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Disco Mais ou Menos Recomendável

"Coração"
2017
Artista: Johnny Hooker


JOHNNY HOOKER LANÇA UM SEGUNDO DISCO MELHOR QUE O PRIMEIRO, MAS, AINDA NÃO CONSEGUE FAZER ALGO QUE SUPERE AQUELE VELHO SABOR DE "SOM REQUENTADO"

A arte é feita de reciclagens, num ciclo, por vezes, sem fim. Se, por um lado, isso pode ser bom, pois, dá a oportunidade às novas gerações de terem conhecimento de coisas mais antigas, por outro, dá aquela inevitável sensação de falta de criatividade, de mais do mesmo, de déjà-vu, por mais bem feito que um produto possa ser. É o caso do cantor e compositor Johnny Hooker, por exemplo, que acaba de lançar o seu segundo trabalho, "Coração", que é, sejamos honestos, melhor que o primeiro disco dele, mas, que ainda repete os mesmos problemas de seu antecessor, justamente por se parecer demais com todo o que já ouvimos antes, sem esforço de temperar a mistura com algo novo.
Quando escuto Johnny Hooker, tenho uma incômoda impressão de que ele tem a necessidade de agradar todas as tribos, e isso atrapalha muito o resultado, já que podemos perceber boas coisas em sua música. E, essas coisas boas podemos encontrar facilmente nas duas primeiras canções deste novo álbum: uma bela intro, que abre espaço para "Touro", com uma sonoridade poderosa, e uma letra empoderadora: "Olha eu aqui de novo / Viver, morrer, renascer / Firme e forte feito um touro / Você acha que é um Deus / Narciso pintado em ouro / Ninguém quer o seu tesouro /Leve seu mel, seu fel, seu céu". Na terceira música, "Eu Não Sou Seu Lixo", Hooker aposta no samba, e se sai razoavelmente, apesar de repetir o velho vício de letras sendo usadas como indiretas a um amor mal resolvido, um assunto que cansa se usado à exaustão.

"Corpo Fechado", com participação de Gaby Amarantos, vai pelo caminho do tecnobrega, e apesar do bom refrão ("Vai me ver dançando / Vai me ver amando / Vai cair pra trás") e da sonoridade mais bem acabada do que essas bandas que fazem esse estilo, a música não vai muito além de uma diversão bem passageira, e (adivinhem?) com mais indiretas a um suposto alguém. Esse aspecto monotemático fica ainda mais evidente em "Página Virada", uma nossa nova que emula Maysa, entre outras cantoras da época. Música bem produzida, mas, pouco impactante, transpirando uma emoção claramente pré-fabricada. Uma emoção que parece ser um pouco mais genuína em "Flutua", coincidentemente, com participação de Liniker (este, sim, um cantor com estilo próprio, sem precisar transitar entre tantos estilos para ser "lacrador"). Apesar do esmero, é mais uma canção que dificilmente marcará o ouvinte.


"Caetano Veloso" talvez seja a melhor música do disco, por um motivo bem simples: Hooker não tenta força nada aqui. Ele canta de maneira mais natural, espontânea, bem como o som mostra um swing sem soar forçado, sem aquela cara de "feito para tocar nas festas cults de Recife", por exemplo. Mesma sensação pode ser conferida na boa "Crise de Carência". Ou seja, quando o cantor não força a voz para tentar parecer com A ou B, sem essa preocupação excessiva em agradar, o resultado satisfaz, mesmo que não seja um primor. Interessante notar que a música seguinte, "Coração de Manteiga de Garrafa", vai no mesmo tom dessas duas anteriores, e é mais uma composição agradável de ouvir, mesmo que não seja memorável, e cuja temática continue sendo a de sempre (amores mal resolvidos). É a prova de que Hooker se sobressai um pouco quando não tenta forçar um estilo próprio ao se parecer com vários. Às vezes, o básico é o melhor. As duas últimas do disco ("Poeira das Estrelas" e "Escandalizar") são boas, mas, transitam entre a simplicidade e (mais uma vez) a intenção de agradar através  da forçação de estilos e sons. 

Saldo? Metade de "Coração" é chato, e a outra metade é válida, mas, nem um pouco marcante. Escutar um disco de Johnny Hooker se assemelha a ir a todos os pólos do carnaval multicultural do Recife. Há todos os tipos de sons e tribos, porém, não existe uma unidade, uma identidade bastante definida, algo que seja um diferencial, enfim. É tudo gravado, produzido e interpretado com tanto cuidado que pouca coisa parecer fluir. Soa como uma matemática calculada para agradar, com alguns momentos de autenticidade, e outros tantos de "eu já ouvi isso antes, e melhor".  E, já ouviu, mesmo. Até os destaques deste disco não são algo que "vá ficar", mas, sim, um playlist razoável que irá embalar uma festa aqui e outra acolá, mas, cujo excesso de referências e uma temática sempre igual irá fazer com que boa parte das canções seja esquecida muito em breve. Agrada um pouco no começo, mas, ficam indigestas depois (como toda comida requentada que se preze).

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Nota: 6/10


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