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2015 chega o fim, e com ele, vem as retrospectivas. As lembranças servem, sobretudo, para momentos de reflexão; ver o que de melhor foi feito e reconhecer os erros. Na cultura, talvez, o prazer de fazer retrospectivas seja maior, pois, inevitavelmente, a memória se encarregará de nos mostrar muitas coisas boas. O cinema, este ano, no entanto, foi meio fraco (uma tendência; será?). Tivemos produções realmente relevantes em nossos cinemas, mas, foram poucas. Uma lista de 10 melhores filmes ficaria difícil de fazer, sob pena de colocar algo que não fosse assim tão bom. Por isso, a seleção a seguir abarca produções não apenas feitas em 2015, porém, que estrearam em nossos cinemas neste ano também. Agora sim, teremos uma ótima lista para mostrar.

Apaguem as luzes, inclinem suas cadeiras, façam silêncio, desliguem os celulares e boa viagem...


Melhores filmes de 2015


10° "Mad Max - A Estrada da Fúria" 
Nos últimos tempos, Holywood vem sendo acometida por uma falta de criatividade incrível. São (muitos) filmes baseados em super-heróis, em livros, em jogos de videogame, remakes, etc. Então, por que um remake está nesta lista? Simples: o diretor George Miller, simplesmente, recriou a franquia original para fazer um filmão. Tudo aqui é bem cuidado, desde a ação alucinante, até a estória (simples, mas muito eficiente). Ah, e a personagem Furiosa é fantástica. É o melhor que uma superprodução holywoodiana pode oferecer. Se isso é bom ou ruim...


Dois Dias, Uma Noite 
Este aqui é a prova de como um roteiro despretensioso pode tocar em assuntos bem complexos, como a lealdade e o egoísmo nos dias atuais. Relata a via crucis de Sandra, que tem o seu emprego ameaçado caso os seus "amigos" de trabalho não recusem um bônus oferecido na empresa. Cria-se aí uma luta inglória dela tentar convercê-los de abdicarem do dinheiro em nome do trabalho dela. Com ritmo e mostrando as situações sem manipulações forçadas, o filme dialoga bem com questões recentes, como a crise financeira, e até mais profundas, como as necessidades particulares das pessoas.


Boyhood - Da Infância à Juventude
Eis um filme audacioso. Afinal, não deve ter sido fácil filmar uma estória com os mesmos atores por 12 anos seguidos (!), acompanhando o crescimento dos personagens. O roteiro (também a cargo do diretor Richard Linklater) toca, de forma bem sutil, na questão da família, dos amigos, dos amores, do amadurecimento, e ainda encontra tempo para dar algumas "alfinetadas" na sociedade. A cena em que o garoto ganha de presente uma Bíblia, e depois, um rifle, é bem emblemática nesse sentido. Possui certas situações forçadas, mas, é um ótimo recorte de um jovem que, mesmo começando a viver, já tem uma visão peculiar do mundo.


Kurt Cobain - Heck of Montage
Documentários musicais, geralmente, tentam desmistificar a pessoa real por trás do mito. Em "Heck of Montage", isso é conseguido de forma preciosa. Não temos apenas os costumeiros depoimentos de familiares e amigos do cantor, nem apenas imagens de arquivo. Tudo é produzido para contar a estória de vida de Kurt, até mesmo através de animações usadas como videoclipes para algumas de suas músicas. No final, realmente, a figura dele é destituída do pódio divino, e podemos vislumbrar uma figura frágil, com uma sinceridade latente, e uma grande decepção com o mundo. E, depois de desnudado, Cobain se torna ainda mais fascinante aos olhos.


Tangerinas
O tema da guerra, se bem explorado, rende bons frutos. Basta encontrar o tom certo, e, às vezes, contar uma estória diferente. Nesta produção da Estônia, acompanhamos Ivo e Margus, que estão no meio de uma batalha pela independência de uma comunidade da Geórgia. Enquanto um quer escapar o mais rápido possível do local, o outro só irá se colher toda a sua plantação de tangerinas. Quando dois feridos (e rivais) desse conflito ficam aos cuidados de Ivo e Margus, é a oportunidade para o filme abordar temas como a tolerância. Conclusão: não há motivos importantes para uma guerra, muito menos, para a violência. Uma linda produção. 


