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DICA DE FILME

"VIOLÊNCIA GRATUITA" (2007)




Haneke é o tipo de cineasta que gosta de fazer o espactador sofrer tanto quanto os personagens de seus filmes. Às vezes, o efeito é brilhante ("Amor"); em outras, bastante pedante ("A Professora de Piano"). Em "Violência Gratuita", refilmagem norte-americana de um filme do próprio cineasta, feito em sua terra natal (Áustria), o resultado é dos melhores.

Todavia, até hoje, ele é mais lembrado como uma produção chocante, do que algo com uma mensagem crítica. Isso porque Haneke consegue manipular os sentimentos de quem assiste. Geralmente, temos a impressão de estarmos imersos na estória, o que é muito incômodo.




Na realidade, é uma sensação desagradável. Somos obrigados a reconhecer ou que somos tão sádicos quanto os protagonistas do filme, ou que somos tão impotentes quanto a família que eles passam a atormentar.

Pelo menos, aqui, tentamos ver o sofrimento alheio como uma forma de indignação. Só que o diretor não deixa. Ele tira de cena as sequências mais explícitas, como se dissesse que, quase sempre, fechamos os olhos para as barbaridades do cotidiano.




A violência, de forma hipócrita até, é debatida todos os dias, porém, quantos fazem algo para evitá-la? Por isso, ela se torna tão banal e (inevitavelmente) gratuita. E, com esse filme, Haneke tenta tirar um pouco da letargia das pessoas em relação a esse problema.

De maneira proposital, "Violência Gratuita" mexe com esteriótipos. Os vilões são rapazes bonitos, limpos, brancos, educados e eruditos. Acima de qualquer suspeita. Quando passam a molestar a família da casa que invadem, questionamos não só suas atitudes cruéis, mas de toda uma sociedade que é omissa.




Em paralelo, temos a metalinguagem (a arte indagando a própria arte). Constantemente, os tais rapazes "falam" com o espectador, interagindo e constrangendo com suas colocações. A narrativa também se mostra criativa, como quando uma cena é "rebobinada", pois não era favorável aos algozes da família.

O roteiro não trata do sofrimento como espetáculo. Não temos aqui um "Jogos Mortais" ou um "Albergue". A violência não precisa ser, necessariamente, fruto de um ambiente doente. Pode ser sem propósito, onde muitos apenas aproveitam seu status social para extravasá-la.




Nesse momento, cabe lembrar o caso verídico daqueles rapazes de classe alta em Brasília que atearam fogo num índio que dormia em praça pública, e acharam que se tratava de um mendigo. Assim como os protagonistas deste filme, eles eram pessoas aparentemente normais e inofensivas, e que ficaram impunes pelo crime que cometeram.

"Violência Gratuita" é de difícil digestão. Mostra o quanto podemos ter simpatia pelos mais terríveis bandidos, e também como podemos ser coniventes enquanto sociedade.




Para o senso comum, foi um filme apelativo. Mas, caso seja visto de forma mais ampla, veremos um sinal de alerta bem crítico a respeito do que estamos nos tornando.

Haneke foi longe demais. No entanto, era preciso.


NOTA: 9/10.

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