêntica". Mas, mesmo que faça essas críticas, Laerte não transparece rancor por parte dessas questões, porém, alerta para o fato disso ser um fator de exclusão muito grave, não deixando nada a dever em relação ao preconceito de conservadores que tanto atrapalha a vida dessas pessoas.





Depois de pouco mais de um hora e meia, estamos um pouco mais íntimos de Laerte. Muito além da "figura exótica" que é vendida pela mídia, conhecemos alguém muito consciente, muito honesto, às vezes, um pouco perdido, um pouco ingênuo, mas, seguindo a vida como ela desejou ser. Um processo de construção do qual Laerte ainda continua a fazer, dia a dia, ora com bastante humor, ora om muita reflexão. "Laerte-se", em primeiro plano, é uma bonita história humana de alguém que, enfim, parece ter se encontrado. Mas, também é uma bela de uma provocação a uma sociedade machista e retrógrada, que insiste em querer impor aos outros como eles devem viver. E, diante de um ambiente assim, nada mais justo do que libertar-se (ou melhor, "laertar-se").


Nota: 8,5/10


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