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Especial


Mas, Afinal, Quem Foi David Foster Wallace?

A morte não eleva os homens, torna-os apenas um pouco mais conhecidos. Quem se encarrega de transformar alguém em grande ou pequeno é o tempo, sempre ele, a moldar nossas vidas, com pequenas características que nos definem, aqui e acolá. Vejam o caso de David Foster Wallace, por exemplo. Passou exatos 46 anos aqui na Terra. Nesse curto espaço de tempo, conseguiu uma legião de fazer inveja a muitos romancistas (ditos) renomados. Mas, a fama, muito dela, póstuma, de Foster Wallace, justifica-se?

É certo que estamos carentes de excepcionais escritores (Valter Hugo Mãe é exceção, que fique claro). Comparado a outrora, parece que essa geração desaprendeu o dom da escrita poderosa. Entre best sellers e algo que realmente valha a pena, há um imenso abismo (e, uma diferença numérica gritante). Por isso, Foster Wallace se notabilizou como um clássico contemporâneo, não, necessariamente, devido à sua prematura morte, mas a todo um arcabouço que ele tinha, e que tanto falta aos novos escritores, principalmente seus questionamentos sobre o que é a vida.


Basta dizer que ele ficou impressionado ao ler as mais de 5 mil páginas da biografia de Dostoiévski, escrita por Joseph Frank. Que outro romancista moderno daria tanta importância ao autor russo? "A grande coisa que torna Dostoievski inestimável para os leitores e escritores norte-americanos é que ele parece possuir graus de paixão, convicção e engajamento com dilemas morais profundos que nós – aqui, hoje – não podemos ou não nos permitimos...” É de se imaginar o impacto que "Notas do Subterrâneo" ou "Crime e Castigo" teve no escritor norte-americano.

É claro que com essa percepção das coisas, Foster Wallace era inquieto, e parecia não se localizar no tempo e espaço em que vivia. Lee Konstantinou, professor de Literatura da University of Maryland, disse sobre ele: “David não aceitava uma nova ordem mundial que escolheu o cálculo econômico e a hegemonia tecnológica no lugar da coragem, da imaginação e do idealismo”. Seus livros refletem bem isso, em especial, o monumental "Graça Infinita", que com sua ironia e acidez vem ganhando cada vez mais admiradores. O livro, finalmente, foi lançado em versão nacional aqui no Brasil ano passado.


Se Foster Wallace cometeu algum erro em vida, digamos que foi se expor demais. Num mundo onde a frieza dos relacionamentos predomina, obviamente, alguém que tanto prezava pelas sentimentalidades como ele iria sofrer. Antes de se enforcar, ele enfrentava uma depressão há mais de 20 anos. Mesmo assim, mostrava-se amável com as pessoas, e, em todas as entrevistas que ele deu (inclusive, uma clássica realizada pela revista Rolling Stone), sempre mostrava latente lucidez. Refletida em sua obra, tal lucidez fez "Graça Infinita" ser considerado um dos mais importantes romances americanos do século 20.

Defeito humano, o culto pós-morte deveria ser compensado com um melhor apreciamento de sua arte, como fala o escritor Joca Reiners Terron: “Depois que ele morreu, a difusão de sua obra beira a evangelização. A morte precoce de um autor sempre dá mais prejuízo do que ganho – o autor morto que o diga (se pudesse). Não curto muito a parte da necrofilia, prefiro a obra. Sou daqueles que ficam imaginando e se lamentando pelo que poderia ter vindo e não veio devido às circunstâncias.” E, de fato, Foster Wallace parece ser mais conhecido do que li, o que se pode dizer lamentável.


Mas, o tempo, como dito no começo deste texto pode tudo consertar. Que ele coloque (e deixe) David Foster Wallace no seu devido lugar: um grande escritor, com uma incrível alma humana.


Algumas influências: Kafka e Dostoiévski.
Leia: "Graça Infinita", Companhia das Letras.
Veja: "O Final da Turnê", dirigido por James Ponsoldt.
Saiba mais:
http://lounge.obviousmag.org/ao_sul_de_lugar_nenhum/2014/03/um-pouco-sobre-david-foster-wallace.html

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