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Debate

O fascismo em "The Walking Dead", ou: uma obra de arte nunca é "apenas" uma obra de arte
Por Erick Silva


(AVISO: CONTEM SPOILERS)

"Hoje em dia, tudo é fascismo!", brada aquele que acha que nada no mundo pode ser problematizado, e que a sua série de TV ou filme de super-herói, por exemplo. são imunes a críticas ou análises de qualquer espécie. É a boa e velha recusa diante do óbvio (na maioria das vezes). Talvez seja por isso que o universo nerd, vez ou outra, seja apontado como um ambiente em que reinam o preconceito e a intolerância, não muito diferente dos fãs xiitas de heavy metal, que abominam qualquer estilo musical que não seja o rock pesado. Só que, como qualquer outro produto da indústria de entretenimento, a série televisiva "The Walking Dead" não está isenta de críticas e análises das mais diversas, mesmo que isso signifique comprar briga com um grupo que faz de seu divertimento algo mais pessoal do que deveria, tornando um simples diálogo numa batalha digna de uma "apocalipse zumbi".


E, tanta polêmica a uma análise mais social da série é injustificada, Só pra constar, nos primórdios, os filmes de zumbi de George Romero possuíam um alto teor de crítica social, não sendo apenas o terror pelo terror. Portanto, nada mais lógico do que refletir a ideologia (ou, ideologias) presentes em produções desse gênero. E, é justamente com base nisso que é possível identificar (acreditem ou não) um teor bastante fascista ao longo das temporadas de "The Walking Dead" (atualmente, está para estrear a sua oitava temporada). Essa mudança de andamento, é bom dizer, deu-se das mais diversas formas, de coisas mais sutis a situações mais escancaradas, o que torna a análise um pouco complicada, mas, de certa maneira, importante.

Algo que "salta aos olhos" no decorrer da série é como personagens com um viés humanista e avessos à qualquer forma de violência extrema ou são ridicularizados e escanteados na trama, ou são mortos com requintes de crueldade. O primeiro a sofrer essa "punição" foi Dale, no emblemático episódio "Juiz, Júri e Executor", ainda na segunda temporada. Só lembrando que, antes de morrer de forma horrível, Dale havia passado todo o episódio tentando convencer Rick e os demais a não amatarem um rapaz, que fazia parte de um grupo rival, e, por isso, era visto como uma ameaça. Enquanto todos queriam a execução sumária do jovem, Dale apelou de maneira emocionante para que todos vissem o quanto aquele ato era errado. Como ele próprio falou, "a nossa civilidade não pode morrer com este mundo". Resultado? Ele foi morto por um zumbi no final do episódio, "estranhamente", não sendo mordido por ele (o que seria p mais lógico), mas, tendo o peito estraçalhado pela criatura. Ficou a impressão de que Dale merecia tamanha brutlidade.


Esse foi apenas um dos muitos momentos que viriam na série para tentar mostrar que empatia e compaixão são sentimentos que só devem ser aplicados a alguém muito próximo. Caso contrário, pela lei da sobrevivência, é matar ou morrer, e qualquer ato de altruísmo é visto como fraqueza. Muitos podem até argumentar que a série apenas retrata o ser humano como ele é. Só que, a partir do momento, em que se tem apenas e tão somente uma visão negativista das pessoas, a mensagem que fica é nociva em diversos pontos. Pra quem acha que uma produção sobre zumbis precisa mostrar apenas o lado negativo do ser humano, basta assistir a recente produção sul-coreana "Invasão Zumbi". Aqui, temos personagens de boa e de má índole, mostrando bem mais do que a rasa mensagem do "salve-se quem puder", ou do "só defendo os meus", que "The Walking Dead", muitas vezes, passa.