Leviatã
O que dizer de um filme que incomodou tanto um governo como o da Rússia, ao ponto deste soltar uma nota de repúdio à produção? No mínimo, seria algo interessante de se ver. Mas, o diretor Andrey Zvyagintsev vai além dessa polêmica e nos oferece uma produção fortemente crítica a respeito das instituições, desde o Estado até a Igreja. Também explora muito bem o velho clichê do "David x Golias", onde um homem comum tenta impedir os desmandos de um prefeito corrupto. O incômodo do filme é porque conseguimos identificar as situações abordadas na vida real, e não à toa, o governo russo o considerou um "filme maldito". Portanto, vale cada segundo assistido.


Relatos Selvagens 
Fazer recortes da vida em pequenas estórias pode soar um pouco clichê, principalmente, porque já temos dois clássicos nesse sentido, "Short Cuts" e "Magnólia". Mas, o diretor Damián Szifron consegue dar frescor a esse formato de filme, e nos presenteia com uma comédia de boas críticas sociais. Alguns enredos são ótimos, como o de dois homens que se engalfinham até a morte por motivos banais no meio do deserto, e o de um grande empresário que tenta encobrir um crime de seu filho. Outros, nem tanto, como o que encerra o filme, e envolve uma traição às vésperas de um casamento. Mesmo assim, no todo, a produção consegue o seu intento de fazer rir e refletir em doses iguais.


Que Horas Ela Volta?
Não tem jeito. "Que Horas"Ela Volta?" é o grande filme brasileiro de 2015. Isso porque a diretora Anna Muylaert consegui encontrar um equilíbrio desconcertante entre as produções nacionais: não tem ares "cult", para pseudointelectual ver, nem é pop raso, como as comédias arrasa-quarteirão da Globo. Trata-se apenas de uma boa estória, contada de maneira muito dinâmica, e colocando o dedo na ferida de uma classe média que continua a tentar ser elitista. As situações são de grande impacto e reflexão, mesmo que sutis. Regina Casé, quebrando alguns preconceitos, tem uma ótima performance e constrói uma personagem cativante. Enfim, sendo uma gota num oceano de mediocridade, este filme ainda pode dar muito o que falar. Merece.


O Jogo da Imitação
Uma cinebiografia é outro lugar-comum que o cinema, vez ou outra, produz em larga escala. Mas, o cineasta Morten Tyldum, felizmente, encontrou o tom certo ao falar da trajetória pouco usual de Alan Turing, simplesmente, o pai do computador moderno. Foram suas descobertas que possibilitaram a Inglaterra obter vantagem na Segunda Guerra, ao lado dos Aliados, e assim, salvou milhares de vidas. Mas, atormentado por não poder revelar suas descobertas, foi "acusado" de homossexualismo pela coroa britânica, e submetido a um tratamento químico. Forte e humano em muitos aspectos, o filme conta tudo isso de maneira sóbria, sem apelações dramáticas, e, mesmo assim, fica a revolta no espectador pelo destino de Turing. Vale ressaltar a fantástica interpretação de Benedict Cumberbatch.


Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância)
O cinema estadunidense finalmente vislumbrou o sucessor de "Beleza Americana". Assim como o ácido filme de Sam Mendes provocou reações adversas em 1999, "Birdman", como há muito tempo não se via, suscitou o velho dilema: ame-o ou odeie-o. Isso porque o diretor Iñarritu não mediu esforços para criticar a sociedade com todo o vigor do seu sarcasmo. Os "tapas na cara" vão desde os relacionamentos efêmeros devido à atuais redes sociais, até ironizar a "galinha dos ovos de ouro" da Hollywood de hoje: as megaproduções de super-heróis. Sem contar os efeitos gráficos extremamente criativos, e uma câmera "flutuante", sem cortes. Fascinante do início ao fim, "Birdman" é um exemplar muito peculiar (e raro) do cinema recente.


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