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DICA DE FILME

"DOGVILLE" (2003)




Lars Von Trier é o cineasta atual preferido para se odiar. Mostrando-se, é verdade, muitas vezes pedante, arrogante e sendo criador de polêmicas vazias, de algo não se pode acusá-lo: oportunismo. Desde sua estréia em 1988 com "Os Idiotas", que fez parte do movimento Dogma 95, ele nunca teve concessões com sua arte. Nessa produção, expunha, sem pmudores, cenas de sexo e grupo explícitas e colocava deficientes mentais para atuarem como eles mesmos. Depois, quase levou Björk à loucura em "Dançando no Escuro". Chocou o público com "Anticristo", e, recentemente, mostrou muita técnica em filmes enfadonhos ("Melancolia" e "Ninfomaníaca").

No meio de todos estes, porém, conseguiu fazer sua obra-prima: "Dogville". Até mesmo quem costuma torcer o nariz para as produções do dinamarquês, rende-se a este puro exercício de fazer cinema. Trata-se, antes de tudo, de um desafio. O cenário onde se passa a trama é um só, e é feito como se fosse num teatro. As casas são fictícias, não havendo paredes; apenas escutamos os ruídos de portas se fechando e abrindo. Só isso já poderia ser suficiente para tornar a experiência de assistir "Dogville" algo bem interessante. Porém, Von Trier vai além, e nos oferece bem mais.




Usando como pretexto a chegada inesperada de uma desconhecida no vilarejo que dá nome ao filme, e mostrando, gradativamente, ao quão podre pode ser a condição humana, o diretor nos proporciona inquietantes análises do comportamento dessas pessoas. Questionamentos não faltam, e um deles se faz presente de forma significativa: até que ponto é justificável certas atitudes de alguém devido à sua vida de miséria?

Quando a jovem Grace, que está foragida da polícia, torna-se um perigo cada vez maior para Dogville, seus moradores se aproveitam cada vez mais dela, humilhando-a de todas as formas. Nisso, é mostrado que não importa as condições em que se vive; quando é dado poder, muitos que um dia foram vítimas, acabam se tornando algozes. Nesse aspecto, essas pessoas estariam passíveis de serem perdoadas?




Von Trier não oferece respostas fáceis; ao contrário. Leva sua protagonista até o limite do sofrimento para mostrar o quão mesquinhas e egoístas podem ser as pessoas. Mas, o que ele mostra está longe de ser apelativo, como em seus filmes recentes. Cenas de estupro e mortes violentas não são gratuitas, fazem parte do contexto vil que ele quer questionar.

A construção dos personagens ajuda bastante no teor psicológico da estória. No enredo, praticamente todos os moradores do vilarejo são pintados como pessoas amáveis, cordiais, e existem até mesmo reuniões periódicas, onde um jovem escrito é o palestrante, e seus discursos se baseiam em passar valores e virtudes a todos dali. Porém, há sempre a desconfiança da parte dele de que aquela boa gente poderá, caso haja a necessidade, fazer coisas horríveis. Por isso, busca algo para mostrar aos moradores que eles precisam ser bons, ao que ele chama de "ilustração". A chegada de Grace trará o que ele tanto procura para Dogville.




As atuações aqui são formidáveis, com destaque absoluto para Nicole Kidman. Sua personagem pode parecer passiva em muitos momentos, mas, ao longo da trama, e, principalmente, em seu final, essa passividade mostrará seu objetivo. Kidman impõe ao papel um sofrimento contido, mas absoluto, que logo se mostrará essencial para concluir o que Von Trier quis dizer aqui. Falando nele, a direção é soberba, e mesmo usando o mínimo possível, o diretor consegue excelentes resultados. Inclusive, a estética usada nesse filme parece ser um misto do experimentalismo do movimento Dogma 95 com um cinema mais "convencional".

"Dogville" é forte, muito forte. Não pelas imagens ou pela estória, mas por seu sombrio panorama da alma humana. E, ao mesmo tempo, é uma demostração de piedade por essa condição tão frágil, e capaz das coisas mais terríveis. Recentemente, só um filme tinha nos desnudado de maneira tão intensa: "A Árvore da Vida", obviamente, sob um foco completamente distinto, mas paralelo em seus objetivos.




Por esse magistral estudo, pode-se facilmente perdoar Von Trier pelos erros cometidos em "Anticristo", "Melancolia" ou "Ninfomaníaca". Até mesmo porque, depois de "Dogville", não seria preciso dizer mais nada, de toda a forma.


NOTA: 10/10.

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