Provavelmente, o pior momento da série, nesse sentido, seja durante a quarta temporada, que evidencia que só os fortes podem sobreviver, e que os fracos (os que se deixam levar por emoções ingênuas), ao final, acabam morrendo violentamente. Num determinado episódio, quando indagada sobre o porquê o grupo de Rick agrega algumas pessoas a ele, alguém diz: "Isso não é caridade; são números. Quantos mais pessoas do nosso lado, melhor para combatermos zumbis e outras pessoas". Bom recordar que, na temporada anterior, ficamos familiarizados com o Governador, um personagem que evidencia bem o que é o fascismo. Sendo um autêntico ditador, ele comanda uma comunidade na base da alienação coletiva, e entra em atrito com Rick e o seu grupo. Há até boas (e, óbvias) críticas envolvendo o personagem. O problema? Em muitas ocasiões, os atos de Rick e de seu grupo não são tão diferentes assim do Governador, e isso ficará mais claro na quarta e na quinta temporadas.


Alguns podem até fazer um raciocínio acertado de que estamos falando de um futuro pós-apocalíptico, e que o que importa mesmo num ambiente tão devastado é a sobrevivência, e de que essa conversa altruísta não passa de bobagem. No entanto, cabe lembrar uma pequena pérola do cinema de ação recente chamada "Mad Max: A Estrada da Fúria", que também se passa num futuro pós-apocalíptico (só que mais inóspito e devastado que o de "The Walking Dead"). E, mesmo em condições tão desfavoráveis, os protagonistas do filme (Max e Furiosa) conseguem passar um senso de humanidade fortíssimo, com ambos ajudando até as últimas consequências uma população inteira que está sofrendo nas mãos de um grande ditador, e empregando a violência só quando necessário. Ou seja, mesmo num ambiente bem pior, os personagens de "Mad Max: A Estrada da Fúria" mostram ter mais ética e moral do que os de "The Walking Dead".

Inclusive, no meio de todo esse contexto, há uma passagem na série que merece destaque, que é quando Carl, filho de Rick mata a sangue frio um outro rapaz de uma comunidade rival. Como "punição", o pai apenas tira a arma do garoto por alguns meses, para, depois, devolvê-la. E, isso acontece sem nenhuma conversa ou lição de moral por parte do pai. Fica, portanto, a mensagem de que Carl fez a coisa certa. E, esse aspecto, por sinal, acaba virando uma constante em "The Walking Dead": personagens queridos do público fazendo coisas execráveis, e não aprendendo nada com elas depois. Muitos chegam até a receber a violência que empregaram aos outros duplicada, mas, nunca há uma reflexão, um entendimento sobre uma moral, sobre uma ética. Afinal, os personagens mais éticos que surgem vão morrendo ao longo do caminho.


Exagero? Peguemos, então, mais um personagem, Hershel, fazendeiro que, logo na segunda temporada dá abrigo ao grupo de Rick, e que passa a ser um integrante ativo dentro da trama. Com o passar do tempo, Hershel vai expondo um senso de justiça muito nobre, mais ou menos como um Dale da vida. E, o que acontece com ele? Claro, vai "pagar" por ser tão ingênuo num mundo onde o mais forte é que tem o direito de sobreviver, e acaba sendo morto numa cena pra lá de gratuita e sádica, envolvendo o Governador. Mais uma vez, denota-se que os autores da história parecem ter verdadeiro ódio desses personagens. E, só pra engrossar esse caldo, alguns episódios depois, seria a vez de outro protagonista com viés humanista morrer de maneira agoniante, Tyreese, e que também era contra os métodos usados por Rick e cia.

Cabe aqui um parênteses para Carol, personagem que está na série desde a primeira temporada, e cuja mudança radical denota bem esse fascismo (velado ou não) que "The Walking Dead" prega. De início, a personagem se mostra frágil, acovardada e totalmente submissa ao marido, a ponto de apanhar quase todos os dias. Só que a morte dele e da filha do casal provoca uma mudança de postura em Carol tão drástica, que chega ao ponto dela matar duas pessoas sob o pretexto de que estavam doentes e que poderiam contaminar os demais. Ou seja, a premissa da eliminação do mais fraco. No entanto, a "nova" Carol não se resume a isso, já que, na quarta temporada, vemos ela doutrinando um grupo de crianças de que é preciso matar pra não morrer, pois o mundo agora é assim. Essa mensagem fica ainda mais clara quando Mika, uma menina que se recusa a matar e que tenta mostrar a Carol o que é certo e errado, morre de maneira violenta (já perceberam que isso virou um verdadeiro clichê da série, não é?).


