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DICA DE FILME

"DO AMOR E OUTROS DEMÔNIOS" (2009)

"- O Mal não está em Deus, mas em sua ausência.
- Ou talvez no livre-arbítrio que Deus nos deu.
- Não se combate o Mal com a razão, mas com a fé!"




Esse diálogo entre o jovem padre Cayetano e seu bispo pontua bem a espinha dorsal do filme "Do Amor e Outros Demônios", adaptação da obra de Gabriel Garcia Marquez. As interpretações a cerca do Bem e do Mal, de Deus e do Diabo determinam o rumo que os personagens da estória deverão trilhar. Por exemplo: uma simples febre provocada pela mordida de um cão portador de raiva numa moça é pretexto para que os religiosos da localidade entendam que ela está possuída por forças malignas, e designam sua internação num convento a fim de curá-la.

A menina é filha do marquês de Cartagena das Índias, e trata-se de uma jovem sonhadora e apaixonada pelas coisas, e que foi criada pelos escravos da família. Só que suas paixões, como descobrir o sabor que tem um beijo, irão de encontro à época conservadora em que vive (uma Espanha medieval, ainda marcada pela Inquisição). É quando o referido padre Cayetano é incumbido de acompanhar o caso, e de "exorcizar" a moça. Em algum momento, a atração entre eles surgirá, o que não deixa de ser um tanto clichê.




Porém, além das situações inevitáveis, o filme expõe algumas nuances interessantes que permeiam as relações de poder entre clero e nobreza. Num determinado momento, o marquês percebe que o enclausuramento no convento está fazendo mal à filha, e sem conseguir autorização do bispo para tirá-la de lá, recorre aos vice-reis da região para ajudá-alo. Com a intervenção deles, a jovem passa a ter um pouco mais de liberdade, visto que, antes, passava a maior parte do tempo amarrada em sua cela.

Outro bom ponto explorado é o fato da religião controlar cada passa da vida social através de seus dogmas. Nisso, o padre Cayetano indaga ao seu bispo: "Os religiosos atribuem tantas coisas ao mal, que mais parecem devotos do Demônio. Inclusive, seria um grande presente para ele exorcizar uma pessoa sã". Já, em outra ocasião, o bispo, acompanhado pelos vice-reis, queixa-se: "Atravessamos o oceano para impor a ordem de Cristo, no entanto, os índios só frequentam nossas igrejas porque seus altares pagãos estão debaixo dos nossos".




As atuações no filme são comedidas, mas eficientes, e o ritmo flui bem. Ponto para a diretora Hilda Hidalgo. Também há de se destacar a forma como é mostrada a relação entre a jovem e o padre, nunca explicitada, mas através de sugestões, principalmente, na utilização de imagens oníricas. Isso, sem dúvida, dá mais leveza à trama. Porém, outras coisas poderiam ter sido melhor aprofundadas, como as constantes visitas que uma outra interna do convento faz à moça, e parece ser a única personagem a dizer coisas coerentes e racionais.

"Do Amor e Outros Demônios" faz uma ambientação, por fim, bastante competente de um lugar comandado por dogmas rígidos, onde as coisas mais banais e corriqueiras podem dar margem às mais diversas interpretações. Algo, portanto, não tão distante da nossa atual realidade.


NOTA: 8/10.

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