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Dica de Filme

"Viagem Alucinante" (2009)
Direção: Gaspar Noé.


Talvez, poucas vezes assisti um filme em que o título em português fizesse jus ao nome. Tudo bem que "Enter the Void" é mais sutil, e tem a ver com elementos da trama, mas, esta produção do sempre polêmico Gaspar Noé consegue, de fato, ser alucinante. Para isso, o diretor se vale de artifícios técnicos que ele já havia elaborado em "Irreversível". Portanto, esperem muito envolvimento na estória, no sentido literal da palavra.

A estória, em si, como geralmente acontece nos longas de Noé, nem é tão importante assim. Basicamente fala da relação muito íntima entre dois irmãos, Linda e Oscar, onde este, após sua morte, vaga na Terra revendo seu passado e buscando seu futuro. Ponto! O diferencial aqui está no forma, na estética, na proposta narrativa. Por exemplo: a câmera, o tempo todo, mostra a visão de Oscar das coisas. Até as "piscadas" são fidedignamente reproduzidas.




Como ele é viciado em drogas, e já sabemos o desconforto que Noé gosta de submeter os espectadores de seus trabalhos, então, esperem imagens bastantes oníricas e surreais, emulando todo tipo de viagem lisérgica. Cores extremamente vibrantes e saturadas enchem a vista o tempo todo. Os "voos" da alma de Oscar também são muito bem-feitos, sempre em tomadas aéreas, e com cortes de câmara, passando por tetos e paredes, bastante inventivas. Os efeitos sonoros, como não poderiam deixar de ser, também se destacam nesse jogo sensorial que o diretor propõe.

O que o filme peca, mesmo, é no roteiro. A clássica estória incestuosa entre irmãos soa meio batida aqui. A personalidade dos personagens também é pouco delineada. O pouco que sabemos sobre Oscar é que ele, além de viciado, acabou virando traficante, e que possui um amor incondicional pela irmão. Esta, por sua vez, só aparece como a porralouca da trama, quase sempre servindo de objeto sexual para os homens que a cercam.




Nesse sentido, pode até parecer irônico que os personagens mais desenvolvidos sejam, justamente, os amigos de Oscar, Alex e Victor. Enquanto um serve como uma espécie de "guru espiritual" para o protagonista (vejam só!), o outro possui sérios conflitos familiares, principalmente quando a mãe se envolve amorosamente com seu amigo. São pessoas até mais interessantes que a dupla principal do filme, o que chega a ser até estranho.

Outro problema é a longa duração do filme. Sim, o "corte" no meio da trama, dando a entender que Oscar precisa recomeçar um outro ciclo e acalmar a sua alma, é ate necessário à estória, mas, quase três horas de alucinações na tela soa um tanto cansativo em muitos momentos. Tudo bem que a produção não é tão incômoda quanto "Irreversível", nem tão chata quanto "Love", mas, um enxugamento mais certeiro teria caído bem.




Apesar dos pesares, este é o melhor filme de Gaspar Noé que assisti. A proposta é realmente instigante, e possui muitos ótimos momentos. Não tivesse o diretor se deslumbrado com a possibilidade de um filme com essa estética narrativa, e controlado a sua vaidade, o resultado seria melhor, mais coeso. Mesmo assim, é uma experiência válida e muito interessante num cinema atual cada vez "mais do mesmo".


Nota: 8/10.  

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