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Filme Mais ou Menos Recomendável

"Toni Erdmann"
2016
Direção: Maren Ade


FILME SENSAÇÃO NOS FESTIVAIS POR ONDE PASSOU, "TONI ERDMANN" NÃO SUSTENTA O HYPE, E SE MOSTRA UM DRAMA PESADO E POUCO INSPIRADO

Há um sério problema em relação à unanimidade: geralmente, ela esconde o posto do que se diz. Quando algo é excessivamente bem falado, é quase certo de que não é tão bom assim (o contrário também é válido). No cinema, especificamente, não faltam filmes cujo hype é altíssimo, mas, quando assistidos, não passa de um grande engodo (a produção nacional "Aquarius" foi um bom exemplo disso ano passado). Coincidentemente, também do ano passado, tivemos um filme alemão extremamente elogiado, que chegou a concorrer ao Oscar em 2017, mas, que, como em toda unanimidade que se preze, acabou se mostrando uma produção bem mediana. Trata-se de "Toni Erdmann".




O grande problema do longa é que ele tenta ser uma coisa que não é: uma comédia. Mas, tudo bem, vamos supor que a intenção fosse fazer uma "dramédia", mesmo, que pudesse misturar momentos engraçados, com outros mais tristes e reflexivos. Talvez seja pela pouca tradição do cinema alemão com o humor (vai saber), mas, a verdade é que tudo aqui é pesado, "carregado", sem ânimo, sem vida, e quando os personagens tentam fazer uma gracinha, soa forçado e constrangedor. O pior é que a premissa é muito boa. Basicamente, trata de um pai (Winfried) que vai fazer uma visita surpresa à filha (Inês), e passa a fazer pequenas brincadeiras no cotidiano dela, com o intuito de se aproximarem mais, e ela aprender que o sentido da vida não é apenas trabalho. Winfried chega ao ponto de criar uma segunda persona, Toni Erdmann, para interagir com Inês e os conhecidos dela.

No entanto, as incursões de Winfried, na maioria das vezes, são desastrosas mais vergonha alheia do que graça, propriamente dita. Evidentemente, que poderíamos supor que ele, de fato, não tem vocação para o humor, e que, isso sim, estar afastando a filha, ao invés de aproximá-la. Só que essas incursões, até para serem constrangedoras, precisariam ter alguma espécie de vivacidade, alguma forma de humor autêntico, algo que fosse, minimamente, engraçado. Mas, não. Praticamente, todas as maneiras de Winfried de alegrar o ambiente de Inês carecem de humor, e são chatas; tão chatas. que nem conseguem ter, digamos, uma espécie de melancolia, o que até tornaria a história mais interessante. Porém, nem isso temos. O roteiro parece travado o tempo todo, criando situações que não deixam a narrativa fluir, e que, às vezes, é mero pretexto para o filme pagar de "pusado", como na apelativa cena dos petit fours.




Só que, mesmo com tanto problemas, principalmente, no roteiro e na direção, "Toni Erdmann" até que nos oferece umas sequências. Uma delas é quando Winfried não acorda Inês para ir a importante encontro de negócios, o que causa uma briga nos dois, culminando com ele, aparentemente, indo embora, e ela, aos prantos, vendo o pai partir. É uma cena, por sinal, bem simbólica, e que capta bem a essência da premissa, já que mostra que Inês, no seu íntimo, também quer se libertar um pouco mais, quer ser mais despojada e engraçada, como o pai, pelo menos, tenta ser. Outro bom momento no filme é quando Inês está num restaurante com as amigas, e Winfried aparece "travestido" de Toni Erdmann, com uma peruca e dentes postiços realmente ridículos, mostrando até um bonito esforço de um pai tentando alegrar a vida de sua filha, o que acaba deixando a cena um pouco engraçada devido ao esforço comovente de Winfried. Há até mais uma boa sequência no filme, que é quando eles vão visitar uma estação de extração de petróleo, e um desentendimento faz com que um dos empregados seja demitido, sob os protestos de Winfried, em contrapartida à indiferença de Inês, o que demonstra, claramente, a diferença de pensamento de ambos.

No entanto, mesmo com algumas poucas cenas (somente três) que ainda conseguem passar um fiapo da intenção da premissa inicial, o que depõe muito contra a produção é a construção do personagem Winfried, que, unida à interpretação meio apática do ator Peter Simonischek. Não tem desculpa o fato de estarmos falando de um senhor, que, teoricamente, é desajeitade e não tem jeito para o humor. O personagem Monsieur Hulot, imortalizado por Jacques Tati, também era um completo desajeitado, e que, aparentemente, não tinha graça nenhuma. Mas, era só o ator/diretor Tati andar que começávamos a rir. E, é isso o que faltou em "Toni Erdmann": um Winfried com mais leveza, mais simpatia, mais graça, mais trejeitos para o humor. Paralelo a isso, pelo menos, a companheira de tela de Peter Simonischek, Sandra Hüller, que interpreta Inês, está muito bem no papel, e consegue passar com competência a personalidade de uma pessoa taciturna e que só pensa no trabalho, mas, que também tem uma vontade imensa de largar tudo (mesmo que momentaneamente), e viver de uma maneira menos pragmática.




Ao final, não temos nem uma comédia, e nem um drama. O que há, de fato, foi uma premissa muito boa e pertinente, mas, cuja realização ficou aquém da proposta. E, a culpa recai principalmente no roteiro, que incha a história com diversos momentos desnecessários, e a direção pesada e pouco inspirada de Maren Ade. Some-se a isso um protagonista  sem o mínimo de carisma, e interpretado da mesmíssima maneira. O que sobre é são algumas boas atuações, e pouquíssimas cenas interessantes, não justificando, de forma alguma, a longuíssima duração da produção, com inacreditáveis 162 minutos. É chato constatar, mas, a verdade é que, mais uma vez, a unanimidade provou estar errada, e o hype que se formou, totalmente infundado. Principalmente no cinema, nem tudo que reluz é ouro.


Nota: 5/10


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