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DICA DE DISCO

"DIRT" (1992)




Rótulos, às vezes, atrapalham e muito, principalmente no tocante à música. Quando a turma do grunge explodiu há mais de 20 anos em Seatle, várias bandas de sons muito diferentes foram colocados no mesmo pacote. O Alice in Chains, por exemplo, podia ter um visual que lembrasse todo aquele hype, mas sua música era calcada totalmente no heavy metal setentista, mais precisamente tendo o Black Sabbath como influência. Já, os outros grupos da cena eram mais voltados para o punk dos Sex Pistols, em sua maioria.




Depois de lançarem o ótimo "Facelift" e de terem emplacado um mega-hit, "Man in the Box", o Alice compôs aquele que seria seu disco essencial, "Dirt". Com linhas vocais mais arrastadas e soturnas de Layne Staley, guitarras ora enfurecidas, ora tristes de Jerry Cantrell, e ainda tendo uma coesa cozinha a cargo do baixista Mike Starr e do baterista Sean Kinney, o grupo conseguiu fazer um poderoso álbum de puro rock, mas pouco convencional, e, algumas vezes, nada comercial.

O trabalho já começa com a pesada e empolgante "Them Bones", cuja letra já entrega o tom sinistro que permeará quase todo o disco: "Eu acredito que sou esses ossos / Alguns dizem que nós nascemos na sepultura / Eu me sinto tão só, acabarei numa / Grande pilha de ossos velhos". Em seguida, "Dam That River" já é mais próxima do que a banda mostrou em "Facelift", ou seja, algo de muita qualidade.




"Down in a Hole" é o tipo de música brilhante que não se consegue ouví-la sem sentir todo o peso que a cerca. Nesse caso, é preciso se preparar psicologicamente, porque é uma canção bastante densa e depressiva, onde a letra diz: "Dentro de um buraco / Eu não sei se eu posso ser salvo / Olhe para mim agora / Sou um homem que não se deixa existir". A canção "Rooster" também é outra composição genial, com destaque para Staley. Sua introdução e finalização, com linhas vocais suaves, possuem muito bom gosto.

Já a música que dá nome ao disco, "Dirt", não tem nenhum apelo popular ou refrão pegajoso, e por isso mesmo é brilhante. "Angry Chair" é um petardo, onde a guitarra de Cantrell está melhor que nunca. E, pra finalizar um disco que beira a perfeição, temos o hit "Would?", que fez parte da trilha sonora do filme "Vida de Solteiro", cujo o enredo fala, justamente, da cena grunge de Seatle, e tem Matt Dillon como um dos atores principais.




Olhando bem atentamente, "Dirt" possui vários destaques positivos, porém, um que se sobressai são as letras. Praticamente todas abordam a questão dos problemas relacionados com as drogas, fazendo do álbum quase um trabalho conceitual. Das treze músicas, seis falam das experiências vividas por Staley com o vício em heroína ("Sickman", "Junkhead", "Dirt", "God Smack", "Hate to Feel" e "Angry Chair"). Inclusive, ele e o produtor Dave Jerden brigaram inúmeras vezes, pois este pedia constantemente ao vocalista que ficasse "limpo" para fazer corretamente as gravações.

O tempo provou, tristemente, que o conteúdo do disco não era pose. No ano de 2002, Layne Stale foi encontrado morto devido a uma overdose; em 2011, Mike Starr teve o mesmo destino. À época do lançamento de "Dirt", o guitarrista Jerry Cantrell explicou melhor sua temática: "Estas canções (de 'Junkhead' a 'Angry Chair') são colocadas em sequência no segundo lado por uma razão: elas contam uma história. Começa com essa atitude realmente ingênua e jovem em 'Junkhead', como drogas são demais, sexo é demais, rock'n roll, yeah! Então, enquanto progride, há um pouco de amadurecimento e um pouco de realização do que se trata, e não daquilo o que se trata." Literalmente, a vida imitando a arte...




Mesmo diante de tantas nuances, significados e "premonições trágicas", o álbum "Dirt" resistiu como um clássico absoluto dos anos 90. Um trabalho que, apesar de tantos problemas para ser feito, e possuindo várias músicas com assuntos pesadíssimos para o público em geral, mostra uma competência tal dos seus envolvidos, que não há outra alternativa a não ser comprá-lo, escutá-lo direto e não emprestá-lo a ninguém.




NOTA: 10/10.

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