No decorrer das temporadas, a execução sumária é vista como algo natural ("Se encontrarem um inimigo, matem, e não hesitem, pois, eles não vão hesitar", diz Rick em determinado momento). E, esse tipo de pensamento é bastante reforçado quando encontram uma comunidade chamada Santuário. Sem hesitação, Rick e Carol matam covardemente, na velha concepção do "olho por olho, dente por dente" (numa cena, em especial, Rick persegue um homem de carro, e que está a pé, e o atropela, para depois, atirar em sua cabeça, sem nenhum remorso). Em outra situação, quando Rick e o seu grupo encontram a comunidade de Alexandria, e se estabelecem lá, Carl diz taxativamente ao pai: "Aqui, todos são fracos, e tenho medo que fiquemos fracos". O próprio Rick fala no final da quinta temporada: "É falar pra alguém parar, do contrário, vai morrer; isso é ser civilizado nos dias de hoje. Em tempos como esse, você tem que decidir quem e quando deve morrer. Caso contrário, alguém pode decidir por você".

É aí que, interessantemente, o personagem Morgan passa a ter algum destaque, pois, meio que preenche o "vazio humanista" deixado por Dale, Hershel e Tyreese. Para o que a série vem demonstrando até aqui, seus dilemas até que são pertinentes: "Dá pra sobreviver sem sujar as mãos? Dá pra acreditar na mudança das pessoas?" O problema é que, como sempre, personagens que "ousam" pensar dessa maneira acabam relegados a segundo plano, e se até agora, pelo menos, Morgan não morreu violentamente (ainda bem!), em contrapartida, vive sendo isolado e ridicularizado por suas ideias. Há até um episódio interessante que mostra como ele se "converteu" a ideias mais humanitárias, mas, isso não dura muito, visto que, invariavelmente, para sobreviver, Morgan precisou se juntar à matança geral, indo de encontro a tudo o que pregava até então, no final da sétima e mais recente temporada.


Essa visão fascista não muda, nem quando os protagonistas encaram um pesadelo verdadeiramente tenebroso, que se dá quando Rick e o seu grupo conhecem os famigerados Salvadores, comandados pelo misterioso Negan. Em troca de alimentos e suprimentos oferecidos por outra comunidade (a Hilltop), eles não hesitam em invadirem um posto avançado dos Salvadores e matar um por um. Para se ter uma ideia da manipulação perniciosa e desonesta do roteiro, numa determinada cena Glenn mata dois membros desse grupo enquanto dormiam, para, depois, vermos fotos de pessoas mortas por eles, na tentativa, portanto, de justificar a ação do grupo de Rick. Chega a ser sintomático que esse episódio específico termine com a música "Arsonist's Lullabye", do cantor e compositor Hozier, que diz: "Tudo que você tem é o seu fogo / E o lugar que você precisa atingir / Nunca dome seus demônios / Mas sempre os mantenha em uma coleira".

E, eis que, já no final da sexta temporada, surge "ele", aquele que seria amado e odiado por todos: o todo poderoso Negan. O que chama a atenção é que tanto esse personagem quanto os Salvadores parecem ter surgido num momento "estratégico" da trama, provavelmente, para tentar mostrar que existe gente fazendo coisas piores do que Rick e o seu grupo, e que, por isso, as suas ações anteriores foram plenamente justificáveis num mundo onde apenas a violência é a lei. Fazer de Negan um personagem extremamente carismático só faz reforçar a ideia fascista que martelou a série nas suas mais recentes temporadas. "Mas, Alex de 'Laranja Mecânica' também é retratado como alguém carismático", dirão alguns. Correto. Mas, a crítica embutida na trama de "Laranja Mecânica" era em mostrar as consequências de um mundo onde só a violência importasse, seja ela feita por um indivíduo apenas ou pelo Estado. Negan, ao contrário, é só mais um vilão verborrágico, cheio de tiradas "engraçadas" e cujo o objetivo é conquistar uma legião de fãs de quem assiste à série. Por trás do personagem, não há uma moral, uma ética, muito menos, uma mensagem positiva. É só alguém "metido a fodão".


