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Filme Mais ou Menos Recomendável

"Mulher Maravilha"
2017
Direção: Patty Jenkins


MAIS UM FILME DE SUPER-HERÓI GENÉRICO, "MULHER MARAVILHA" PECA, IRONICAMENTE, POR TER UM SUB-TEXTO MACHISTA EM SUAS ENTRELINHAS

Estamos diante de mais um filme de super-heróis, mais um do universo expandido da DC Comics no cinema, mais um com a enorme responsabilidade de entregar um material minimamente interessante, ao contrários dos pífios "Batman vs Superman" e "Esquadrão Suicida", sem dúvida, os dois piores filmes do gênero desses últimos anos, ao lado de "Quarteto Fantástico". Ou seja, "Mulher Maravilha" chega com uma tremenda carga a ser superada. A pergunta é: conseguiu cumprir a sua missão? Bem, digamos que sim e não. Ao mesmo tempo em que o filme acerta em alguns pontos que ficaram devendo em produções anteriores, ele também erra ao repetir alguns dos erros mais corriqueiros de longas do gênero, com um agravante que pode até causar certa polêmica Vamos aos detalhes.




Tudo começa com aquele velho e batido monólogo em off, reconhecidamente brega, para tentar dar personalidade à protagonista. Um recurso bem batido, é verdade, mas, fazer o quê? Estamos diante de um blockbuster, e ousar nesse tipo de produção é, realmente, muito difícil hoje em dia. Mas, prossigamos. Enquanto Diana, a Mulher Maravilha, está numa missão nos dias atuais, ela relembra o seu passado, de como foi a sua infância e juventude, e como abandonou sua terra natal, Temiscira, a ilha das amazonas, para chegar ao mundo dos homens. Sua recordação dessa época é uma foto, da qual ela guarda, e que retrata um período histórico bem específico: a Primeira Guerra Mundial. É quando o filme, de fato, "começa".

De início, vemos uma Diana ainda criança, observando as amazonas de sua ilha em constante treinamento, e se encantando com isso, esperando, um dia, poder treinar também, a contragosto de sua mãe Antíope. Quando Diana cresce, finalmente consegue permissão para treinar, porém, com mais rigor do que as demais, visto que ela é mais do que uma simples "amazona". Nesses momentos do filme, vale destacar a ambientação de Temiscira, muito bem captada pelas câmeras, dando a impressão de que aquela civilização composta somente por amazonas realmente existe. Destaque também para a caracterização dessas personagens, com roupas e trejeitos em equilíbrio com a mitologia da história, sem nada soar afetado ou de mau gosto.




Os rumos da vida de Diana começam a mudar quando o piloto Steve cai acidentalmente em Temiscira. Em seu encalço, soldados alemães invadem a ilha, e é travada uma batalha campal entre eles e as amazonas, num combate muito bem coreografado, diga-se, e até um tanto brutal para um filme desse tipo. Após ser interrogado por Antíope, rainha das amazonas e mãe de Diana, Steve conta que no mundo dos homens está acontecendo um guerra sem precedentes, que está dizimando milhões de vítimas. Indo contra as leis de seu povo, Diana, então, decide acompanhar Steve de volta para poder ajudá-lo, pois ela crê que o culpado pelo conflito é Ares, Deus da Guerra, e acredita que matando-o, a paz reinará novamente. 

Ao chegar no mundo dos homens, há um claro conflito de costumes entre Diana e a população local, gerando aqueles inevitáveis momentos engraçadinhos, que até são bem humorados, mas, que tiram um pouco o foco da trama principal. Apesar disso, nesse segundo ato, temos alguns instantes interessantes, principalmente, quando Diana se depara com um mundo mais "cinza" e mais complexo do que aquele em que ela vivia, onde tudo era muito bem delimitado entre o bem e o mal. No mundo dos homens, porém, ela vê, por exemplo, que até pessoas boas podem fazer coisas ruins, e que os horrores da guerra são mais brutais do que ela imaginava. Inclusive, esse aprendizado da heroína é bem colocado até mesmo na paleta de cores dos dois primeiros atos, onde o primeiro é mostrado de forma colorida e vibrante (em Temiscira), e o segundo, de maneira mais turva e nebulosa (no mundo dos homens).




