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Dica de Filme

"Dois Dias, Uma Noite" (2014)
Direção: Jean-Pierre Dardenne.


Simplicidade funciona que é uma beleza, como diria o filósofo, mas, é difícil de conseguir. O cinema, em alguns momentos atuais, parece ter entrado naquela obrigação de ter que ser rebuscado. E, olhem que isso vale tanto para os blockbusters de super-heróis, quanto para as produções cults, que acham que dialogam com a Nouvelle Vougue, o Expressionismo Alemão... Contar uma boa estória, de forma direta, virou uma espécie de sacrilégio. Porém, temos boas exceções à regra, como o brasileiro "Que Horas Ela Volta?" e este "Dois Dias, Uma Noite".

Não que a estória, em si, precisasse de algum esforço sobre-humano para ser contada, mas, é gratificante ver uma produção dedicada a colocar os pingos nos "i"s, sem tantas coisas supérfluas O enredo? Trata da trajetória, um tanto injusta, de Sandra, que, na iminência de perder o emprego, resolve, em dois dias, convencer seus colegas de trabalho a desistirem de um bônus de mil euros em favor da sua permanência na empresa. Ressalte-se que Sandra ficou um tempo afastada do serviço devido a uma forte depressão.



Nesse meio tempo, ela vai descobrindo o caráter de cada um dos seus companheiros de trabalho. Falsidades vão se mostrando, mesquinharias vão se sobrepondo, porém, ela também encontrará muita solidariedade à sua situação. Falando assim, o filme parece ser presunçoso, manipulando a opinião do espectador. Mas, não é. Alguns que se recusam a votar em favor de Sandra têm realmente motivos sérios para isso. Outros, nem tanto. E, para o restante, ela encontrará algum conforto, alguma inspiração para continuar seguindo.

Ao colocar em evidência as necessidades (e o egoísmo também) de cada um, o roteiro toma a liberdade de debater assuntos como as relações familiares, a questão da amizade, da gratidão e do altruísmo. E, sem nunca soar piegas ou pedante. Excluindo ao máximo cenas desnecessárias, o que vemos é um tour de fource quase em tempo real de alguém que coloca o orgulho de lado para pedir algo que, no frigir dos ovos, não deveria ser nada demais. Nós nos tornamos cúmplices e torcedores de sua jornada.



Uma dessas "sequências econômicas" merece destaque: é quando Sandra, no auge de sua recaída da depressão, tome uma caixa inteira de comprimidos. Quando conta ao marido o que fez, ele pede a uma amiga que traga uma ambulância, e, logo em seguida, ela está no hospital sendo medicada. Ponto. Sem histrionismo, sem melodramas, sem nada que atrapalhe o andamento da estória. Infelizmente, dá pra imaginar como uma produção hollywoodiana mostraria essa sequência, e, obviamente, sem ter a mesma força.

Marion Cotillard, que esteve formidável em "Piaf", estrega uma Sandra cativante. Sem fazer dela uma pessoa digna de pena, a atriz consegue mostrar suas fraquezas, mas também seu poder e superação. Mas, tudo natural, sem pesar a mão. Fabrizio Rongione, que interpreta o marido de Sandra, também está muito bem. Convincente, também empresta um senso de humanidade muito coeso ao personagem, ao mesmo tempo que também demonstra muito carinho pela esposa, sendo um de seus alicerces.



O roteiro narra tudo de forma clara, mas com sensibilidade. A direção, quase documental, de Jean-Pierre Dardenne ajuda muito nesse aspecto. Vale dizer que o filme mal tem trilha sonora (com uma música acidental aqui e acolá). O impacto das emoções ficando a cargo do julgamento do espectador. Pequenos detalhes que fazem a diferença.


"Dois Dias, Uma Noite" foi o representante belga do Oscar esse ano. Merecido. Ao lado de "Tangerinas" e "Leviatã", foi uma das melhores produções estrangeiras a figurar nessa premiação em 2015. Como cinema, pode não ser o tipo de produção "arrojada" que está virando regra por aí, mas, conseguiu passar o seu recado com leveza, sem agredir a nossa inteligência. E, assim está ótimo.


NOTA: 8,5/10. 

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