Ao final da sétima temporada, qual a impressão que fica, mesmo para os mais desavisados? Que prevalece a lei do mais forte, do mais apto, que a violência é sempre necessária, e que ações altruístas e humanitárias não são importantes. Mais fascistas do que isso, impossível. Pior e que os "argumentos" dos que se opõem a essas opiniões se resumem a "Eu não acredito que li isso", "Não passa de mimimi de esquerdista", "Esse pessoal também vê fascismo em tudo", e por aí vai. Ou seja, não se prestam nem a analisarem os pontos levantados sobre essa questão. Um comentário, por sinal, resume bem o efeito que a série pode causar: "Eu queria ver esse pessoal 'mimizento', que faz textão no Face sobreviver uma temporada sequer em 'The Walking Dead'." Ou seja, é a lei do mais forte, do mais apto, onde o mais fraco tem que morrer. Em suma, meus caros, fascismo.

Outros argumentos afirmam que a série apenas segue os passos da HQ que a inspirou. Mas, então, que a crítica seja mais ampla, não se resumindo apenas à série televisiva, mas, também, às revistas em quadrinhos. Sem nenhum problema quanto a isso. Outro ponto interessante a se notar é a participação de Frank Darabont nessa história toda. Conhecido por ter dirigido os filmes "Um Sonho de Liberdade" e "À Espera de um Milagre", o cineasta foi responsável pelo conceito original de "The Walking Dead", bem como era quem escrevia o roteiro dos episódios nas duas primeiras temporadas. Só que, a partir da terceira em diante, ele foi demitido e passou a ser apenas creditado como o desenvolvedor do conceito original, com a função de roteirista sendo entregue a outras pessoas. E, foi a partir dessa mudança que a série passou a tomar ares nitidamente fascistas. Inclusive, veio a público recentemente que o próprio Darabont se desentendeu com os produtores da série e da emissora que exibe o programa, pelo fato dele escrever roteiros que eram bastante modificados na hora das filmagens. Muita "coincidência", não?


Enfim, isso mostra que uma obra de arte não é "apenas" uma obra de arte, e que, por detrás dela, há conceitos que merecem (e, alguns casos, precisam) ser debatidos. Num mundo cada vez mais individualista, onde impera justamente a lei do mais forte e do mais apto, uma série como "The Walking Dead" dar vazão a isso, não chega a ser surpresa. Surpresa mesmo é essa ditadura da opinião, onde lançar uma luz nova sobre qualquer coisa acaba virando uma verdadeira "guerra".

Os autores de uma obra podem expressar a opinião que quiserem (até mesmo opiniões fascistas)? Sim. No entanto, o que não se pode aceitar é o discurso desonesto de dizer que algo é uma coisa, sendo outra bem diferente. E, esse é caso de "The Walking Dead", que deixou para trás um interessante conceito de luta pela sobrevivência num ambiente catastrófico, mas, que ainda possui traços de humanidade, para se tornar, hoje em dia, uma mera propaganda de autoritarismo e violência.

Se "The Walking Dead" for, de fato, um retrato fidedigno da sociedade, que nunca (NUNCA, MESMO) tenhamos que passar por um apocalipse zumbi.


Querem saber mais? Seguem os links: 

http://www.vulture.com/2016/12/the-walking-deads-fascism.html

https://www.ligadoemserie.com.br/2016/12/the-walking-dead-virou-propaganda-fascista/

http://desafinado-blog.blogspot.com.br/2013/01/civilizacao-e-barbarie-em-walking-dead.html

http://guildaescritores.blogspot.com.br/2013/11/a-sociologia-de-walking-dead.html

https://omelete.uol.com.br/series-tv/noticia/the-walking-dead-e-mails-ofensivos-do-criador-da-serie-sao-vazados/



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