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DICA DE FILME

"O GRANDE DITADOR" (1940)




Pra que serve a comédia? Pra fazer rir? Sim, esse é uma das suas funções. Mas, para alguns, fazer rir não é o suficiente. Ao contrário, limita sua arte. Chaplin foi um dos que pensavam assim.

Muitos de seus filmes, como "Luzes da Cidade" e "Tempos Modernos", e até mesmo seus curtas, excediam a ideia da comédia em si, sempre dizendo mais do que o óbvio. Mas, com "O Grande Ditador", ele foi além.

Precisamos lembrar de um detalhe: essa produção data de 1940, auge da Segunda Guerra e da figura de Hitler como uma grande ameaça. Seria loucura fazer um filme satirizando tudo isso? Não para um gênio como Chaplin.




Mesmo com o receio do estúdio United Artists, "O Grande Ditador" foi lançado e cumpriu o seu papel. Fez rir e refletir em doses iguais. O mérito está no fato de que aqui não é uma mera sátira. Temos um enredo bem construído, personagens cativantes e atuações fantásticas. Ou seja, como cinema, o nível é alto.

Chaplin faz o que provavelmente é o seu melhor papel: Adenoid Hynkel, ditador da Tomânia. Seus trejeitos e tiques, principalmente nos discursos inflamados são hilários. É um personagem moralmente ambíguo, pois, ao mesmo tempo que mostra desenvoltura para comandar as massas, demostra fraquezas como inveja e medo.

Além dele, Chaplin também interpreta um cadete do exécito que, após perder a memória durante a Primeira Guerra, volta para o gueto onde vivia e era barbeiro. Igualmente, é uma figura bem construída na trama.




Ainda podemos citar Paulette Goddard (esposa de Chaplin na vida real), como Hannah, e Jack Oakie, que faz Benzino Napaloni, numa evidente paródia a Mussollini, e que protagoniza algumas das melhores cenas de "O Grande Ditador".

As situações mesclam piadas com momentos mais reflexivos. Às vezes, ambas as características se unem, como na clássica cena em que Hynkel brinca com um globo terrestre.

E, mesmo fazendo graça com assuntos tão sérios, é clara a intenção de Chaplin em mostrar o quão absurda é uma guerra e suas consequências, onde vidas são tiradas por capricho de quem detém alguma espécie de poder.




Apesar de engraçado, Hynkel é o vilão, e ficamos cientes disso a todo momento. Na realidade, muito do que mostrado nesse filme é para demonstrar o quanto todo e qualquer regime ditatorial é ridículo e dantesco.

Não por acaso, "O Grande Ditador" foi o primeiro filme falado do diretor. Isso porque, ao final, ele revela seu objetivo. Na frente de uma fictícia platéia, o barbeiro judeu, fazendo-se passar pelo ditador, mas sendo o próprio Chaplin, profere um dos discursos mais fortes presente na sétima arte até hoje.

É um recado de seu realizador para o rumo que o mundo estava tomando com aquela guerra, como se fosse um aviso; quase uma súplica para que paressem e refletissem. Simplesmente, soberbo.




"O Grande Ditador" tem todos os elementos do melhor do cinema, e vai além na sua realização. Um filme feito no olho do furacão, que mexeu com o perigo, ridicularizando terríveis inimigos, e passou o seu recado que queria (e deveria).

Se existe um atestado de genialidade artística, é este.


NOTA: 10/10. 

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