No entanto, nesse segundo ato, certas coisas já denotam que o roteiro está caminhando para um visão um tanto deturpada da personagem, e esse é o principal do filme. Vamos percebendo, às vezes, de maneira bem sutil, que Steve é mais protagonista da história do que a própria Mulher Maravilha. É ele, por exemplo, quem possui maior equilíbrio emocional e as melhores ideias, é quem planeja e executa as ações de infiltração nos territórios inimigos, e é quem (pasmem), no final, encoraja a heroína a derrotar o vilão. E, aí reside um problema bem sério: o filme da "Mulher Maravilha" não foi vendido como um libelo feminista sobre uma heroína empoderada e independente? Então, como Steve (um homem) é quem tem mais destaque na trama do que ela, sendo ele, inclusive, a grande motivação de Diana para continuar lutando no final? Essa não seria uma visão um tanto machista, a de que uma mulher, por mais poderosa que seja, só poderá amadurecer e encontrar o sentido da vida caso se apaixone por um homem? 

Isso, com certeza, destrói muito a visão da personagem, que deveria, como todos os heróis da DC ser uma encorajadora para os humanos serem melhores, e não estar motivada por uma questão pessoal. Estamos falando de deuses entre nós, e, assim como em "O Homem de Aço" e "Batman vs Superman", parece que estamos lidando com crianças mimados que possuem um ego absurdo. E, essa visão um tanto machista presente em "A Mulher Maravilha" denota bem isso. Muitos poderão até argumentar de que o filme foi dirigido por uma mulher (Patty Jenkins), mas, também é verdade que o loga foi roteirizado por três homens (Geoff Johns, Allan Heinberg e Zack Snyder - este último, responsável pela adaptação de quadrinhos mais "macho alfa" de que se tem notícia: "300"). O próprio Snyder comentou: "No começo conversamos e eu não queria trazê-lo para a história. Depois de certo debate nós chegamos a conclusão de que a Mulher-Maravilha precisa dele e o público também". Fica a questão: será que a heroína PRECISAVA mesmo de Steve? Fica a critério de cada um interpretar da melhor forma que achar.




Em termos técnicos, "Mulher Maravilha" não é (com o perdão do trocadilho infame) nenhuma maravilha. As sequências em Temiscira, ainda no primeiro ato, são um deslumbre para os olhos, mas, aos poucos, o filme vai perdendo esse requinte visual, muitas vezes, apelando para um CGI mal feito, como é o caso da batalha de Diana no front da guerra, ou com ela enfrentando Ares no desfecho do longa, ao que até funcionou bem em "O Homem de Aço", mas, que já se tornou um recurso mais do que desgastado. As atuações também não são lá muito primorosas, mas, ao menos, são competentes, principalmente a de Chris Pine, que faz Setve com grande naturalidade e a de David Thewlis, que dá ares misteriosos ao seu Sir Patrick Morgan. Já Gal Gadot, a protagonista, sai-se até relativamente bem, assim como foi em "Batman vs Superman". A atriz tem carisma, mas, ainda deixa a desejar naqueles momentos que exigem uma carga dramática maior.

A direção de Patty Jenkins é competente de um lado, mas, amadora do outro, principalmente, no tocante a cenas de ação, aonde a gente percebe que elas não estão sendo devidamente exploradas em sua plenitude. Há um excesso de cenas em slow motion, e algumas sequências poderiam ter sido melhor trabalhadas, como a que Diana entra no front da guerra, enfrentando um exército inteiro. O roteiro, mesmo tocando em alguns pontos interessantes, como o viés humanitário de mostrar as dores da guerra e expondo que as decisões importantes da época envolviam somente os homens, excluindo completamente as mulheres, também peca pelo excesso de clichês e soluções fáceis, artifícios que já estamos cansados de ver a cada nova superprodução. E, além de tudo isso, apresenta uma vertente simplificada e distorcida da personagem, que não condiz com uma heroína empoderada e independente, e também nem com o cerne dos heróis semi-deuses da DC.

Trata-se, portanto, de um filme ruim? Não, pois, cumpre bem o seu papel de divertir. Mas, dentro desse gênero de filmes, "Mulher Maravilha" é apenas mais um dentre tantos outros que já existem, e que ainda virão por aí.


Nota: 6/10


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