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Dica de Filme

"Moby Dick"
1956
Direção: John Huston


MONUMENTAL ADAPTAÇÃO DE UM CLÁSSICO DA LITERATURA MOSTRA COMO DEVERIAM SER AS SUPERPRODUÇÕES DO CINEMA

Uma verdadeira força da natureza. É assim que pode ser descrito, literal e metaforicamente falando, o livro "Moby Dick", escrito por Herman Melville. Num texto famoso, Jorge Luís Borges define a obra como um “romance infinito - uma narrativa que, página a página, se amplia até superar o tamanho do cosmos”. Pra quem já teve a oportunidade de ler as quase 600 páginas de "Moby Dick", talvez não ache a opinião de Borges tão exagerada assim. E, como toda magnífica obra literária que se preze, sempre que ela tem alguma forma de adaptação, algo parece que fica desconexo, fora do lugar, ou, simplesmente, toda a essência da obra é modificada. Para transpor um livro para o cinema, por exemplo, sempre há a velha dificuldade de se conseguir passar para os espectadores as mínimas sensações que os leitores tiveram. E, no caso de "Moby Dick", uma adaptação em especial conseguiu a proeza de ser fiel ao texto original, e ainda se mostrar um espetáculo monumental em tela. Trata-se se uma antiga versão, dirigida por John Huston, no hoje longínquo ano de 1956.




Existe um narrador para a história: Ismael. É ele quem vai nos ambientar à trama, apresentar e se envolver com os outros principais personagens, e, acima de tudo, é que vai testemunhar a ruína de um homem: o capitão Ahab, que, mutilado por uma enorme baleia branca, aventura-se em alto-mar com a sua tripulação sob o pretexto de caçar baleias, mas, cujo objetivo era encontrar o animal que o feriu e matá-lo. Ismael, então, junta-se à tripulação de Ahab, tendo como companheiro de viagem o aborígene Queequeg. E, é nessa viagem quase suicida de Ahab que se concentra a trama, e onde vamos entender motivações, angústias, e tantos outros sentimentos humanos através do microcosmo daquela embarcação, carregando pessoas diferentes, com objetivos também diferentes.

Antes que alguém possa pensar: não, o filme, apesar de ter mais de 60 anos, não é datado, a começar pela narrativa. Não se espantem se o longa começar, e, depois de alguns minutos, não conseguirem mais parar de assistí-lo. O diretor John Huston mostra um domínio completo da história, não alongando demais momentos que poderiam ter ficado mais arrastados. E, isso se deve, em primeiro lugar, aos excelentes diálogos, que ora são despojados, ora soam mais profundos e filosóficos, expondo mais dos personagens do que da situação em si pela qual estão passando naquele instante. Uma sequência, em especial, é de uma catarse cinematográfica incrível, que é quando um padre (interpretado pelo magistral Orson Welles) faz um belíssimo discurso misturando passagens bíblicas com outras reflexões sobre a condição humana.




Como uma verdadeira superprodução para a época, "Moby Dick" também não economiza em efeitos visuais que até hoje se mostram impressionantes. A cena da tempestade em alto-mar e a caçada à grande baleia branca no final são tão reais que nos fazem imergir no filme como se estivéssemos no epicentro daquela ação; uma ação, por sinal, de tirar o fôlego. A própria Moby Dick é muito bem retratada, em toda a sua imponência e majestade, colocando muito do CGI atual no chinelo. O que era de se esperar, afinal o diretor John Huston é o responsável também por algumas das melhores adaptações bíblicas para o cinema, no que se refere em à produção. Seria lógico, portanto, que a sua versão para "Moby Dick" fosse verossímil em termos de efeitos visuais. Tanto esmero faz com que cada cena pareça "pular" da tela em nossa direção. Um primor.

O texto também não fica atrás em termos de qualidade. Escrito pelo próprio John Huston em parceria com Ray Bradbury, autor de "Fahrenheit 451", o roteiro conseguiu captar a essência da história, mesmo que, por motivos óbvios, tenha limado algumas partes do livro. Mas, os grandes paradigmas estão ali: a obsessão por vingança, o medo diante do desconhecido, a tentativa de superação diante dos maiores obstáculos, e por aí vai. Tudo embalado, geralmente, pelas divagações filosóficas de Ahab, que ora parece um completo louco, ora parece ser a pessoa mais consciência da história. O texto ainda abre espaço para questionamentos religiosos, críticas à elite e até mesmo a respeito do preconceito, já que Queequeg, num primeiro momento é visto como um selvagem, para depois descobrimos que ele fazia parte da realeza de seu povo, e que é um dos mais sábios e profundos tripulantes daquele navio.




No campo das atuações, todos estão excelentes, com exceção do astro Gregory Peck, que, de início, faz um Ahab um tanto forçado, caricato mesmo. Porém, com o desenrolar da trama, ele encontra o tom certo que o personagem pede, deixando as cenas em que aparece cada vez mais intensas. Já, na direção, vamos encontrar aqui um trabalho irretocável. John Huston mostra uma segurança absurda por trás das câmeras, conduzindo a história de maneira eficiente e empolgante até o seu clímax. Nesse sentido, nada sobra ou falta no filme. Mesmo sendo mais enxuto que o livro, como cinema, "Moby Dick" cumpre muito bem o seu papel de espetáculo audiovisual unido a uma história com uma profunda substância humana (algo bastante ausente nos blockbusters de hoje). Melville, muito provavelmente, teria ficado satisfeito ao ver que a sua obra máxima foi a base para um filme tão colossal (em todos os sentidos).


Nota: 9,5/10


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